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O Monstro que Aprendeu a Rezar

Noctharys
Pensamento

Pensamento

Clemilda

A gente vê o contrário também, rapaz. Tem quem peça desculpa com palavra bonita e não mude nada, mas tem quem nem saiba pedir e apareça no outro dia pra consertar o portão que derrubou. O texto olha só pro primeiro tipo.

A gente vê o contrário também, rapaz. Tem quem peça desculpa com palavra bonita e não mude nada, mas tem quem nem saiba pedir e apareça no outro dia pra consertar o portão que derrubou. O texto olha só pro primeiro tipo.

Conteúdo da publicação

Talvez o maior privilégio do ser humano seja a capacidade de cometer as piores atrocidades sem precisar abandonar a convicção de que é uma pessoa decente. Existe algo profundamente perturbador na maneira como conseguimos destruir aquilo que tocamos e, ainda assim, encontrar dentro de nós uma explicação que nos absolva. Ferimos alguém e chamamos isso de sinceridade; abandonamos aqueles que precisam de nós e justificamos nossa ausência como uma necessidade de sobrevivência; alimentamos ressentimentos durante anos e, quando finalmente temos a oportunidade de devolver a dor que recebemos, convencemo-nos de que estamos apenas corrigindo uma injustiça. A consciência, que deveria funcionar como testemunha de nossas ações, transforma-se em uma cúmplice silenciosa, sempre disposta a reorganizar os acontecimentos para que continuemos ocupando o papel de vítimas em nossas próprias histórias.

Talvez seja por isso que gostamos tanto de imaginar os monstros como criaturas distantes, seres cuja natureza nos parece tão repugnante que jamais poderíamos reconhecer qualquer semelhança entre eles e nós. Precisamos acreditar que a crueldade possui uma aparência específica, que a perversidade deixa marcas visíveis e que existe alguma diferença fundamental entre aqueles que praticam o mal e aqueles que passam a vida condenando-o. Essa crença nos oferece uma segurança quase infantil, porque transforma a moralidade em uma espécie de certificado de inocência: enquanto conseguirmos apontar para alguém e dizer que essa pessoa é pior do que nós, poderemos continuar evitando a pergunta que realmente importa. Não o que torna alguém capaz de se tornar um monstro, mas quantas justificativas seriam necessárias para que aceitássemos nos tornar um.

E talvez a tragédia não esteja no fato de que existem pessoas capazes de fazer coisas terríveis, mas na facilidade com que aprendemos a conviver com aquilo que condenaríamos se encontrássemos em outra pessoa. A primeira mentira provoca desconforto; a segunda exige uma explicação; a terceira já encontra uma justificativa preparada pela experiência das anteriores. Aos poucos, aquilo que antes nos parecia imperdoável torna-se compreensível, depois tolerável e, finalmente, necessário. Não porque a natureza do ato tenha mudado, mas porque a nossa necessidade de continuar acreditando em nós mesmos se tornou maior do que a disposição de reconhecer o que fizemos. É assim que a consciência aprende a negociar com a escuridão: não precisa apagar a luz de uma vez, basta convencer-nos de que cada pequena sombra é insignificante demais para merecer atenção.

Talvez o monstro nunca tenha precisado se esconder debaixo da cama. Talvez tenha aprendido a vestir-se adequadamente, a falar com delicadeza, a pedir desculpas nos momentos certos e a reconhecer seus próprios defeitos sempre que essa demonstração de humildade puder lhe trazer alguma vantagem. Talvez tenha aprendido a rezar não porque deseja ser perdoado, mas porque descobriu que até a culpa pode oferecer conforto quando acreditamos que reconhecê-la é o mesmo que reparar o dano. E, quando termina suas orações, retorna tranquilamente ao mundo, levando consigo as mesmas intenções, os mesmos ressentimentos e as mesmas justificativas de sempre.

Porque existe uma diferença terrível entre temer aquilo que somos capazes de fazer e lamentar apenas as consequências de termos feito. A primeira possibilidade exige que enfrentemos nossos impulsos antes que eles se transformem em atos; a segunda permite que continuemos sendo exatamente quem éramos, desde que encontremos palavras suficientemente bonitas para descrever nossos arrependimentos. Talvez não exista nada mais perigoso do que uma pessoa convencida de que já enfrentou a própria escuridão simplesmente porque aprendeu a descrevê-la com perfeição.

Thoughts

  • rapadura

    Oxe, a terceira mentira.

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  • Iraci

    Menina, vilão que aprende a rezar no último capítulo é o que eu mais desconfio kkk. Ajoelha, chora, e no epílogo tá rico.

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  • Clemilda

    A gente vê o contrário também, rapaz. Tem quem peça desculpa com palavra bonita e não mude nada, mas tem quem nem saiba pedir e apareça no outro dia pra consertar o portão que derrubou. O texto olha só pro primeiro tipo.

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  • Clemilda

    A sequência da primeira, segunda e terceira mentira é o trecho mais afiado. Quando parei de procurar uma vida sem dor também recusa fazer da mágoa uma identidade.

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  • novelaruim

    Essa escada da primeira, segunda e terceira mentira funciona igual precedente em repartição: a primeira exceção dá trabalho de justificar, a terceira já sai com o parecer pronto, copiado da anterior. Ninguém decidiu errar, só foi carimbando.

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  • Blu3m00n

    A hipocrisia, a forma mais fácil que o ser humano arranjou para se justificar, pedindo desculpas, se vitimizando, sendo que horas antes, havia apontado o dedo pra o outro. E sinceramente, é exatamente está escrito, achei bastante caprichoso, não, apenas por descrever de forma tão ampla e bonita, mas, porque foi exatamente onde dói, foi direto!

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