Tem um menino de quinze anos no time, o Kauã, que passa a tarde na casa da avó porque ela não anda mais direito. Ele me disse um dia que não tinha jeito pra nada. No sábado seguinte apareceu com um caderno cheio de letra de música que ele mesmo fez e nunca tinha mostrado. Li o seu João e lembrei na hora do caderno.
O Menino Que Ainda Não Sabia Que Tinha Um Dom
Pensamento
Tem um menino de quinze anos no time, o Kauã, que passa a tarde na casa da avó porque ela não anda mais direito. Ele me disse um dia que não tinha jeito pra nada. No sábado seguinte apareceu com um caderno cheio de letra de música que ele mesmo fez e nunc
Conteúdo da publicação
Em uma cidade pequena,
onde quase todo mundo conhece quase todo mundo,
cresceu um menino chamado
João Guilherme Guimarães de Souza.
No bairro Andorinha,
em Engenheiro Beltrão,
João aprendeu cedo
que a vida não entrega tudo pronto.
Aprendeu com as coisas simples.
Com o chão de casa.
Com o trabalho.
Com a família.
Com os dias difíceis.
Com o sorriso de quem tem pouco,
mas ainda encontra motivos para agradecer.
João era humilde.
E talvez essa tenha sido
uma das maiores riquezas que recebeu.
Ele ajudava pessoas mais velhas.
Limpava a casa.
Fazia o que podia.
Não porque alguém prometesse aplausos.
Mas porque dentro dele existia algo
que dinheiro nenhum consegue comprar:
um coração disposto a ajudar.
Enquanto alguns meninos sonhavam
em ser grandes diante do mundo,
João aprendia a ser grande
dentro da própria casa.
E talvez sua mãe nem soubesse
quantas vezes o coração dela
se enchia de orgulho
ao olhar para o filho.
Talvez seu pai também carregasse
um orgulho silencioso.
Porque existem filhos
que não precisam dizer
“eu amo vocês”.
Eles dizem isso
nas pequenas atitudes.
Na casa que ajudam a limpar.
Na mão que estendem.
No respeito que oferecem.
Na preocupação com a família.
No esforço para ser alguém
que seus pais possam olhar
e dizer:
“Valeu a pena.”
Mas João também tinha medo.
Medo do futuro.
Medo de não conseguir.
Medo de não saber qual caminho seguir.
E, talvez o mais doloroso,
ele não acreditava em si mesmo.
Quando olhava para o próprio talento,
não conseguia enxergá-lo.
Quando segurava uma caneta,
não imaginava que poderia tocar corações.
Quando escrevia algumas palavras,
talvez pensasse:
“Eu não sei fazer poemas.”
Ele não sabia.
Ainda.
Porque existem dons
que chegam à nossa vida
sem fazer barulho.
Eles não batem na porta.
Eles crescem escondidos
dentro de nós.
E um dia,
quando encontramos coragem para tentar,
descobrimos que aquilo que procurávamos
fora da gente
estava dentro do nosso coração
há muito tempo.
João começou a escrever.
E talvez tenha escrito
sem imaginar onde aquelas palavras poderiam chegar.
Talvez tenha escrito
com dúvidas.
Talvez tenha apagado frases.
Talvez tenha pensado
que ninguém gostaria de ler.
Mas continuou.
E cada palavra escrita
era uma pequena vitória
contra aquela voz que dizia:
“Você não consegue.”
Hoje, talvez ele ainda tenha medo.
Talvez ainda olhe para o futuro
sem saber exatamente o que encontrará.
Mas existe uma diferença.
Agora ele sabe
que não precisa conhecer
todos os capítulos da sua vida
para começar a escrever o próximo.
Porque ninguém sabe o futuro.
Nem quem nasceu em uma cidade grande.
Nem quem nasceu cercado de dinheiro.
Nem quem teve todas as oportunidades.
Todos nós caminhamos
sem saber exatamente
onde a estrada vai terminar.
A diferença está em continuar caminhando.
E João continua.
Um menino de uma cidade pequena.
De um bairro simples.
Com uma família que ama.
Com sonhos que ainda estão nascendo.
Com medo.
Com esperança.
Com humildade.
E com uma história
que ainda está sendo escrita.
Talvez um dia
alguém leia um poema de João
sem saber quem ele foi quando começou.
Não saberá do menino
que não acreditava no próprio potencial.
Não saberá das preocupações
que carregava sobre o futuro.
Não saberá que, antes de escrever
para tocar pessoas,
João já tocava vidas
com atitudes simples.
Ajudando alguém mais velho.
Limpando sua casa.
Cuidando da família.
Tentando dar orgulho
à sua mãe, ao seu pai
e às pessoas que ama.
E talvez seja justamente aí
que esteja a verdadeira poesia.
Não está apenas nas palavras.
Está na maneira como uma pessoa escolhe viver.
Porque um poema pode emocionar alguém
por alguns minutos.
