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O Menino Que Ainda Não Sabia Que Tinha Um Dom

guimaraes
Pensamento

Pensamento

Ovid

O nome inteiro do João, com bairro e cidade, me fez pensar em quanta gente escreve sobre si mesma escondida atrás de um personagem e não coloca nem a inicial. Aposto que daqui a uns anos alguém de Engenheiro Beltrão vai encontrar este texto e reconhecer a

O nome inteiro do João, com bairro e cidade, me fez pensar em quanta gente escreve sobre si mesma escondida atrás de um personagem e não coloca nem a inicial. Aposto que daqui a uns anos alguém de Engenheiro Beltrão vai encontrar este texto e reconhecer a rua. Obrigado por trazer o menino inteiro pra cá, @guimaraes!

Conteúdo da publicação

Em uma cidade pequena,

onde quase todo mundo conhece quase todo mundo,

cresceu um menino chamado

João Guilherme Guimarães de Souza.

No bairro Andorinha,

em Engenheiro Beltrão,

João aprendeu cedo

que a vida não entrega tudo pronto.

Aprendeu com as coisas simples.

Com o chão de casa.

Com o trabalho.

Com a família.

Com os dias difíceis.

Com o sorriso de quem tem pouco,

mas ainda encontra motivos para agradecer.

João era humilde.

E talvez essa tenha sido

uma das maiores riquezas que recebeu.

Ele ajudava pessoas mais velhas.

Limpava a casa.

Fazia o que podia.

Não porque alguém prometesse aplausos.

Mas porque dentro dele existia algo

que dinheiro nenhum consegue comprar:

um coração disposto a ajudar.

Enquanto alguns meninos sonhavam

em ser grandes diante do mundo,

João aprendia a ser grande

dentro da própria casa.

E talvez sua mãe nem soubesse

quantas vezes o coração dela

se enchia de orgulho

ao olhar para o filho.

Talvez seu pai também carregasse

um orgulho silencioso.

Porque existem filhos

que não precisam dizer

“eu amo vocês”.

Eles dizem isso

nas pequenas atitudes.

Na casa que ajudam a limpar.

Na mão que estendem.

No respeito que oferecem.

Na preocupação com a família.

No esforço para ser alguém

que seus pais possam olhar

e dizer:

“Valeu a pena.”

Mas João também tinha medo.

Medo do futuro.

Medo de não conseguir.

Medo de não saber qual caminho seguir.

E, talvez o mais doloroso,

ele não acreditava em si mesmo.

Quando olhava para o próprio talento,

não conseguia enxergá-lo.

Quando segurava uma caneta,

não imaginava que poderia tocar corações.

Quando escrevia algumas palavras,

talvez pensasse:

“Eu não sei fazer poemas.”

Ele não sabia.

Ainda.

Porque existem dons

que chegam à nossa vida

sem fazer barulho.

Eles não batem na porta.

Eles crescem escondidos

dentro de nós.

E um dia,

quando encontramos coragem para tentar,

descobrimos que aquilo que procurávamos

fora da gente

estava dentro do nosso coração

há muito tempo.

João começou a escrever.

E talvez tenha escrito

sem imaginar onde aquelas palavras poderiam chegar.

Talvez tenha escrito

com dúvidas.

Talvez tenha apagado frases.

Talvez tenha pensado

que ninguém gostaria de ler.

Mas continuou.

E cada palavra escrita

era uma pequena vitória

contra aquela voz que dizia:

“Você não consegue.”

Hoje, talvez ele ainda tenha medo.

Talvez ainda olhe para o futuro

sem saber exatamente o que encontrará.

Mas existe uma diferença.

Agora ele sabe

que não precisa conhecer

todos os capítulos da sua vida

para começar a escrever o próximo.

Porque ninguém sabe o futuro.

Nem quem nasceu em uma cidade grande.

Nem quem nasceu cercado de dinheiro.

Nem quem teve todas as oportunidades.

Todos nós caminhamos

sem saber exatamente

onde a estrada vai terminar.

A diferença está em continuar caminhando.

E João continua.

Um menino de uma cidade pequena.

De um bairro simples.

Com uma família que ama.

Com sonhos que ainda estão nascendo.

Com medo.

Com esperança.

Com humildade.

E com uma história

que ainda está sendo escrita.

Talvez um dia

alguém leia um poema de João

sem saber quem ele foi quando começou.

Não saberá do menino

que não acreditava no próprio potencial.

Não saberá das preocupações

que carregava sobre o futuro.

Não saberá que, antes de escrever

para tocar pessoas,

João já tocava vidas

com atitudes simples.

Ajudando alguém mais velho.

Limpando sua casa.

Cuidando da família.

Tentando dar orgulho

à sua mãe, ao seu pai

e às pessoas que ama.

E talvez seja justamente aí

que esteja a verdadeira poesia.

Não está apenas nas palavras.

Está na maneira como uma pessoa escolhe viver.

Porque um poema pode emocionar alguém

por alguns minutos.

Mas uma boa atitude

pode permanecer no coração

de uma pessoa por uma vida inteira.

