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A Solidão de Existir

Noctharys

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Existe uma forma de solidão que não depende da ausência de pessoas, da falta de afeto ou do silêncio de uma casa vazia. Ela não desaparece quando alguém segura a nossa mão, não se dissolve diante de declarações de amor e tampouco se intimida com a presença daqueles que juram permanecer ao nosso lado até o fim. É uma solidão muito mais antiga do que qualquer abandono, uma espécie de condenação silenciosa que acompanha o ser humano desde o instante em que sua consciência se torna capaz de reconhecer a própria existência. Podemos compartilhar uma cama, uma refeição, uma vida inteira e até mesmo os últimos instantes de nossa respiração com outra pessoa, mas jamais poderemos atravessar completamente a fronteira invisível que separa uma consciência da outra. Há um abismo entre aquilo que sentimos e aquilo que conseguimos explicar, entre o que tentamos demonstrar e o que alguém é capaz de compreender. E, por mais que estendamos as mãos na esperança de alcançar o outro lado, continuaremos presos à nossa própria percepção, observando o mundo através de olhos que ninguém mais poderá utilizar em nosso lugar. Talvez seja essa a primeira tragédia de existir: descobrir que nascemos acompanhados pela humanidade inteira, mas estamos destinados a experimentar a vida a partir de um lugar ao qual ninguém, absolutamente ninguém, poderá ter acesso da mesma maneira que nós.

Desde cedo, somos ensinados a temer a solidão como se ela fosse uma doença, uma falha de caráter ou uma punição reservada àqueles que não conseguiram conquistar o amor dos outros. Enchem nossas cabeças com histórias sobre encontros destinados, almas que se reconhecem em meio à multidão e pessoas que surgem em nossas vidas para preencher espaços que acreditávamos impossíveis de ocupar. Crescemos esperando encontrar alguém capaz de nos compreender sem que precisemos explicar cada ferida, alguém que reconheça a tristeza escondida atrás de um sorriso e perceba as palavras que engolimos antes que elas se transformem em arrependimento. Transformamos essa esperança em uma espécie de promessa secreta, uma crença silenciosa de que, em algum lugar do mundo, existe uma pessoa que finalmente fará desaparecer a distância entre aquilo que somos e aquilo que os outros enxergam. Entretanto, ninguém nos prepara para a possibilidade de que essa busca nunca alcance o resultado que desejamos. Ninguém nos explica que até mesmo o amor mais sincero possui limites, que a intimidade não concede acesso absoluto à consciência alheia e que uma pessoa pode passar décadas ao nosso lado sem jamais compreender inteiramente o que acontece dentro de nós. Talvez não estejamos procurando alguém que nos ame, mas alguém que consiga provar que não estamos tão isolados quanto nossa própria existência insiste em demonstrar. E talvez seja justamente aí que começa a nossa desgraça: quando depositamos sobre os ombros de outra pessoa a responsabilidade impossível de nos libertar de uma condição que nunca deixou de nos pertencer.

O mais perturbador é que raramente percebemos essa distância enquanto ainda estamos ocupados tentando vencê-la. Conversamos, rimos, contamos histórias, revelamos lembranças e entregamos aos outros fragmentos cuidadosamente selecionados de nossa intimidade, acreditando que cada confidência nos aproxima de uma compreensão verdadeira. Mostramos nossas cicatrizes, descrevemos os acontecimentos que nos transformaram e tentamos traduzir em palavras sentimentos que nem mesmo nós conseguimos organizar. Por alguns instantes, quando alguém parece compreender aquilo que dizemos, experimentamos uma sensação quase milagrosa de reconhecimento, como se finalmente tivéssemos encontrado uma testemunha capaz de confirmar que nossa existência não acontece inteiramente no escuro. Contudo, basta uma pequena diferença de interpretação, uma resposta inadequada ou um silêncio prolongado para percebermos que a compreensão que recebemos talvez nunca tenha sido tão completa quanto imaginávamos. A pessoa ouviu nossas palavras, mas não habitou nossas lembranças; conheceu os acontecimentos, mas não sentiu exatamente o que sentimos ao atravessá-los; compreendeu a descrição de nossa dor, mas não precisou carregar o peso dela dentro do próprio corpo. Isso não significa que o afeto seja falso ou que a compreensão humana seja inútil. Significa apenas que existe uma diferença entre conhecer a história de alguém e experimentar a realidade a partir da qual essa história adquiriu significado. Podemos oferecer mapas uns aos outros, apontar caminhos, descrever os lugares onde nos perdemos e até mesmo indicar os precipícios que quase nos destruíram, mas ninguém poderá percorrer por nós o território inteiro de nossa consciência.

