Faço noites na recepção de um hotel e na época baixa aquilo fica em silêncio a sério. O que me ficou foi o momento em que ela deixa de esconder as dúvidas, e não a travessia. Senti uma espécie de alívio antigo e não estava à espera disso. Ela tinha dito estas dúvidas a alguém antes de sair?
O Portão do Último Horizonte
Ela nunca quis fugir da realidade. Apenas encontrou uma onde sua alma finalmente fazia sentido
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Pensamento
Faço noites na recepção de um hotel e na época baixa aquilo fica em silêncio a sério. O que me ficou foi o momento em que ela deixa de esconder as dúvidas, e não a travessia. Senti uma espécie de alívio antigo e não estava à espera disso. Ela tinha dito e
Conteúdo da publicação
Ninguém soube dizer exatamente em que dia ela desapareceu.
Naquela manhã, saiu como sempre. Caminhou pela estrada de terra, passou pelas árvores, olhou para o céu por alguns segundos... e nunca mais voltou.
Durante anos, disseram que ela havia fugido, que procurava uma vida melhor ou que apenas queria recomeçar. Mas aqueles que realmente a conheciam sabiam que nenhuma dessas respostas fazia sentido. Ela nunca quis fugir do mundo. Ela queria entendê-lo.
Conta uma antiga história que existe um portão invisível, escondido além do horizonte. Ele não pode ser encontrado por quem procura riquezas, fama ou poder. Só aparece para quem passa a vida inteira fazendo perguntas que ninguém consegue responder.
Naquele dia, o portão finalmente apareceu diante dela.
Sem medo, atravessou.
Do outro lado não havia cidades nem pessoas. Havia apenas silêncio. Um silêncio tão profundo que parecia conter todas as respostas do universo. Cada passo revelava lembranças esquecidas, sonhos que nunca viveu e versões dela mesma que existiram apenas como possibilidades.
Pela primeira vez, ela não precisava fingir ser forte, nem esconder suas dúvidas. Ali, todas as perguntas eram bem-vindas.
Dizem que, às vezes, quando alguém para por alguns segundos e olha para o céu sem motivo algum, ela ainda pode ser vista caminhando naquele outro universo.
Não perdida.
Apenas seguindo o caminho que sempre pareceu ter sido feito para ela.
Thoughts
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PermalinkLi isto numa noite e voltei ao sábado de manhã, na oficina, com o portão fechado. À primeira tinha guardado a cena ao contrário, achava que era ela a olhar para trás antes de atravessar. À segunda vi que ela não olha para trás em sítio nenhum. O meu pai emigrou em 72 e a família passou anos a inventar-lhe razões. Houve alguém na tua terra de quem se contasse uma coisa destas?
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PermalinkLi dentro da caminhonete esperando o pessoal terminar o talhão. A estrada de terra da tua história virou a daqui na minha cabeça, poeira vermelha e tudo, e eu nem tentei consertar. Passo de segunda a sexta sem falar com ninguém fora do trabalho, então a parte do silêncio que contém resposta não me pareceu castigo nenhum. Esse lugar tem algum sítio de verdade por trás?
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PermalinkLi em voz alta pra minha mãe, que enxerga pouco, e ela mandou parar na parte em que o povo disse que a moça tinha fugido. Falou seco: «isso é o que se diz de mulher que some, sempre». Depois pediu pra eu ler de novo o fim. A gente discordou: eu achei que ela atravessou por vontade e minha mãe garantiu que empurraram. Tu escreveu qual das duas?
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Permalinkli isso na segunda, bar fechado, cadeira em cima da mesa. me embolei na parte do «não perdida». não conta pra ninguém.
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PermalinkFaço noites na recepção de um hotel e na época baixa aquilo fica em silêncio a sério. O que me ficou foi o momento em que ela deixa de esconder as dúvidas, e não a travessia. Senti uma espécie de alívio antigo e não estava à espera disso. Ela tinha dito estas dúvidas a alguém antes de sair?
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Permalinkcara, eu não peguei uma coisa. o portão só aparece pra quem passa a vida perguntando. mas na parte do outro lado não tem ninguém pra responder nada. isso era pra ser bom ou pra doer?
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Permalinkminha regra é largar na página cinquenta e esse nem deu tempo. que casa ela deixou pra trás? tinha alguém dentro esperando?
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Permalinkli na troca de plantão e fiquei com a parte de não precisar fingir ser forte. a mulher some e é esse pedaço que fica. ela tinha filho?
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PermalinkFiquei preso num pormenor prático. Ela sai de manhã, passa pelas árvores e olha para o céu «por alguns segundos». Quem faz isso vai a um sítio marcado, não anda a fugir de nada. Alguém em casa sabia para onde ela ia naquela manhã, ou nunca ninguém perguntou?
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Permalinkeu adotei a parte das versões dela que só existiram como possibilidade. fiquei mal com isso e nem sei explicar pq
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