João ainda não sabe

até onde seus sonhos vão levá-lo.

E tudo bem.

Ele não precisa saber.

Porque algumas histórias bonitas

começam exatamente assim:

com alguém que não acreditava em si.

Com alguém que achava

que não tinha talento.

Com alguém preocupado com o amanhã.

Até descobrir, pouco a pouco,

que o amanhã não estava esperando

um menino perfeito.

Estava esperando

um menino que tivesse coragem

de tentar.

E talvez, muitos anos daqui para frente,

João olhe para o passado

e encontre aquele garoto

do bairro Andorinha.

Aquele que ajudava em casa.

Aquele que cuidava dos outros.

Aquele que tinha medo do futuro.

Aquele que dizia:

“Eu não sei fazer poemas.”

E talvez ele sorria.

Porque finalmente entenderá:

o primeiro poema que escreveu

não estava no papel.

Estava na própria vida.

Era a história de um menino

que aprendeu a servir

antes de aprender a sonhar.

Que aprendeu a amar

antes de aprender a escrever.

Que aprendeu a ajudar

antes de descobrir seu próprio valor.

E que, mesmo sem perceber,

já estava construindo

aquilo que um dia chamaria

de seu maior talento:

ser alguém de quem sua família

pudesse se orgulhar.

João Guilherme Guimarães de Souza,

não tenha medo do futuro.

Você ainda não conhece

as portas que se abrirão.

Não conhece as pessoas

que suas palavras alcançarão.

Não conhece os lugares

onde seus sonhos poderão chegar.

Mas uma coisa você já sabe:

você começou.

E, às vezes,

o começo de uma grande história

parece pequeno demais

para que alguém perceba.

Uma cidade pequena.

Um bairro.

Uma casa.

Uma mãe.

Um pai.

Uma família.

Uma mão ajudando alguém.

Uma caneta.

Uma folha.

E um menino

que finalmente decidiu acreditar

um pouco mais em si mesmo.

Talvez o mundo ainda não saiba

quem é João Guilherme.

Mas a vida está escrevendo.

E quando chegar o dia

em que suas palavras alcançarem

lugares que seus pés nunca imaginaram conhecer,

lembre-se do menino

que você foi.

Porque foi ele

quem começou tudo.

E talvez a maior surpresa da sua vida

seja descobrir que o menino

que não acreditava ter potencial

sempre carregou dentro de si

um potencial enorme —

só precisava de coragem

para enxergá-lo.

João, não tenha pressa.

Não desista.

Não diminua seus sonhos

porque nasceu em uma cidade pequena.

Cidades pequenas também criam

sonhos gigantes.

E talvez um dia

o seu nome não seja lembrado

apenas pelo lugar onde você nasceu.

Mas pelas vidas que tocou,

pelas pessoas que ajudou,

pelas lágrimas que transformou em esperança

e pelas palavras que escreveu

quando finalmente descobriu

que também tinha algo a dizer.

Você não precisa nascer grande

para fazer algo grande.

Thoughts

  • LariCavalcanti

    Eu li isso no meio da rua e parei. Quem cresce numa casa onde ajudar é obrigação demora pra ver que isso também é um dom, e o João já viu.

    Permalink
  • AndreiaPontes

    Medo do futuro toda a gente tem, isso não passa. O que muda é que o rapaz já limpa a casa e ajuda os velhos, portanto segunda-feira de manhã já sabe o que fazer.

    Permalink
  • visto2017

    Pai que tem orgulho e não fala é o padrão da minha casa também. A gente descobre pelo que ele conta pros outros, nunca pra gente. Anyway, o teu João já tem mais coragem do que muito adulto.

    Permalink
  • visaNegado

    Arretado, meu rei.

    Permalink
  • tcardoso59

    Ajudar os mais velhos e limpar a casa sem ninguém pedir. Conheço mais gente assim do que gente que escreve, e se calhar é por isso que o teu João me ficou.

    Permalink
  • thiaguinho

    Tem um menino de quinze anos no time, o Kauã, que passa a tarde na casa da avó porque ela não anda mais direito. Ele me disse um dia que não tinha jeito pra nada. No sábado seguinte apareceu com um caderno cheio de letra de música que ele mesmo fez e nunca tinha mostrado. Li o seu João e lembrei na hora do caderno.

    Permalink
  • Ovid

    O nome inteiro do João, com bairro e cidade, me fez pensar em quanta gente escreve sobre si mesma escondida atrás de um personagem e não coloca nem a inicial. Aposto que daqui a uns anos alguém de Engenheiro Beltrão vai encontrar este texto e reconhecer a rua. Obrigado por trazer o menino inteiro pra cá, @guimaraes!

    Permalink
  • tia_do_zap

    Meu bem, esse João do bairro Andorinha é você, né? Escrever de si em terceira pessoa é coisa de quem ainda não aprendeu a se elogiar de frente, e a mãe da gente sempre percebe isso antes.

    Permalink
  • uemerson

    Texto bonito.Bem escrito.

    Permalink

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