Talvez seja por isso que, em determinados momentos, a presença de outras pessoas se torna mais dolorosa do que a ausência delas. Quando estamos sozinhos, podemos atribuir o nosso isolamento ao silêncio do ambiente, à falta de companhia ou à inexistência de alguém disposto a nos escutar. Existe uma explicação relativamente simples para o vazio quando não há ninguém por perto: basta imaginar que a chegada de outra pessoa seria suficiente para modificá-lo. Entretanto, quando nos encontramos cercados por vozes, rostos e demonstrações de afeto, mas continuamos sentindo aquela distância inexplicável, somos obrigados a confrontar uma possibilidade muito menos confortável. Talvez o problema não esteja apenas na ausência de companhia. Talvez exista uma dimensão da solidão que nenhuma quantidade de pessoas consegue eliminar. É estranho perceber que podemos estar sentados à mesma mesa que alguém que nos conhece há anos e, ainda assim, sentir como se estivéssemos separados por uma parede invisível. Observamos a pessoa falar, acompanhamos suas expressões, reconhecemos a familiaridade de seus gestos e, por alguns segundos, somos tomados pela consciência absurda de que ela possui um universo inteiro dentro de si, tão vasto e inacessível quanto o nosso. Enquanto imaginamos aquilo que ela pensa, ela talvez esteja fazendo exatamente o mesmo conosco. Duas consciências dividem o mesmo espaço, respiram o mesmo ar e participam da mesma conversa, mas nenhuma delas consegue abandonar completamente a própria perspectiva para ocupar a outra. Estamos próximos o suficiente para tocar a pele uns dos outros e distantes demais para experimentar a vida através dela.

Existe também uma crueldade particular na maneira como a memória contribui para esse isolamento. Não guardamos o passado como uma coleção perfeita de acontecimentos que podem ser recuperados sempre que desejamos; guardamos impressões, sensações, interpretações e fragmentos que se modificam conforme nos transformamos. Aquilo que um dia nos destruiu pode, anos depois, parecer distante, quase irreconhecível, como se tivesse acontecido com alguém que conhecemos apenas superficialmente. Por outro lado, uma lembrança aparentemente insignificante pode sobreviver intacta em nossa percepção, preservando uma dor que ninguém ao nosso redor considera importante. As pessoas podem nos pedir que superemos determinado acontecimento porque, para elas, o tempo já tornou aquilo irrelevante. Podem nos aconselhar a esquecer, a seguir em frente ou a parar de atribuir importância a coisas que parecem pequenas demais para justificar nosso sofrimento. Entretanto, não existe uma medida universal para aquilo que nos transforma. O acontecimento que passa despercebido por alguém pode representar o início de uma longa batalha para outra pessoa. E, quando tentamos explicar essas diferenças, frequentemente descobrimos que a nossa própria história não nos pertence de maneira inteiramente compartilhável. Podemos descrevê-la, podemos permitir que os outros conheçam seus detalhes, mas nunca poderemos obrigá-los a sentir o peso que ela adquiriu dentro de nós. Somos os únicos responsáveis por carregar determinadas lembranças, inclusive aquelas que gostaríamos de abandonar, e talvez uma das formas mais silenciosas de solidão seja perceber que aquilo que mais nos marcou pode não possuir a mesma importância para absolutamente mais ninguém.

