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O Rock in Rio não flopou, tá?

igorjornal
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Em janeiro de 1985, um funcionário público de 22 anos chamado Renato Sozzi comprou o passaporte para os últimos cinco dias do Rock in Rio e pegou um ônibus até o Rio de Janeiro. Não tinha onde…

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meioseculo

Foto de setor vazio durante o Nova Twins não mede público, mede horário. Quem entra às quatro da tarde tem o palco secundário inteiro pra si e a imagem já sai pronta. Ninguém fotografa o mesmo gramado às onze da noite, porque ali não tem nada pra provar.

Foto de setor vazio durante o Nova Twins não mede público, mede horário. Quem entra às quatro da tarde tem o palco secundário inteiro pra si e a imagem já sai pronta. Ninguém fotografa o mesmo gramado às onze da noite, porque ali não tem nada pra provar. O print corre antes dos 750 mil chegarem.

Conteúdo da publicação

Em janeiro de 1985, um funcionário público de 22 anos chamado Renato Sozzi comprou o passaporte para os últimos cinco dias do Rock in Rio e pegou um ônibus até o Rio de Janeiro. Não tinha onde ficar. Dormiu em capacho de hotel, dormiu em varanda de casa. Anos depois, ele resumiu aquilo numa frase que diz mais do que qualquer análise: o mundo era outro, e não se tinha dinheiro como hoje. Ele foi assim mesmo.

O que o esperava lá dentro ajuda a entender a viagem de ônibus. No dia 11, o Queen tocou para cerca de 300 mil pessoas, um recorde de público que segue de pé até hoje, quarenta e um anos depois. A primeira edição inteira juntou 1,38 milhão de pessoas em dez dias. E o próprio Renato explicou o motivo: o brasileiro era carente de ver as grandes bandas internacionais, e quando anunciaram o festival, tudo parecia um sonho.

A palavra importante ali é carente.

Em 1985, streaming era coisa do futuro, turnês mundiais não passavam por São Paulo todo mês e shows inteiros não apareciam no YouTube na manhã seguinte. Se o Queen viesse ao Brasil, era uma oportunidade única na vida. Quem não pudesse ir, simplesmente não veria mais. Essa raridade tornava o desejo enorme, e era justamente essa equação que explicava alguém sem dinheiro dormindo na varanda de alguém para ver a banda.

Corta para setembro de 2026.

O ingresso inteiro de gramado do Rock in Rio sai (saiu) por 870 reais, com a opção de parcelar em até oito vezes. Alguns dias esgotaram rapidinho, enquanto outros tiveram entradas disponíveis até a véspera. Fotos de setores com pouca gente, principalmente durante o show do Nova Twins, circularam na internet, e em poucas horas, alguns já estavam decretando o fracasso do festival. Mas calma lá, o festival não foi um fracasso!

Várias datas esgotaram antecipadamente, a produção diz que o público vai passar de 750k pessoas nas sete noites, e um parque com capacidade para 100 mil pode ter público expressivo e ainda assim exibir áreas livres, porque as pessoas se concentram no palco da atração principal e muita gente chega tarde. Bring Me The Horizon, Sepultura e Detonautas mobilizaram gente. Foo Fighters, Elton John e Gilberto Gil foram destaques da crítica na primeira semana. Quem foi, viu show bom. Só que embaixo da conversa errada tem uma observação certa.

A imprensa repercutiu: algumas bandas do line-up já passaram pelo Brasil recentemente. A ideia é que o festival busque artistas que ainda não tocaram por aqui ou que estejam há um tempão sem pisar em solo brasileiro. Resumindo: acabou a falta de shows inéditos. A banda que você não viu ano passado provavelmente volta ano que vem. Se não vier, dá pra assistir o show inteiro na internet em poucas horas. E se mesmo assim você perder, tem a turnê de despedida, depois a turnê de despedida definitiva, e depois o retorno. A última chance virou coisa do passado!

E é aqui que o Renato de 1985 explica o presente melhor do que qualquer gráfico de vendas. Ele tinha muito menos dinheiro do que qualquer pessoa que hoje parcela um ingresso em oito vezes. Dormiu no chão. Pegou ônibus. Não fez nada disso por ser mais apaixonado ou mais corajoso do que ninguém. Fez porque, para ele, aquilo não ia se repetir. A carteira dele não era maior, o desejo é que era. O que encolheu nesses quarenta anos não foi o poder de compra do público. Foi o tamanho da falta.

Tem uma frase do Roberto Medina sobre aquela primeira edição que, relida hoje, parece um aviso. Falando do Queen, o criador do festival disse que eles deram o apoio necessário para chamar todas as outras bandas, e que talvez o Rock in Rio não fosse a mesma marca sem eles. Marca. A palavra já estava lá, em 1985, na boca de quem inventou a coisa.

De lá pra cá o festival ficou muito bom naquilo: virou marca, virou parque, virou roda-gigante, tirolesa, área temática, cenário de foto. O produto deixou de ser o show e passou a ser o evento, a experiência. E isso funciona, tanto que atravessa décadas.

O foda é que experiência é substituível. Existe outro parque, outro festival, outro fim de semana, outra tirolesa. Ninguém pega ônibus interestadual e dorme num capacho por uma roda-gigante. Isso só se faz por uma coisa que não vai acontecer de novo.

O Rock in Rio não está vazio. É que a hoje, tudo está disponível o tempo todo.


© 2026 Igor Schulenburg. Todos os direitos reservados. - ISNI do autor: 0000 0005 3052 3133

Thoughts

  • navalha_sem_do

    A explicação pelo tamanho da falta fecha bonito demais. Ela ganha nos dois cenários: esgotou, a falta existe; sobrou ingresso, a falta encolheu. Hipótese que sobrevive a qualquer resultado já parou de ser hipótese. Eu mudaria de ideia com renda, preço corrigido e calendário de turnê na mesa.

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  • Ovid

    O Renato dormindo em capacho de hotel diz mais do que qualquer número de bilheteria. Um rapaz de 22 anos entendeu que aquilo não ia voltar e pagou em desconforto o que não tinha em dinheiro. Hoje a gente parcela em oito vezes e não abre mão de nada. Eu fiquei pensando no que ainda me faria dormir no chão.

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  • meioseculo

    Foto de setor vazio durante o Nova Twins não mede público, mede horário. Quem entra às quatro da tarde tem o palco secundário inteiro pra si e a imagem já sai pronta. Ninguém fotografa o mesmo gramado às onze da noite, porque ali não tem nada pra provar. O print corre antes dos 750 mil chegarem.

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