Quando qualquer um imprime a mesma imagem em um minuto, ela perde a graça rápido. Aposto que em dois anos esse visual limpinho vai estar em todo panfleto de loja e ninguém mais vai parar pra olhar.
O Sabor do Vetor
Pensamento
Quando qualquer um imprime a mesma imagem em um minuto, ela perde a graça rápido. Aposto que em dois anos esse visual limpinho vai estar em todo panfleto de loja e ninguém mais vai parar pra olhar.
Conteúdo da publicação
Passei por uma situação curiosa.
Tenho um estilo de ilustração vetorial que desenvolvi ao longo do tempo. Para quem olha de fora, talvez pareça simples: formas geométricas, planos de cor, poucos contornos, sombras simplificadas. Mas existe uma diferença enorme entre olhar para o resultado e construir aquilo.
Resolvi usar uma inteligência artificial para transformar algumas fotografias seguindo a linguagem visual de uma das minhas próprias ilustrações.
O resultado ficou lindo.
Lindo pra diabo.
E esse foi justamente o problema.
A primeira reação foi de admiração. A imagem tinha as cores, as formas, a simplificação, a aparência de ilustração vetorial. Em segundos, algo que eu poderia levar horas para construir estava diante de mim.
Eu demoro aproximadamente seis a oito horas para fazer uma ilustração desse tipo. E não é simplesmente desenhar uma pessoa durante seis ou oito horas. É vetorizar cada objeto.
O cabelo não é simplesmente “cabelo”. São fios, massas, curvas e pequenas decisões. Os cílios são construídos. As sobrancelhas são construídas. A roupa é construída. Cada dobra, cada sombra, cada detalhe precisa existir como uma escolha. Até as cores, muitas vezes, são quase corretas em relação à fotografia — não necessariamente as cores mais bonitas ou mais realistas, mas as cores que eu decidi usar.
A inteligência artificial faz isso em menos de um minuto.
E então comecei a perceber uma coisa.
A imagem estava certa, mas faltava alguma coisa.
Ela tinha sabor de vetor.
Eu faço um desenho vetorial.
A IA faz um desenho “sabor vetorial”.
Parece uma diferença pequena, mas não é.
No meu trabalho, o vetor é uma linguagem de construção. Eu realmente penso através das formas. Eu escolho onde uma curva termina, onde uma sombra invade outra, onde uma proporção deve ser exagerada, onde uma cor deve ficar quase correta e onde um detalhe precisa ser mantido mesmo que, tecnicamente, seja desnecessário.
A inteligência artificial consegue reproduzir a aparência dessas decisões.
Mas não necessariamente a razão delas.
E foi aí que percebi outra coisa sobre o meu próprio estilo: os meus erros são acertos do meu estilo.
Uma curva pode estar imperfeita.
Uma proporção pode estar exagerada.
Uma sombra pode ser mais pesada do que deveria.
Uma cor pode não corresponder exatamente à realidade.
Um fio de cabelo pode estar em um lugar aparentemente desnecessário.
Mas esses erros foram escolhidos por mim.
Depois de tantas imagens, eles deixam de ser simplesmente erros. Tornam-se parte da linguagem.
Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de copiar em um artista.
Não são apenas as regras.
São as exceções às próprias regras.
É saber quando exagerar. Quanto exagerar. Quando deixar uma curva estranha. Quando uma cor “errada” funciona melhor. Quando uma imperfeição precisa permanecer porque, sem ela, a imagem fica limpa demais.
A inteligência artificial pode aprender que eu faço fios de cabelo individualmente.
Pode aprender que uso determinadas cores.
Pode aprender que simplifico sombras.
Pode aprender que exagero certas formas.
Mas existe uma diferença entre saber que eu faço isso e saber por que, onde e quanto.
E existe ainda uma diferença maior:
ela pode reproduzir o erro, mas não necessariamente o motivo pelo qual aquele erro se tornou um acerto.
Foi isso que me deixou estranho diante das imagens geradas.
Elas eram, em alguns aspectos, até melhores que as minhas.
Mais limpas.
Mais equilibradas.
Mais bonitas.
E isso é difícil de admitir depois de passar seis ou oito horas construindo uma imagem manualmente.
Mas talvez “melhor” seja a palavra errada.
A IA consegue otimizar o resultado.
O artista constrói uma linguagem.
A IA pode fazer uma imagem muito bonita.
Mas uma imagem bonita não necessariamente carrega a mesma história de decisões, exageros, vícios, acidentes e pequenas obsessões de quem a desenhou.
Talvez seja essa a diferença entre estilo e aparência de estilo.
A aparência pode ser reproduzida.
O estilo, não completamente.
Porque o estilo não está apenas no que fazemos certo.
Ele também está em como erramos.
E talvez, no fim, seja isso que torna uma imagem realmente nossa:
não os erros que conseguimos eliminar, mas aqueles que aprendemos a transformar em acertos.
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Thoughts
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PermalinkQuando qualquer um imprime a mesma imagem em um minuto, ela perde a graça rápido. Aposto que em dois anos esse visual limpinho vai estar em todo panfleto de loja e ninguém mais vai parar pra olhar.
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PermalinkSeis a oito horas contra menos de um minuto: quem contrata ilustração vai olhar primeiro esse número, e quem ganha com isso não é quem desenha.
Meu palpite é que o ilustrador vai acabar cobrando pelo motivo das escolhas, quase como direção de arte, e cada vez menos pela hora de vetorização.
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