Mas a solidão não se limita à distância que existe entre duas pessoas. Ela também se manifesta na relação que estabelecemos com o tempo, na consciência de que estamos permanentemente nos transformando sem conseguir levar conosco todas as versões que já fomos. Existe uma pessoa que fomos na infância, outra que surgiu durante a adolescência, outra que precisou aprender a suportar decepções e tantas outras que nasceram das escolhas, das perdas e das circunstâncias que atravessamos. Algumas dessas versões continuam vivas em nossas lembranças, mas outras parecem ter desaparecido sem deixar vestígios suficientes para que possamos reconhecê-las. Recordamos o modo como pensávamos, as coisas em que acreditávamos e os sonhos que considerávamos indispensáveis, mas frequentemente sentimos dificuldade em compreender como aquelas convicções puderam parecer tão naturais para alguém que hoje mal conseguimos reconhecer como nós mesmos. O passado nos pertence e, ao mesmo tempo, parece pertencer a um estranho. Somos obrigados a aceitar que a pessoa que fomos não pode retornar para explicar suas decisões, corrigir seus erros ou nos dizer o que estava tentando alcançar quando escolheu determinado caminho. Ela permanece preservada em fragmentos de memória, condenada a existir apenas na interpretação que fazemos de sua passagem. E, enquanto continuamos vivendo, outra versão nossa ocupa o lugar daquela que acabou de desaparecer. Talvez envelhecer não seja apenas acumular experiências, mas assistir silenciosamente ao desaparecimento de inúmeras pessoas que fomos, sem jamais conseguir nos despedir de cada uma delas.

Há momentos em que me pergunto se o desejo de ser compreendido não é, em parte, uma tentativa desesperada de escapar dessa transitoriedade. Queremos que alguém se lembre de nós, que reconheça nossas particularidades, que preserve as pequenas coisas que consideramos importantes e que testemunhe a continuidade de nossa existência mesmo quando já não estivermos presentes para confirmá-la. Desejamos deixar marcas porque a ideia de desaparecer sem testemunhas parece insuportável. Queremos acreditar que nossas palavras permanecerão em algum lugar, que nossas escolhas terão consequências e que aquilo que sentimos não será reduzido à insignificância de um acontecimento que terminou. Talvez seja por isso que contamos histórias, registramos lembranças, escrevemos cartas e procuramos atribuir significado às experiências que atravessamos. Construímos vestígios de nós mesmos na esperança de que alguém, em algum momento, consiga reunir esses fragmentos e encontrar neles alguma coisa que se aproxime de quem fomos. No entanto, mesmo que alguém preserve nossas fotografias, repita nossas frases favoritas e conte nossas histórias com absoluta dedicação, essa pessoa conhecerá apenas aquilo que conseguiu receber de nós. O restante permanecerá inacessível, perdido entre pensamentos que nunca pronunciamos, sentimentos que não soubemos nomear e experiências que não encontramos coragem para compartilhar. Podemos ser lembrados com amor e, ainda assim, permanecer incompreendidos. Podemos deixar marcas profundas na vida de alguém e jamais descobrir exatamente o significado que nossa presença adquiriu dentro daquela consciência. Talvez a memória seja uma forma de permanência, mas não é a vitória completa sobre o desaparecimento que gostaríamos que fosse.

E o que dizer daqueles que passam a vida inteira tentando escapar de si mesmos? Existem pessoas que preenchem cada minuto com atividades, conversas, compromissos e distrações porque descobriram que o silêncio oferece espaço demais para pensamentos que prefeririam não enfrentar. Elas não suportam permanecer sozinhas em um quarto sem procurar imediatamente alguma coisa que interrompa a continuidade de seus próprios pensamentos. Ligam aparelhos, percorrem telas, iniciam conversas sem assunto e procuram qualquer ruído que lhes permita adiar o encontro com aquilo que sentem quando ninguém está olhando. Talvez não tenham medo da solidão em si, mas daquilo que aparece quando ela deixa de ser uma circunstância externa e se transforma em uma experiência interior. Enquanto existem vozes ao redor, podem acreditar que o desconforto está sendo provocado pelo mundo; quando o ambiente finalmente se cala, já não encontram onde depositar a responsabilidade pelo próprio inquietamento. Os pensamentos que foram interrompidos durante o dia retornam, as perguntas adiadas recuperam sua força e as lembranças que pareciam distantes começam a ocupar o espaço deixado pelas distrações. É nesse instante que algumas pessoas descobrem que não sabem como permanecer na própria companhia sem sentir a necessidade de fugir. Passaram tanto tempo procurando algo que as afastasse de si mesmas que perderam a capacidade de reconhecer a própria presença como uma forma possível de abrigo. E talvez exista uma ironia terrível nisso: podemos passar a vida inteira procurando alguém que nos compreenda enquanto permanecemos incapazes de escutar honestamente aquilo que tentamos esconder de nós mesmos.

