Estou com saudade de casa. Queria voltar àquela época em que não precisava chorar por conta de muitos motivos, a não ser quando não tinha pão e minha mãe mandava o Maicovez comprar. E, quando ele não estava, ela fazia os pães ou até bolinhos. Ela sempre dava um jeito, ou por causa das brigas.
Saudade também de quando eu sentia que, apesar do lugar ou das brigas lá em casa, eu sempre tinha um lugar para onde voltar quando o mundo caísse sobre mim, mesmo sentindo, às vezes, que não tinha lugar nenhum.
Saudade dos meus irmãos, que viviam no quarto, mas, quando eles saíam, era só para brigar um com o outro, comer, ir ao banheiro ou conversar sobre o que sentíamos, ou que a mãe nunca ia separar do Maicovez.
O Guilherme vivia no quarto. A mãe levava café e comida na cama para ele. Ele só saía para ir à escola, quando não faltava, ou para ir ao banheiro. Vivia no celular, com a janela e as portas fechadas. Eu entendia ele, eu já passei dessa fase.
A Heloísa, depois que ficou mais velha, só ficava no quarto. Às vezes ia conversar com a mãe e, às vezes, aparecia com os braços todos arranhados. E eu era a mesma coisa. Raramente conversava e, quando conversava com a mãe, eu lembro de passar o maior tempo na casa dela me culpando, chorando, me cobrando pelo meu futuro e me cobrando para sempre fazer as coisas certas.
E agora eu sinto falta. Perdi meu tempo naquele quarto, que me serviu de consolo durante quase toda a minha adolescência.
Lembro do abraço que recebi da minha mãe. Foi um abraço que falava, tipo: “Me desculpa. Eu te entendo. Eu estou aqui.”