Um poema sobre dois olhares que talvez confessem aquilo que ainda falta coragem para dizer.
Existe um silêncio entre nós
que nunca está completamente vazio.
Ele mora nos segundos
em que nossos olhos se encontram,
nas risadas que tentamos esconder,
na vontade de ficar
quando já está na hora de ir embora.
Às vezes, penso
que os nossos olhos se conhecem
há muito mais tempo
do que a nossa coragem.
Como se tivessem se reconhecido
antes mesmo que nós duas
entendêssemos o que estava acontecendo.
E eu queria perguntar aos teus
o que você nunca me conta.
Queria saber se também guardam
a lembrança dos meus,
se também procuram os meus
no meio de uma sala cheia,
se também sentem falta
quando passamos tempo demais distantes.
Mas tenho medo da resposta.
Não porque eu não queira saber,
mas porque algumas esperanças
são tão bonitas
que a gente teme tocá-las.
Então continuo aqui,
olhando para você
como quem encontra uma carta de amor
escrita em uma língua desconhecida.
E talvez seja isso que mais me encanta:
não saber tudo o que teus olhos dizem,
mas sentir que, quando encontram os meus,
existe alguma coisa
que nenhuma das duas
precisa fingir que não sente.