Entretanto, seria confortável demais concluir que a solidão é simplesmente uma condenação da qual precisamos nos libertar, porque até mesmo essa interpretação parece ignorar uma parte importante da experiência humana. Há pensamentos que só conseguimos organizar quando estamos afastados das expectativas alheias; sentimentos que reconhecemos apenas quando não precisamos imediatamente explicá-los; decisões que se tornam possíveis quando deixamos de procurar aprovação para cada movimento que pretendemos realizar. A solidão também pode oferecer espaço para que uma pessoa descubra suas próprias convicções, reconheça seus limites e compreenda a diferença entre aquilo que realmente deseja e aquilo que aprendeu a desejar para ser aceita. O problema começa quando o isolamento deixa de ser um espaço de reflexão e passa a funcionar como uma muralha contra qualquer possibilidade de encontro. Quando a decepção se transforma em desconfiança permanente, quando toda tentativa de aproximação é interpretada como uma ameaça e quando a expectativa de não ser compreendido se torna uma justificativa para nunca mais tentar explicar a si mesmo. Nesse ponto, já não estamos apenas reconhecendo os limites inevitáveis das relações humanas; estamos permitindo que esses limites determinem antecipadamente tudo aquilo que acreditamos ser possível viver. A solidão pode nos ensinar que ninguém conseguirá compreender cada detalhe de nossa existência, mas não precisa nos convencer de que ninguém será capaz de compreender coisa alguma. Existe uma diferença entre aceitar que jamais seremos inteiramente conhecidos e transformar essa impossibilidade em uma razão para permanecer eternamente desconhecidos.

Ainda assim, não consigo ignorar a inquietação que surge quando penso na maneira como dependemos uns dos outros apesar dessa distância fundamental. Precisamos de testemunhas para muitas das experiências que atravessamos, precisamos de palavras para organizar aquilo que sentimos e precisamos da presença alheia para reconhecer aspectos de nós mesmos que talvez permanecessem invisíveis sem o contato com outras consciências. O ser humano não constrói sua identidade no vazio; aprende a falar, a interpretar emoções e a compreender seu lugar no mundo por meio das relações que estabelece. Somos profundamente influenciados por aqueles que encontramos, mesmo quando tentamos negar essa influência, e carregamos dentro de nós fragmentos de conversas, gestos e lembranças que já não conseguimos separar completamente de nossa própria história. Talvez, portanto, não sejamos tão independentes quanto gostaríamos de imaginar, nem tão isolados quanto nossos momentos mais sombrios nos fazem acreditar. Existe uma contradição em nossa condição: precisamos dos outros para compreender partes de nós mesmos, mas nenhum outro pode assumir inteiramente o trabalho de existir em nosso lugar. Podemos receber consolo, orientação, companhia e amor, mas continuaremos responsáveis pelas decisões que tomamos, pelas consequências que enfrentamos e pela maneira como interpretamos aquilo que nos acontece. A presença de alguém pode tornar o caminho menos doloroso, mas não pode transformar nossa consciência em uma experiência compartilhada por completo. Cada pessoa que amamos permanece, em alguma medida, do outro lado de uma fronteira que o afeto consegue aproximar, mas nunca apagar.

