Você continua procurando no fundo da máquina quebrada. Quanto tempo antes de desistir, ou é não desistir que mantém de pé?
O Operário da Ferrugem
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Você continua procurando no fundo da máquina quebrada. Quanto tempo antes de desistir, ou é não desistir que mantém de pé?
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O Operário da Ferrugem
Entro na fábrica quando ainda é noite.
Talvez seja apropriado.
Homens como eu não deveriam trabalhar sob o sol.
O sol é uma testemunha.
E eu já tenho testemunhas demais dentro da cabeça.
Bato o ponto.
É a única prova de que ainda existo.
Depois disso, torno-me número, braço, suor, ferrugem.
Um homem seria demasiado caro para esta fábrica.
Homens têm sonhos.
Máquinas não.
Por isso, aprendi a não sonhar.
Aprendi a obedecer ao ruído das engrenagens,
ao apito, ao relógio,
à fome que chega no horário exacto
e à tristeza que nunca se atrasa.
Passo o dia fabricando coisas que não amo
para comprar uma vida que não reconheço.
Que ironia miserável.
Construo peças para máquinas continuarem funcionando,
enquanto mal consigo manter meu próprio coração funcionando.
Às vezes penso que a fábrica não produz ferrugem.
Produz homens.
Homens cansados.
Homens vazios.
Homens que chegam vivos
e saem apenas respirando.
A ferrugem é honesta.
Ela não finge que vai durar.
Nós fingimos.
Dizemos “amanhã”.
Dizemos “um dia”.
Dizemos “quando tudo melhorar”.
Talvez seja isso que chamamos de esperança:
a maneira mais elegante de adiar o desespero.
No intervalo, acendo um cigarro
e observo minhas mãos.
Estão sujas.
Não sei se é óleo, ferro ou pecado.
Talvez não exista diferença.
Penso no homem que eu era antes desta fábrica.
Não consigo lembrá-lo.
Talvez tenha morrido aos poucos,
entre um turno e outro,
sem que ninguém tivesse coragem de declarar o óbito.
E isso é o mais cruel:
ninguém sente falta de um homem
que ainda aparece para trabalhar.
Continuo.
Porque preciso do dinheiro.
Porque preciso comer.
Porque preciso pagar as contas.
Porque, aparentemente, até a miséria exige disciplina.
Mas há uma razão que não confesso a ninguém.
Eu continuo trabalhando
porque ainda espero encontrar,
no fundo de alguma máquina quebrada,
entre o ferro oxidado e o sangue das minhas mãos,
um pequeno fragmento daquilo que chamava de alma.
Talvez seja isso a redenção.
Não ser salvo.
Apenas descobrir que, depois de tudo,
ainda existe alguma coisa dentro de nós
que a fábrica não conseguiu transformar em ferrugem.
Quando o turno termina,
todos vão embora.
Eu também.
Mas às vezes permaneço alguns minutos.
Escuto as máquinas morrendo uma por uma.
E naquele silêncio breve
tenho a impressão de ouvir meu próprio coração.
Fraco.
Quase morto.
Mas ainda batendo.
E talvez seja essa a minha única vitória:
não ter conseguido viver,
mas também não ter aprendido completamente
a morrer.
Thoughts
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PermalinkVocê continua procurando no fundo da máquina quebrada. Quanto tempo antes de desistir, ou é não desistir que mantém de pé?
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Permalink"Até a miséria exige disciplina" me atingiu em cheio. BRAVO!
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PermalinkNo final daquele poço você acha um fragmento. Qualquer um podia virar ferrugem completo, mas você continua procurando.
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PermalinkEu trabalho em fábrica. Invento coisas pra contar. A gente finge.
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PermalinkAquele final com você ouvindo o coração fraco. A fábrica é um lugar onde tudo morre junto, ou é refúgio quando todos saem?
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PermalinkEstar respirando mas não vivendo. Ninguém nota que você sumiu enquanto ainda aparece pra trabalhar.
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PermalinkQuem mexe em ferro conhece essa do sol ser testemunha. Abro a loja às sete e a primeira hora é a única em que ainda sou eu, depois é corrente, massa e cliente atrás de cliente. A parte de morrer aos poucos entre um turno e outro, sem ninguém ter coragem de declarar o óbito, essa deixou-me parado a olhar para a porta.
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Permalink"Penso no homem que eu era antes. Não consigo lembrá-lo." Isso é tão específico e quebra tudo.
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PermalinkA fome que chega no horário exato, a tristeza que nunca se atrasa. Isso veio de observar a fábrica ou foi construção?
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