Capítulo 10 - O AUTOR DA VIDA
Capítulo 10 — O Autor da Vida
Há um momento em que deixamos de perguntar apenas:
Por que existimos?
E começamos a perguntar:
Para que existimos?
Por muito tempo, eu enxerguei Deus como o Autor da minha história.
E eu, apenas como um personagem.
Em outros momentos, pensei que era eu quem escrevia tudo.
Que minhas escolhas, meus caminhos e minhas decisões eram responsáveis por cada linha do roteiro.
Hoje, acredito que o mistério está justamente na mistura.
Deus escreve algumas linhas.
Eu escrevo outras.
E, no meio disso tudo, nasce a história.
Uma história que eu nem sempre compreendo enquanto estou vivendo.
Talvez seja por isso que algumas páginas só façam sentido quando olhamos para trás.
Enquanto estamos dentro de uma tempestade, enxergamos apenas chuva.
Depois que ela passa, percebemos que também estava formando o caminho.
Durante muito tempo, eu achei que precisava entender tudo.
Precisava saber por que certas coisas aconteciam.
Por que algumas pessoas chegavam.
Por que outras partiam.
Por que alguns sonhos davam certo e outros desmoronavam.
Mas talvez eu estivesse procurando respostas onde a vida queria me ensinar confiança.
Talvez o propósito não esteja em entender cada capítulo.
Talvez esteja em vivê-lo.
Não ser perfeito.
Mas ser verdadeiro.
Porque foram justamente os meus erros que me ensinaram algumas das coisas que eu jamais aprenderia acertando.
Foram as minhas quedas que me mostraram como levantar.
Foram as minhas dores que me ensinaram a reconhecer a dor dos outros.
E foram os meus recomeços que me fizeram entender que uma história pode ser bonita mesmo depois de ter páginas difíceis.
Talvez seja esse o propósito.
Permitir que nossas cicatrizes se tornem linguagem.
Que nossas quedas se tornem pontes.
E que os nossos recomeços possam inspirar quem ainda está no meio da própria tempestade.
Eu comecei a perceber que a minha história não pertence somente a mim.
Tudo aquilo que vivi pode, de alguma maneira, alcançar alguém.
Uma palavra.
Uma experiência.
Um erro.
Uma superação.
Uma lembrança.
Um livro.
Talvez uma pessoa que esteja lendo estas páginas um dia esteja passando exatamente por aquilo que eu passei.
Talvez ela esteja dentro de um poço, olhando para cima e procurando uma pequena fresta de luz.
E talvez, ao encontrar estas palavras, perceba:
“Se ele conseguiu continuar, talvez eu também consiga.”
É aí que a história ganha outro significado.
Porque o Autor da Vida não precisa de personagens perfeitos.
Talvez precise de testemunhas reais.
Pessoas que tenham coragem de dizer:
“Eu caí.”
“Eu errei.”
“Eu tive medo.”
“Eu não sabia o que fazer.”
E, ainda assim:
“Eu continuei.”
Hoje eu não sei onde a minha história termina.
E, pela primeira vez, isso não me assusta.
Porque aprendi que não preciso conhecer a última página para continuar lendo.
Não preciso saber o final para aproveitar a cena.
Não preciso compreender todo o roteiro para confiar no Autor.
Enquanto houver vida, haverá páginas em branco.
Enquanto houver respiração, haverá possibilidade.
Enquanto houver esperança, haverá novos capítulos.
E talvez seja esse o maior presente da existência:
a história ainda não terminou.
Eu continuo aqui.
Pensando.
Sentindo.
Aprendendo.
Errando.
Acertando.
Escrevendo.
E, de alguma maneira que ainda não consigo explicar completamente, sigo acreditando que existe uma mão maior conduzindo a história.
Não para impedir todas as tempestades.
Mas para me ensinar a atravessá-las.
Não para apagar todos os erros.
Mas para transformá-los em aprendizado.
Não para me entregar um roteiro perfeito.
Mas para me permitir viver uma história verdadeira.
E, quando um dia eu olhar para trás e enxergar todas as páginas, talvez finalmente compreenda aquilo que hoje ainda parece mistério.
Talvez eu perceba que nada foi desperdiçado.
Nem as lágrimas.
Nem os erros.
Nem os amores.
Nem as perdas.
Nem os recomeços.
Tudo fazia parte da história.
E talvez, no fim, eu não precise dizer:
“Eu escrevi uma vida perfeita.”
Talvez baste dizer:
“Eu vivi.”
E talvez seja exatamente isso que o Autor da Vida sempre quis me ensinar.
Enquanto houver páginas, escreva.
Enquanto houver caminhos, caminhe.
Enquanto houver amor, ame.
Enquanto houver esperança, continue.
Porque a história ainda está sendo escrita.
E eu ainda estou aqui.
Com a caneta nas mãos.
E a vida diante dos olhos.