Polinização artificial com UV numa estação dá pra imaginar pra alface e tomate. Soja quase nem precisa de abelha, ela se poliniza sozinha. Meu palpite é que a urgência do Tomas tem menos a ver com agricultura e mais com saber quem em Ceres está mexendo com semente.
O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 2
Estou em uma estação espacial, a cerca de 35.786 km de altitude, movendo-me a aproximadamente 11.000 km/h. Mesmo assim, pareço parado no mesmo ponto do céu, visto da Terra.
Em séries
In groups
Pensamento
Polinização artificial com UV numa estação dá pra imaginar pra alface e tomate. Soja quase nem precisa de abelha, ela se poliniza sozinha. Meu palpite é que a urgência do Tomas tem menos a ver com agricultura e mais com saber quem em Ceres está mexendo co
Conteúdo da publicação
O Efeito Overview
Estou em uma estação espacial, a cerca de 35.786 km de altitude, movendo-me a aproximadamente 11.000 km/h. Mesmo assim, pareço parado no mesmo ponto do céu, visto da Terra.
Vejo a Terra através de uma redoma de vidro reforçado. O planeta azul. O pálido ponto cinza.
Olhando daqui de cima, sinto uma urgência quase impossível de explicar: fazer sementes crescerem sem a ajuda de abelhas ou outros insetos, utilizando sistemas de polinização artificial, bioestimulação ultravioleta e mecanismos de reprodução vegetal autossustentável. Talvez estejamos diante de uma descoberta capaz de revolucionar a agricultura. Talvez estejamos apenas tentando forçar a vida a existir onde ela não deveria.
Ainda desconfiamos de uma pessoa em Ceres. Ninguém quer saber disso. Por enquanto, é apenas uma especulação. Ela é estudada à distância. Um ponto sensível, talvez o mais sensível, quando o assunto são as sementes e aquilo que podem revelar.
Vejo pessoas do mundo inteiro. Como naquela canção: "Se o mundo inteiro me pudesse ouvir..." Eu não diria nada. Ninguém sabe o verdadeiro valor do silêncio.
Em Ceres, devido ao nosso comportamento e às leis de nossa Mãe, desenvolvemos, ao longo dos anos, uma hipersensibilidade empática somática, a HES. Mas concentramos essa capacidade em nossos esforços e em nosso instinto de sobrevivência.
O mesmo aconteceu com Silencium. A linguagem de sinais sofreu transformações. Um gesto pode significar muito mais do que uma palavra. Muitos acreditam que uma linguagem baseada apenas no silêncio é primitiva. Pelo contrário. São pessoas que se consideram superiores, mas não compreendem que somos aquilo que fazemos em silêncio, não aquilo que falamos.
Daqui de cima, escuto o silêncio dos deuses.
Sou um astronauta de mármore. Para Ceres, sou um monumento de esperança que nasceu em seu próprio solo. Uma esperança cinza-escura, confundida por todos com pessimismo.
Mas pessimistas não constroem uma cidade cinza-escura, eficiente, organizada e capaz de projetar o amanhã.
Ceres vive no hoje.
O planeta não está acabando. Ele continua se reformulando sozinho. Nós, porém, modificamos o mundo de tal maneira que somos semelhantes a alguém que manuseia um livro usado: arranhamos suas páginas, rabiscamos suas margens, rasgamos algumas folhas. Ainda assim, o conhecimento continua lá.
Não temos um deus em quem acreditar. Temos uma Mãe a quem suportar.
A fé é apenas um enfeite para aqueles que não fazem nada. Acreditam que irão morar com seu deus quando morrerem. Que encontrarão um destino fabuloso em um mundo que ninguém viu, sentiu ou sequer sabe como é.
Eu, porém, moro com minha Mãe enquanto ainda estou vivo.
Eu a vejo. Vejo seus milagres. Milagres mais concretos do que uma imagem ou a pareidolia insignificante de um ser invisível, criado pela necessidade humana de preencher o vazio.
Mãe Ceres, eu vejo você.
Você me alimenta, me educa e me devora.
Não estou aqui para salvar o mundo.
Estou aqui para salvar Ceres.
Todos acreditam que seus deuses os levarão ao paraíso. Mas onde fica esse paraíso? Como é? Qual é o seu peso? Sua temperatura? Sua gravidade? Eles não sabem. E ainda assim, se assustam com Ceres.
Imaginem, então, como deve ser o paraíso deles.
Nada.
O planeta não é mais do que pedra, água, terra e seres vivos, presos a uma gravidade absurda, sustentados pela energia do Sol. Damos voltas ao redor dele, presos à sua força, viajando para lugar nenhum.
E ainda acreditam que seus deuses os levarão ao paraíso.
Para onde?
Um desperdício de fé, esperança e energia depositado em um vazio que ninguém consegue tocar.
Minha Mãe pensa com o estômago.
O resto pensa com o fígado.
Thoughts
-
PermalinkUma senhora que eu conhecia passava a noite na varanda olhando a cidade lá embaixo, e dizia que de longe ninguém briga. O Tomas lá em cima me lembrou dela, com a diferença de que ele vê o mundo todo e escolhe não dizer nada.
-
PermalinkPolinização artificial com UV numa estação dá pra imaginar pra alface e tomate. Soja quase nem precisa de abelha, ela se poliniza sozinha. Meu palpite é que a urgência do Tomas tem menos a ver com agricultura e mais com saber quem em Ceres está mexendo com semente.
-
PermalinkA estação parada no mesmo ponto do céu enquanto corre a 11 mil km/h me fez pensar no próprio Tomas: parece imóvel lá em cima, mas tá correndo o tempo todo pra salvar Ceres. Deve ser por isso que ele se chama de monumento. Aposto que essa pessoa estudada à distância ainda vai tirar ele do pedestal!
-
PermalinkSemente crescendo sem abelha, fiquei pensando no pe de acerola la de casa que so da fruta quando as abelha aparecem
Related posts
-
O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 4
Sofremos espionagem constantemente.
-
O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 5
Por que Mãe Ceres fascina, assusta e encanta?
-
Eloquência da Fome - Parte 5
Neste momento, o verniz rasga.
-
O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 3
Durante algum tempo, contribuí para a construção da INCOGNITUS, uma inteligência artificial especializada em encontrar melhorias. No começo, tratávamos aquilo quase como uma brincadeira. Não…
-
Eloquência da Fome - Parte 6
Era a última sequência de perguntas com Mãe Ceres.
-
Eloquencia da Fome - Parte 1
Na Torre de Ceres, uma equipe de filmagem estava posicionada na sala de mármore. O cenário estava montado. Era uma entrevista ao vivo.
-
O Pálido Ponto Cinza - Major Tomas - Parte 1
Estou há quase seis meses aqui, estudando sementes que crescem sob raios ultravioleta. Muitos pensam que vim para a estação espacial Ceres 2 para forjar uma nova arma, um vírus ou alguma tecnologia…
-
O Caderno de Perguntas - Parte 1
Uma bela refeição. Todos satisfeitos.