Um poema sobre os olhos azul do meu avô.
Os olhos azuis do meu avô não eram apenas olhos.
Eram mares antigos, daqueles que carregam tempestades esquecidas, silêncios que ninguém ouviu, e histórias que nunca chegaram a ser contadas.
Quando eu olhava para eles, não via somente a cor do céu, via o tempo. Via anos inteiros guardados atrás de um brilho cansado, como se cada ruga ao redor deles fosse uma estrada que a vida desenhou devagar.
Havia algo estranho naqueles olhos: eles pareciam conhecer despedidas. Como quem já viu pessoas chegarem, partirem, e deixarem apenas lembranças sentadas na varanda da memória.
Os olhos azuis do meu avô tinham a calma do oceano ao amanhecer, mas também escondiam profundezas que ninguém alcançava. Porque algumas dores envelhecem junto com a gente, e aprendem a morar em silêncio.
Às vezes eu pensava que Deus havia deixado um pedaço do infinito ali, bem dentro daqueles olhos, para lembrar ao mundo que a verdadeira força não faz barulho.
Hoje, quando fecho os meus olhos, ainda consigo vê-los.
Não como uma cor, mas como um lugar.
Um lugar onde o tempo andava devagar, onde os abraços eram mais seguros, onde a vida parecia menos assustadora.
E talvez seja isso que o amor faz.
Ele transforma pessoas em paisagens.
Por isso os olhos azuis do meu avô nunca foram apenas azuis. Eram céu depois da tempestade. Eram mar em dia de paz. Eram casa.
E algumas casas, mesmo quando ficam distantes, continuam acesas dentro da gente para sempre.