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O olhar do pequeno juiz

Sadnar
Pensamento

Pensamento

Lucimar

Eu defenderia um pouco o caixa. Troco contado moeda por moeda, cliente escondendo a mão machucada atrás do balcão: reparar nisso faz parte do serviço de quem responde pela gaveta. O preconceito começa quando a roupa rasgada vira prova.

Eu defenderia um pouco o caixa. Troco contado moeda por moeda, cliente escondendo a mão machucada atrás do balcão: reparar nisso faz parte do serviço de quem responde pela gaveta. O preconceito começa quando a roupa rasgada vira prova.

Conteúdo da publicação

Olho para frente e me vejo cercado por medicamentos dos mais variados tipos e fabricantes. Estou entediado. Clientes entram e saem. Duas atendentes no balcão, um repositor arrumando a prateleira de shampoo e condicionador. Não vejo a farmacêutica. Deve estar lá atrás arrumando os medicamentos controlados, como de costume. Não sei se é pra matar tempo, ou se realmente tem o que arrumar. Tenho minhas dúvidas. Também não vejo a gerente. Provavelmente está no depósito vidrada em frente ao computador e com os olhos nas câmeras. O segurança está em pé encostado na parede e com o boné para baixo para que ninguém veja que está dormindo.

São seis dias nesse lugar, uma folga e começa tudo de novo. Quase todo dia as mesmas demandas, as mesmas emoções, os mesmos sentimentos, os mesmos pensamentos. Já fazem 3 anos que estou aqui. Confesso que estou cansados dos mesmos assuntos. Renata, a gerente, está em crise com o marido. Ele não faz nada em casa. Vanessa, uma das atendentes, vive em bailes e pagodes, mas procura um amor. Gustavo, o repositor, não quer estar aqui. Está estudando para vestibular. Tomara que passe. É o mais esforçado de todos. É metódico e tem TOC. Eu não o sei o que quero, é melhor aqui do que nada. Fabiana, a outra atendente, vive dando atestado. Confesso que tenho certa inveja da audácia dela. Francine, a farmacêutica, meio nariz em pé. Nos olha com certo desdém.

É noite de domingo, feriado de dia das mães. Fechamos as 23 horas e ainda faltam uma hora e trinta minutos para encerramos. Olho para a porta, vejo um homem alto, pele dourada, vestindo uma camisa verde escura desbotada, short jeans rasgado, chinelo branco encardido nos pés. Com braços e pernas extremante peludos, barba grande e cabelo por cortar. Aparenta ter entre 30 e 40 anos. Caminha em direção as atendentes. Dá boa noite para Vanessa e Fabiana e pede um Pravastatina, remédio para controle de colesterol.

Quantas miligramas? - questiona Vanessa.

20, por favor - responde o homem.

Vanessa caminha em direção aos remédios de letra P e pega três caixas de fabricantes diferentes. Retorna ao computador, faz a leitura dos códigos de barra.

Este custa 20,99, este 16,60 e este 35,99 - fala Vanessa apontando para cada caixa.

Quero este, o mais barato - responde o homem.

Pega o medicamento e caminha em minha direção. Olho as horas em meu celular e são 21:35. Que tédio. O homem chega ao caixa e me dá boa noite. Respondo o boa noite e pergunto se tem cadastro da loja. Responde que sim e peço para digitar o CPF na máquina. Enquanto digita o CPF, percebo seu punho está machucado. Como se tivesse socado algo. Olha para a outra mão e vejo a mesma situação. Ele percebe e esconde as mãos, colocando-as atrás do balcão. Nesse momento minha cabeça transborda de pensamentos: será que brigou com alguém? será alguém mal intencionado? será um assaltante? Tento focar em ler o código de barras. Falo o preço e pergunto forma de pagamento.

Dinheiro - diz ele.

Tira do bolso uma nota de 20 reais e me estende a mão. Novamente, meus olhos correm em direção aos seus punhos e me ponho a analisar seu corpo todo com mais detalhes. Camisa surrada, suja, com rasgados. Bermuda suja. Novamente minha mente é tomada por pensamentos: será que irá fazer alguma coisa? Pego uma moeda de 5, outra de 10 e uma de 25 centavos, uma moda de 1 real e uma nota de 2 reais. Fecho a gaveta, entrego o troco com a nota fiscal.

Tenha uma boa noite senhor - uma mensagem automática em tom de simpatia.

Você também - responde ele.

Saiu em direção a porta. Meu olhar o segue, pelos vidros transparentes até sumir de vista. Respiro fundo. Consciente do meu pensamento preconceituoso, o julgando pela vestimenta, pela aparência. Me questiono quando aprendi, quando comecei a exercer sobre os outros esse olhar de vigilância, de julgamento. Será este o mesmo olhar da farmacêutica? Tudo aquilo que as professoras de sociologia e história falavam agora fazem todo sentido. Que mundo cruel, me transformou numa engrenagem de controle dos outros.

Novos clientes entram na loja. Um casal olhando a seção de desodorante, um adolescente na seção camisinha... Me permito um último pensamento sobre esse tema, até que aconteça novamente: Como me livro disso?

Thoughts

  • Lucimar

    Eu defenderia um pouco o caixa. Troco contado moeda por moeda, cliente escondendo a mão machucada atrás do balcão: reparar nisso faz parte do serviço de quem responde pela gaveta. O preconceito começa quando a roupa rasgada vira prova.

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  • luluca

    Fiquei pensando na gerente olhando as câmeras lá do depósito e no caixa olhando os punhos do homem. É a mesma vigilância, só que uma é paga pra isso e a outra virou costume sem ninguém mandar. Me lembrou O Conto da Aia, onde todo mundo vigia todo mundo e ninguém precisa receber ordem. O homem da Pravastatina voltou outra vez na farmácia?

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