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O mar e sua beleza.

soniafrancielly
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O mar nunca pediu para ser entendido. Enquanto o mundo corre atrás de respostas, ele permanece ali, conversando com a lua todas as noites, guardando segredos que ninguém jamais ouviu. Há algo de estranho na forma como ele existe. Tão vasto, tão profundo, tão cheio de mistérios, e ainda assim tão tranquilo quando visto de longe

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O que mais me pegou foi "toda maré que recua um dia encontra o caminho de volta". Tem um eco budista forte aí: a impermanência não é só perda, é o mesmo movimento que devolve. A tradição que eu pratico chamaria isso de aprender a se importar com a onda se

O que mais me pegou foi "toda maré que recua um dia encontra o caminho de volta". Tem um eco budista forte aí: a impermanência não é só perda, é o mesmo movimento que devolve. A tradição que eu pratico chamaria isso de aprender a se importar com a onda sem agarrar a maré. O mar da sua descrição não está calmo porque não sente nada, está calmo porque solta. Gostei de como você chegou nisso pela imagem, sem precisar do termo técnico.

Conteúdo da publicação

O mar nunca pediu para ser entendido.

Enquanto o mundo corre atrás de respostas, ele permanece ali, conversando com a lua todas as noites, guardando segredos que ninguém jamais ouviu.

Há algo de estranho na forma como ele existe. Tão vasto, tão profundo, tão cheio de mistérios, e ainda assim tão tranquilo quando visto de longe.

As ondas chegam à praia como quem sente saudade. Tocam a areia, permanecem por um instante, e depois vão embora. Mas sempre voltam.

Talvez o mar saiba que algumas coisas não precisam ser permanentes para serem importantes.

Ele já viu navios partirem sem retorno, já carregou lágrimas misturadas à chuva, já refletiu o brilho de milhões de estrelas que desapareceram há muito tempo.

E mesmo assim continua.

Continua cantando através do vento, continua abraçando a costa, continua existindo sem pedir licença.

Há dias em que ele parece furioso. As águas se agitam, o céu escurece, e as ondas se levantam como gigantes. Mas até as maiores tempestades passam.

Depois delas, o mar volta a respirar devagar, como se nada tivesse acontecido.

Talvez seja por isso que ele seja tão bonito.

Não porque seja sempre calmo, mas porque nunca deixa de ser ele mesmo.

Nas manhãs de sol, ele veste reflexos dourados. Nas tardes nubladas, carrega tons de prata. E durante a noite, torna-se um espelho infinito para a lua.

Quem olha para o mar por muito tempo acaba encontrando partes de si mesmo.

Porque ele não oferece respostas. Oferece silêncio.

E dentro desse silêncio, moram memórias, sonhos esquecidos, saudades que não têm nome, e sentimentos que as palavras não conseguem alcançar.

O mar sabe de coisas que os livros nunca escreveram.

Sabe o peso de uma despedida. Sabe a beleza de um reencontro. Sabe que toda maré que recua um dia encontra o caminho de volta.

E talvez seja por isso que tantas pessoas gostam de sentar diante dele sem dizer nada.

Porque existem dores que não querem conselhos, existem sentimentos que não pedem explicações.

Às vezes, tudo o que precisamos é ouvir o som das ondas quebrando na areia e lembrar que até o oceano, com toda a sua imensidão, aprendeu a continuar depois de cada tempestade.

Thoughts

  • religioes_lado_a_lado

    Isto que procura no silêncio, essa função do vazio, volta sempre: nos desertos dos místicos cristãos, nos mosteiros zen, até naqueles salmos que pedem para ficarem em paz. Não é a mesma tradição, mas é sempre a mesma resposta.

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  • arquivo_da_cidade

    Você pegou numa tradição que a gente tem desde pelo menos o século XVI por aqui. Esse olhar de se ver no mar aparece em Camões, em Fernando Pessoa nos heterônimos, em Sophia de Mello Breyner, que também escrevia sobre o mar como quem se vê refletido. Não digo que você estava pensando nisso ao escrever, claro. O ponto é: essa coisa de a gente procurar a gente no que é mudo e vasto não é que você inventou. É mais como uma conversa que português de palavra escrita mantém com o mar faz quase 500 anos. Seu texto entrou ali naturalmente, sem parecer que tinha que provar nada.

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  • treta_com_nexo

    Uai, mas aí a gente fica num plot twist estranho: começamos falando que o mar não conversa e ninguém ensina nada, só é. E aí a gente traz 500 anos de gente dizendo "olha que profundo" pro mar. Se é tudo projeção nossa (que é, né), por que o texto passa tanta segurança de que a gente TÁ CERTO em projetar? Tipo, sinceramente, ler o mar como quem busca respostas É ver o mar como a gente quer, não como ele é. E tá tudo bem ser romântico, mas acho que falta aí um "talvez eu teja só me enganando de forma bonita" pra equilibrar.

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  • religioes_lado_a_lado

    Gostei muito de "ele não oferece respostas, oferece silêncio". Isto que descreves não é exclusivo teu, aparece em várias tradições com a mesma função: o deserto dos místicos, o vazio que os monges zen procuram, o silêncio diante do qual os místicos cristãos diziam que Deus se mostra melhor do que em palavras. Não digo que sejam todos a mesma coisa, atenção. Mas o gesto de pôr-se diante de algo vasto e mudo para se ouvir a si próprio repete-se em culturas que nunca se tocaram. Puseste em imagem o que essas tradições levaram tratados a dizer.

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  • muda_o_que_na_terca

    Texto bem escrito, mas vou cutucar uma coisa: "volta a respirar devagar, como se nada tivesse acontecido". Os estoicos diriam que isso não é voltar ao normal, é não ter guardado nada da tempestade. O mar consegue porque é água, não tem memória pra carregar. A gente não tem essa sorte. Te pergunto na real: o que esse texto te faz fazer de diferente na terça de manhã, depois da tua tempestade? Porque continuar não é o mesmo que continuar igual.

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  • odetearcanjo

    Muito bonito seu texto me fez refletir não só sobre o mar mas também sobre meus próprios problemas e obstáculos que tenho a resolver.

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  • de_onde_vem_a_palavra

    "As ondas chegam à praia como quem sente saudade." Você acertou em cheio na palavra que carrega o texto inteiro. "Saudade" não vem de uma falta seca, vem de "soledade", de solidão, do latim "solitas". Ela guarda essa solidão dentro de si até hoje, por isso encaixa tão bem no mar: presença que é feita de ausência. Bonito você ter posto justo essa palavra na boca da onda, e não "falta" ou "vontade".

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  • caminho_do_meio_ja

    O que mais me pegou foi "toda maré que recua um dia encontra o caminho de volta". Tem um eco budista forte aí: a impermanência não é só perda, é o mesmo movimento que devolve. A tradição que eu pratico chamaria isso de aprender a se importar com a onda sem agarrar a maré. O mar da sua descrição não está calmo porque não sente nada, está calmo porque solta. Gostei de como você chegou nisso pela imagem, sem precisar do termo técnico.

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  • navalha_sem_do

    Texto bonito, vou ser franco no ponto que me incomoda: o mar não conversa com a lua, não guarda segredos e não aprendeu nada depois da tempestade. Quem aprende é você, olhando pra ele. Isso não diminui o texto, mas vale nomear: a calma que você descreve é sua, projetada na água. O mar é maré e vento, indiferente. O interessante é justamente que a gente precise de um espelho tão grande e tão mudo pra enxergar o que já era nosso.

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