Talvez o que mais me perturbe não seja a impossibilidade de ser compreendido em sua totalidade, mas a possibilidade de que eu mesmo jamais consiga compreender inteiramente aquilo que sou. Passamos tanto tempo imaginando que o maior obstáculo entre nós e os outros está na incapacidade alheia de enxergar nossa verdadeira natureza que raramente consideramos o quanto essa natureza permanece obscura até mesmo para nós. Existem motivações que só reconhecemos depois de muito tempo, sentimentos que confundimos com outros e decisões cujas razões mudam conforme adquirimos novas perspectivas. Às vezes, acreditamos agir por amor quando estamos tentando evitar o abandono; confundimos serenidade com indiferença porque não sabemos como enfrentar a dor; chamamos de liberdade aquilo que, na verdade, é apenas uma tentativa de escapar das responsabilidades que nos assustam. Não somos observadores perfeitamente confiáveis de nossa própria existência. A memória seleciona, a percepção interpreta e a linguagem transforma experiências complexas em explicações que raramente conseguem abranger tudo aquilo que sentimos. Podemos dedicar anos ao autoconhecimento e ainda descobrir contradições que pareciam impossíveis de coexistir dentro de nós. Podemos acreditar que finalmente alcançamos uma compreensão definitiva de quem somos e, diante de uma circunstância inesperada, reconhecer uma reação que jamais imaginamos ser capazes de apresentar. Talvez a consciência seja menos semelhante a um livro aberto e mais parecida com uma casa cujos cômodos continuam existindo mesmo quando ainda não aprendemos a encontrar suas portas.

E, se nem mesmo nós conseguimos atravessar todas as regiões de nossa própria consciência, como poderíamos exigir que outra pessoa as conhecesse por completo? Essa pergunta não elimina o desejo de ser compreendido, mas o transforma em algo mais difícil de sustentar. Talvez precisemos abandonar a expectativa de encontrar alguém capaz de nos interpretar sem equívocos, de reconhecer cada silêncio e de antecipar todas as nossas necessidades sem que precisemos comunicá-las. Talvez seja necessário aceitar que a intimidade verdadeira não consiste em eliminar qualquer distância entre duas pessoas, mas em permitir que essa distância exista sem transformar a relação em uma disputa constante contra os limites humanos. Ainda assim, há uma tristeza inevitável em reconhecer que as palavras nunca serão suficientes para transportar integralmente uma experiência de uma consciência para outra. Aquilo que sentimos precisa atravessar a linguagem, e a linguagem sempre deixa alguma coisa para trás. Tentamos explicar o peso de uma lembrança e oferecemos apenas sua descrição; procuramos transmitir o significado de uma perda e entregamos apenas os contornos de sua ausência; desejamos mostrar a alguém o lugar exato onde a dor permanece escondida e descobrimos que não existe um caminho que possa conduzi-lo até lá sem que ele próprio precise construir uma compreensão a partir daquilo que recebeu. Talvez amar seja justamente continuar tentando apesar disso, mas não há como negar que cada tentativa carrega consigo a possibilidade de fracassar. Há uma espécie de vulnerabilidade silenciosa em oferecer ao mundo algo que nos parece impossível de traduzir e esperar que alguém reconheça, entre as palavras imperfeitas, alguma coisa verdadeira.

Não escrevo estas palavras porque acredito que toda aproximação seja inútil, nem porque pretendo transformar a solidão em uma espécie de superioridade reservada àqueles que aprenderam a suportá-la. Existe uma tentação perigosa em tratar o próprio isolamento como prova de que enxergamos a realidade com mais clareza do que as outras pessoas, como se a incapacidade de confiar fosse sinônimo de inteligência ou como se a ausência de vínculos nos tornasse menos vulneráveis às ilusões humanas. Talvez essa seja apenas outra forma de proteção, uma maneira de transformar uma experiência dolorosa em uma posição aparentemente invulnerável. Se concluirmos que ninguém pode nos compreender, deixaremos de precisar enfrentar a possibilidade de sermos mal interpretados. Se decidirmos que toda aproximação está destinada a fracassar, poderemos evitar o risco de descobrir que algumas pessoas são capazes de nos alcançar mais profundamente do que imaginávamos. E, se convencermos a nós mesmos de que não precisamos de ninguém, talvez consigamos esconder temporariamente a vergonha de reconhecer que desejamos ser vistos. Mas nenhuma dessas conclusões altera a condição que tentamos evitar. Apenas modifica a maneira como nos relacionamos com ela. A solidão pode se tornar uma prisão construída com a intenção de nos proteger, e o mais cruel é que, depois de muito tempo, podemos começar a confundir as paredes dessa prisão com os limites naturais do mundo. Já não distinguimos aquilo que realmente é impossível daquilo que deixamos de tentar porque o medo de sofrer se tornou maior do que a esperança de encontrar alguma coisa que valha a pena.

