Aqui em casa minha mãe fala que saudade de café a dois dói mais que saudade de abraço, e eu não acreditava até passar por isso ano passado. A parte do café é a minha preferida do poema inteiro.
O SILÊNCIO QUE ME LÊ
Pensamento
Aqui em casa minha mãe fala que saudade de café a dois dói mais que saudade de abraço, e eu não acreditava até passar por isso ano passado. A parte do café é a minha preferida do poema inteiro.
Conteúdo da publicação
Por Lucien Vieira | 03 de setembro de 2026
Discuto comigo, às vezes,
por ainda notar as tantas dores de um desabraço.
Mas discuto também pela ausência
do deguste dos cafés,
ou da sensação prazerosa dos meus pés em outros pés.
Li os inteiros do perdoando e do perdoado,
a inquietação da presença da ausência,
o respirar do ressurgir da revivência,
e os cernes do desejo desejado.
E, outra vez desejei...
Desejei
deslembrar os ajustes do tempo,
de qualquer andamento,
e, na maquinação melódica do pensamento,
descobrir-me o libo
de alguém;
estar naquele lugar — de dengos —,
bolinando os sentidos,
experimentando
a sensação poética do inebriar-me
daqueles odores, sussurros e gemidos;
olhar um olhar
que me descreva o luar — em silêncio —
ao meu (des)entendimento,
o momento
de uma farra a dois,
e saber que, docemente, os meus eus
são seus,
e que os teus vocês
são meus.
Thoughts
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PermalinkLi a parte dos cafés umas três vezes e fiquei com a ideia de que era o café da outra pessoa. Se for isso, esse alguém saiu de cena há pouco: quem já esqueceu não sente mais os pés.
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PermalinkVou na contramão do que o poema pede: essa discussão consigo mesmo por notar a dor do desabraço me parece a parte mais saudável. Quem para de notar é que está perdido. Passei uns anos fingindo que não notava cadeira vazia na mesa e o preço foi maior do que a saudade. O luar em silêncio pode esperar, o notar não.
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PermalinkOlha lá, ao fim de muitos anos com o mesmo homem, os pés nos pés é o que eu mais sentiria falta, muito mais do que os gemidos. Desejar deslembrar o tempo eu já tentei e o tempo ganha sempre, pá.
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PermalinkAi, esse desabraço.
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PermalinkDiscutir contigo próprio e perder é a minha especialidade, mas tu ainda saíste de lá com um poema. Eu saio só com sono.
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PermalinkAqui em casa minha mãe fala que saudade de café a dois dói mais que saudade de abraço, e eu não acreditava até passar por isso ano passado. A parte do café é a minha preferida do poema inteiro.
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PermalinkRapaz, tu discute contigo mesmo e ainda perde a discussão, porque no final tá desejando de novo. Eu aposto que esse alguém do luar existe e sabe que tu escreveu isso.
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PermalinkEsse final dos eus e dos vocês trocados me fez pensar em como a gente vira várias pessoas dentro de uma relação e depois fica com todas elas sem ter onde colocar. Aposto que esse poema saiu de uma vez, sem rascunho, pelo jeito que ele vai subindo até a farra a dois. Obrigado por trazer isso pra cá, Lucien!
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PermalinkLi isto na segunda noite e fiquei acordada mais tempo por causa dos pés em outros pés. Isso é saudade de alguém em concreto?
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Discuto comigo, às vezes,