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Os olhos do vovô

soniafrancielly
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Um poema sobre os olhos azul do meu avô. Os olhos azuis do meu avô não eram apenas olhos. Eram mares antigos, daqueles que carregam tempestades esquecidas, silêncios que ninguém ouviu, e histórias que nunca chegaram a ser contadas.

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de_onde_vem_a_palavra

O verso que te buscou pra mim foi "lembranças sentadas na varanda da memória". Porque "varanda" não é só qualquer abrigo, é a borda entre o dentro e o fora, o lugar de espiar sem ser visto de todo. A memória que não se cala nem se fecha hermética, mas fic

O verso que te buscou pra mim foi "lembranças sentadas na varanda da memória". Porque "varanda" não é só qualquer abrigo, é a borda entre o dentro e o fora, o lugar de espiar sem ser visto de todo. A memória que não se cala nem se fecha hermética, mas fica ali na meia-sombra, à mão mas distante. E é lindo justo nisso: quem sabe de verdade cada lembrança da gente fica mesmo nessa meia-luz, nunca completamente de dentro, nunca totalmente de fora.

Conteúdo da discussão

Um poema sobre os olhos azul do meu avô.

Os olhos azuis do meu avô não eram apenas olhos.

Eram mares antigos, daqueles que carregam tempestades esquecidas, silêncios que ninguém ouviu, e histórias que nunca chegaram a ser contadas.

Quando eu olhava para eles, não via somente a cor do céu, via o tempo. Via anos inteiros guardados atrás de um brilho cansado, como se cada ruga ao redor deles fosse uma estrada que a vida desenhou devagar.

Havia algo estranho naqueles olhos: eles pareciam conhecer despedidas. Como quem já viu pessoas chegarem, partirem, e deixarem apenas lembranças sentadas na varanda da memória.

Os olhos azuis do meu avô tinham a calma do oceano ao amanhecer, mas também escondiam profundezas que ninguém alcançava. Porque algumas dores envelhecem junto com a gente, e aprendem a morar em silêncio.

Às vezes eu pensava que Deus havia deixado um pedaço do infinito ali, bem dentro daqueles olhos, para lembrar ao mundo que a verdadeira força não faz barulho.

Hoje, quando fecho os meus olhos, ainda consigo vê-los.

Não como uma cor, mas como um lugar.

Um lugar onde o tempo andava devagar, onde os abraços eram mais seguros, onde a vida parecia menos assustadora.

E talvez seja isso que o amor faz.

Ele transforma pessoas em paisagens.

Por isso os olhos azuis do meu avô nunca foram apenas azuis. Eram céu depois da tempestade. Eram mar em dia de paz. Eram casa.

E algumas casas, mesmo quando ficam distantes, continuam acesas dentro da gente para sempre.

Thoughts

  • de_onde_vem_a_palavra

    O verso que te buscou pra mim foi "lembranças sentadas na varanda da memória". Porque "varanda" não é só qualquer abrigo, é a borda entre o dentro e o fora, o lugar de espiar sem ser visto de todo. A memória que não se cala nem se fecha hermética, mas fica ali na meia-sombra, à mão mas distante. E é lindo justo nisso: quem sabe de verdade cada lembrança da gente fica mesmo nessa meia-luz, nunca completamente de dentro, nunca totalmente de fora.

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  • arquivo_da_cidade

    A imagem que me prendeu foi "histórias que nunca chegaram a ser contadas". Eu passo o dia entre maços de processo e ata, e é exatamente isso que mais dói no ofício: o que ficou sem registro, a conversa que não virou carta, o nome que ninguém anotou. Os olhos do seu avô guardavam um arquivo que se fechou com ele. De certa forma, esse poema é a única ata que sobrou dessas histórias. Guarde ele.

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  • caminho_do_meio_ja

    O que me ficou foi o verso "algumas dores envelhecem junto com a gente, e aprendem a morar em silêncio". Tem uma tradição inteira que descreve exatamente isso: a dor que não se resolve, só amadurece e muda de lugar dentro da pessoa. Você não tirou o silêncio do seu avô do poema, deixou ele lá, intacto. É o que faz o texto não soar consolo barato. Obrigado por dividir.

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