Talvez a verdadeira tragédia de existir esteja nessa contradição: somos criaturas que desejam desesperadamente ser reconhecidas, mas não conseguimos oferecer aos outros acesso completo àquilo que somos; procuramos proximidade, embora permaneçamos presos aos limites de nossa própria percepção; queremos deixar marcas permanentes, apesar de sabermos que tudo aquilo que construímos está submetido à passagem do tempo. Nascemos sem escolher as condições de nossa chegada, aprendemos a interpretar o mundo através de experiências que não controlamos e passamos boa parte da vida tentando encontrar algum significado para a consciência que nos foi concedida. Em algum momento, percebemos que não podemos retornar ao estado de desconhecimento que existia antes de começarmos a fazer perguntas. Já não conseguimos deixar de reconhecer a fragilidade das relações, a transitoriedade dos sentimentos e a distância que separa nossas intenções daquilo que os outros conseguem perceber. E, mesmo quando encontramos pessoas que tornam nossa existência mais suportável, continuamos sabendo que cada uma delas possui uma vida interior que jamais poderemos ocupar inteiramente. Talvez seja isso que torne os encontros humanos tão preciosos e tão dolorosos ao mesmo tempo. Não estamos apenas compartilhando momentos; estamos tentando construir alguma forma de entendimento entre mundos que nunca serão exatamente iguais. E cada aproximação bem-sucedida permanece vulnerável àquilo que não conseguimos dizer, àquilo que interpretamos incorretamente e àquilo que somente o tempo poderá revelar.

No fim, talvez a solidão não seja a ausência de alguém que nos compreenda, mas a consciência de que nenhuma presença poderá nos substituir na tarefa de viver. Ninguém poderá sentir exatamente o que sentimos, escolher exatamente o que escolheríamos ou enfrentar nossas consequências a partir do mesmo lugar interior de onde precisamos enfrentá-las. As pessoas podem caminhar conosco, podem oferecer suas mãos quando perdemos o equilíbrio e podem permanecer ao nosso lado mesmo quando não encontram palavras capazes de aliviar nossa dor. Isso não é pouco. Talvez seja muito mais do que conseguimos reconhecer quando estamos ocupados procurando uma compreensão absoluta que nenhum ser humano poderia oferecer. Entretanto, haverá sempre um instante em que precisaremos permanecer diante de nós mesmos, sem a possibilidade de transferir a outra pessoa o peso de nossa consciência. Um instante em que nossas lembranças serão apenas nossas, em que as decisões tomadas não poderão ser desfeitas por ninguém e em que as perguntas que evitamos retornarão para exigir uma resposta que talvez ainda não possuamos. Não existe promessa capaz de eliminar completamente essa condição. Não existe declaração de amor que transforme duas existências em uma só, nem companhia que suspenda a responsabilidade individual de continuar vivendo. Podemos diminuir a distância, construir pontes e aprender a atravessá-las, mas nenhuma ponte será capaz de abolir o espaço que a tornou necessária.