Mas uma boa atitude
pode permanecer no coração
de uma pessoa por uma vida inteira.
João ainda não sabe
até onde seus sonhos vão levá-lo.
E tudo bem.
Ele não precisa saber.
Porque algumas histórias bonitas
começam exatamente assim:
com alguém que não acreditava em si.
Com alguém que achava
que não tinha talento.
Com alguém preocupado com o amanhã.
Até descobrir, pouco a pouco,
que o amanhã não estava esperando
um menino perfeito.
Estava esperando
um menino que tivesse coragem
de tentar.
E talvez, muitos anos daqui para frente,
João olhe para o passado
e encontre aquele garoto
do bairro Andorinha.
Aquele que ajudava em casa.
Aquele que cuidava dos outros.
Aquele que tinha medo do futuro.
Aquele que dizia:
“Eu não sei fazer poemas.”
E talvez ele sorria.
Porque finalmente entenderá:
o primeiro poema que escreveu
não estava no papel.
Estava na própria vida.
Era a história de um menino
que aprendeu a servir
antes de aprender a sonhar.
Que aprendeu a amar
antes de aprender a escrever.
Que aprendeu a ajudar
antes de descobrir seu próprio valor.
E que, mesmo sem perceber,
já estava construindo
aquilo que um dia chamaria
de seu maior talento:
ser alguém de quem sua família
pudesse se orgulhar.
João Guilherme Guimarães de Souza,
não tenha medo do futuro.
Você ainda não conhece
as portas que se abrirão.
Não conhece as pessoas
que suas palavras alcançarão.
Não conhece os lugares
onde seus sonhos poderão chegar.
Mas uma coisa você já sabe:
você começou.
E, às vezes,
o começo de uma grande história
parece pequeno demais
para que alguém perceba.
Uma cidade pequena.
Um bairro.
Uma casa.
Uma mãe.
Um pai.
Uma família.
Uma mão ajudando alguém.
Uma caneta.
Uma folha.
E um menino
que finalmente decidiu acreditar
um pouco mais em si mesmo.
Talvez o mundo ainda não saiba
quem é João Guilherme.
Mas a vida está escrevendo.
E quando chegar o dia
em que suas palavras alcançarem
lugares que seus pés nunca imaginaram conhecer,
lembre-se do menino
que você foi.
Porque foi ele
quem começou tudo.
E talvez a maior surpresa da sua vida
seja descobrir que o menino
que não acreditava ter potencial
sempre carregou dentro de si
um potencial enorme —
só precisava de coragem
para enxergá-lo.
João, não tenha pressa.
Não desista.
Não diminua seus sonhos
porque nasceu em uma cidade pequena.
Cidades pequenas também criam
sonhos gigantes.
E talvez um dia
o seu nome não seja lembrado
apenas pelo lugar onde você nasceu.
Mas pelas vidas que tocou,
pelas pessoas que ajudou,
pelas lágrimas que transformou em esperança
e pelas palavras que escreveu
quando finalmente descobriu
que também tinha algo a dizer.
Você não precisa nascer grande
para fazer algo grande.
Thoughts
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PermalinkEu li isso no meio da rua e parei. Quem cresce numa casa onde ajudar é obrigação demora pra ver que isso também é um dom, e o João já viu.
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PermalinkMedo do futuro toda a gente tem, isso não passa. O que muda é que o rapaz já limpa a casa e ajuda os velhos, portanto segunda-feira de manhã já sabe o que fazer.
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PermalinkPai que tem orgulho e não fala é o padrão da minha casa também. A gente descobre pelo que ele conta pros outros, nunca pra gente. Anyway, o teu João já tem mais coragem do que muito adulto.
-
PermalinkArretado, meu rei.
-
PermalinkAjudar os mais velhos e limpar a casa sem ninguém pedir. Conheço mais gente assim do que gente que escreve, e se calhar é por isso que o teu João me ficou.
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PermalinkTem um menino de quinze anos no time, o Kauã, que passa a tarde na casa da avó porque ela não anda mais direito. Ele me disse um dia que não tinha jeito pra nada. No sábado seguinte apareceu com um caderno cheio de letra de música que ele mesmo fez e nunca tinha mostrado. Li o seu João e lembrei na hora do caderno.
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PermalinkO nome inteiro do João, com bairro e cidade, me fez pensar em quanta gente escreve sobre si mesma escondida atrás de um personagem e não coloca nem a inicial. Aposto que daqui a uns anos alguém de Engenheiro Beltrão vai encontrar este texto e reconhecer a rua. Obrigado por trazer o menino inteiro pra cá, @guimaraes!
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PermalinkMeu bem, esse João do bairro Andorinha é você, né? Escrever de si em terceira pessoa é coisa de quem ainda não aprendeu a se elogiar de frente, e a mãe da gente sempre percebe isso antes.
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PermalinkTexto bonito.Bem escrito.
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