E talvez seja justamente nesse ponto que a solidão revele seu rosto mais assustador: não quando estamos abandonados em um lugar vazio, mas quando compreendemos que a vida inteira acontece dentro de uma consciência que não pode ser compartilhada por completo. Todas as pessoas que amamos permanecem, de alguma maneira, do lado de fora; todas as pessoas que perdemos continuam existindo apenas nas lembranças que conseguimos preservar; todas as versões de nós mesmos que desapareceram permanecem inacessíveis, mesmo quando tentamos reconstruí-las a partir dos fragmentos que o tempo deixou para trás. Caminhamos entre outros seres humanos, participamos de suas histórias e permitimos que participem das nossas, mas continuamos carregando uma interioridade que nenhuma outra pessoa poderá habitar exatamente como nós. Talvez não exista uma saída definitiva desse lugar. Talvez nunca consigamos eliminar inteiramente a distância que nos separa, nem encontrar palavras capazes de transmitir tudo aquilo que permanece escondido atrás de nossos olhos. Ainda assim, continuamos tentando. Continuamos falando, amando, escrevendo, esperando e procurando sinais de reconhecimento em meio à imensidão de outras consciências, como se cada gesto pudesse construir uma pequena passagem através do impossível. E talvez essa insistência seja a parte mais humana de nossa condição: não a certeza de que algum dia seremos plenamente compreendidos, mas a disposição de continuar estendendo as mãos mesmo depois de reconhecer que nenhuma delas poderá alcançar completamente o outro lado.

Porque, no instante em que o mundo finalmente se cala, quando as vozes desaparecem, as luzes se apagam e já não existe ninguém diante de quem precisamos fingir que sabemos exatamente quem somos, resta a consciência de nossa própria presença. Ela permanece conosco através das lembranças que gostaríamos de esquecer, das perguntas que não conseguimos responder e das possibilidades que nunca saberemos se teriam transformado nossas vidas. Não podemos abandoná-la em algum lugar, não podemos entregá-la a outra pessoa para que carregue seu peso e tampouco podemos fechar os olhos para sempre sem reconhecer que, enquanto existimos, somos obrigados a experimentar o mundo a partir dela. Talvez seja por isso que algumas noites parecem tão intermináveis: não porque o silêncio possua alguma intenção cruel, mas porque ele retira de nós as distrações que utilizamos para não perceber a extensão daquilo que carregamos. E, quando finalmente compreendemos que nenhuma presença poderá nos libertar inteiramente de nós mesmos, descobrimos que a pergunta mais difícil nunca foi quem permaneceria ao nosso lado até o fim. A pergunta era o que encontraríamos quando não houvesse mais ninguém para desviar nossa atenção da única existência da qual jamais poderemos nos afastar.

A nossa.

E talvez a solidão mais profunda não seja morrer sem que alguém se lembre de nós, mas viver sem jamais conseguir descobrir se alguém realmente chegou a nos conhecer.

Talvez passemos a vida inteira tentando ser encontrados, sem perceber que nem mesmo nós sabemos exatamente onde estamos escondidos.

E, quando todas as palavras finalmente perderem sua utilidade, quando as lembranças se tornarem fragmentos e até mesmo o nosso nome deixar de produzir qualquer resposta no mundo, restará uma última pergunta, silenciosa e impossível de entregar a qualquer outra pessoa:

Se ninguém jamais poderá existir exatamente como nós existimos, o que significa, afinal, passar uma vida inteira tentando não nos sentirmos sozinhos?

Thoughts

  • Lcsss

    Escrevi dois textos que creio conversarem com este e permitirem algum ponto para reflexão. Se ao autor e aos leitores interessar, os textos se chamam Caminhamos sozinhos e Liberdade. Vocês os encontram no meu perfil.

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  • rapadura

    Oxente, a promessa de alguém entrar inteiro na cabeça da gente nunca foi feita por ninguém de carne e osso, foi feita por filme e música romântica. Gente de verdade combina o básico: chegar na hora, ajudar a carregar, lembrar do aniversário. O texto briga com uma conta que ninguém cobrou.

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  • Marinalva

    A mesa com alguém conhecido há anos e a parede invisível no meio é a imagem que fica. Em A ilusão de começar de novo, o peso que cada um leva consigo vem pelo lado da fé e da filosofia.

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  • raphis

    isso foi profundamente profundo

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  • Marinalva

    Esse texto passa quase inteiro dizendo que ninguém alcança ninguém, e lá pelo fim admite, quase de passagem, que quem caminha do lado sem achar palavra já vale muito. Pra mim o peso está nesse pedacinho. Gente que senta junto e não entende tudo continua fazendo alguma coisa, e esse gesto pequeno me parece mais verdade do que a parede invisível.

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