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Capítulo 4 —Vitória

SamanthaBruxa

Conteúdo da publicação

Vitória era o tipo de menina que parecia estar sempre tentando desaparecer.

Ela tinha o rosto fofinho, os cabelos cheios, lisos e na altura dos ombros, e os olhos pequenos e castanho-escuros. Quase nunca levantava a voz. Quase nunca chamava atenção. E, quando alguém desconhecido se aproximava, seu corpo inteiro parecia procurar um lugar para se esconder.

Mas havia uma coisa que ninguém podia negar:

Vitória era inteligentíssima.

Ela aprendia rápido.

Na escola, entendia as matérias antes mesmo que a professora terminasse de explicar. Tinha facilidade com números, memorizava textos com rapidez e conseguia responder perguntas que deixavam outras crianças confusas.

Mesmo assim, Vitória não gostava da escola.

Não por causa das matérias.

Por causa das pessoas.

Ela não conversava com ninguém.

Não sentava perto das outras crianças para brincar.

Não participava das conversas.

Quando alguém tentava falar com ela, Vitória abaixava os olhos e permanecia em silêncio.

Era como se existisse uma parede invisível entre ela e o resto do mundo.

Em casa, porém, era diferente.

Ali, ela conseguia respirar.

Principalmente quando estava com Charllotte.

As duas eram irmãs, mas pareciam viver em mundos completamente diferentes.

Charllotte era mais observadora. Gostava de imaginar histórias, inventar brincadeiras e prestar atenção em tudo o que acontecia ao seu redor.

Vitória era mais fechada.

Mas, quando estavam sozinhas, as duas conseguiam brincar durante horas.

No quintal da casa de madeira, enquanto o sol de Mato Grosso do Sul esquentava o chão, Vitória finalmente parecia esquecer a timidez.

Ela brincava com as crianças do bairro.

Ali, ninguém exigia que ela falasse.

Ninguém perguntava por que ela era tão quieta.

Ninguém ficava esperando uma resposta.

Ela simplesmente podia ser Vitória.

Charllotte gostava de observar aquilo.

Era curioso perceber que a irmã conseguia brincar e rir com as crianças da rua, mas dentro da escola parecia transformar-se em outra pessoa.

Certa tarde, Charllotte perguntou:

— Por que você não brinca com ninguém na escola?

Vitória deu de ombros.

— Não sei.

— Você não gosta deles?

Vitória ficou alguns segundos pensando.

— Eu fico com vergonha.

— Vergonha de quê?

Vitória olhou para o chão.

— De tudo.

Charllotte não entendeu completamente.

Para ela, conversar com alguém parecia simples.

Era só dizer “oi”.

Mas para Vitória, até um simples cumprimento podia parecer uma coisa enorme.

E Charllotte descobriria isso de uma maneira que nunca esqueceria.


Naquele dia, a escola estava mais barulhenta do que de costume.

As crianças conversavam pelos corredores, corriam no pátio e chamavam umas às outras.

Vitória permanecia em seu lugar.

Sentada.

Quietinha.

Com o material organizado sobre a mesa.

Ela evitava olhar para os colegas.

Mantinha os olhos baixos, concentrada no próprio caderno.

Até que um menino passou perto dela.

Ele parou.

Olhou para Vitória.

E sorriu.

— Oi.

Foi apenas isso.

Uma palavra.

Uma palavra que, para qualquer outra criança, provavelmente não significaria nada.

Mas Vitória congelou.

Seu coração começou a bater rápido.

Ela não conseguiu responder.

O menino continuou parado por alguns segundos, esperando.

— Oi...

Vitória tentou falar.

A voz quase não saiu.

O menino sorriu novamente e foi embora.

Vitória ficou imóvel.

Depois, abaixou a cabeça.

Os olhos começaram a encher de lágrimas.

Ela tentou segurá-las.

Não conseguiu.

Poucos segundos depois, começou a chorar.

Não era um choro alto.

Era um choro silencioso, apertado, como se ela tivesse vergonha até mesmo de chorar.

A professora percebeu.

— Vitória?

A menina não respondeu.

— Vitória, aconteceu alguma coisa?

Ela apenas balançou a cabeça.

— Não...

Mas continuava chorando.

A professora se aproximou e se abaixou ao lado dela.

— Quer conversar comigo?

Vitória negou.

— Você está com medo?

Mais uma vez, ela não respondeu.

A professora olhou para o menino, que já estava do outro lado da sala, sem entender o que havia acontecido.

Ele simplesmente tinha dito oi.

Não tinha feito nada de errado.

E talvez fosse justamente isso que tornasse tudo tão difícil de compreender.

Para Vitória, um simples “oi” podia parecer uma porta sendo aberta para um mundo inteiro do qual ela não sabia como participar.


Quando chegou em casa, Vitória não contou nada.

Sentou-se perto de Charllotte e ficou brincando como se o dia tivesse sido normal.

Charllotte percebeu que havia algo diferente.

— Você está triste?

— Não.

— Está sim.

— Não estou.

Charllotte insistiu:

— Aconteceu alguma coisa?

Vitória ficou em silêncio.

Depois respondeu baixinho:

— Um menino falou comigo.

Charllotte franziu a testa.

— E daí?

Vitória olhou para ela.

— Eu chorei.

Charllotte ficou alguns segundos sem saber o que dizer.

Então perguntou:

— Por quê?

Vitória encolheu os ombros.

— Não sei.

Charllotte começou a rir.

Não por maldade.

Era apenas porque não conseguia entender.

— Vitória, ele só falou oi.

A irmã baixou os olhos.

— Eu sei.

— Então por que você chorou?

Vitória demorou a responder.

— Porque eu fiquei com vergonha.

Charllotte parou de rir.

Naquele momento, percebeu que a irmã realmente sofria com coisas que para outras pessoas pareciam pequenas.

Ela se aproximou e segurou a mão de Vitória.

— Eu nunca vou fazer você passar vergonha.

Vitória olhou para ela.

— Promete?

— Prometo.

As duas ficaram sentadas no chão do quintal.

E, por alguns minutos, não precisaram conversar.


Margareth também percebia a timidez de Vitória.

Mas, ao contrário do que fazia com Charllotte, sua reação era quase sempre de proteção.

Quando Vitória tinha dificuldade para falar com alguém, Margareth dizia:

— Ela é assim mesmo.

Quando alguém perguntava por que Vitória era tão quieta:

— Ela é tímida.

E quando Vitória precisava de alguma coisa, Margareth costumava ouvir.

Charllotte percebia.

Talvez ainda não soubesse explicar o que sentia.

Mas percebia.

Havia uma diferença.

Uma diferença pequena em alguns momentos.

Grande em outros.

Vitória era tratada como alguém que precisava ser protegida.

Charllotte, muitas vezes, era tratada como alguém que precisava simplesmente aguentar.

E aquilo começava a formar uma pergunta dentro dela.

Por que era tão fácil para sua mãe entender Vitória e tão difícil entender a ela?

Charllotte não tinha raiva da irmã.

Nunca teve.

Pelo contrário.

Gostava de Vitória.

Sabia que ela era uma menina boa.

Sabia que ela não tinha culpa da maneira como Margareth tratava as duas.

Mas, às vezes, observava as duas juntas e sentia uma pontada difícil de explicar.

Talvez fosse ciúme.

Talvez fosse tristeza.

Talvez fosse apenas a sensação de estar sempre um pouco do lado de fora.


Apesar da timidez, Vitória tinha uma inteligência que impressionava.

Ela podia passar horas lendo.

Gostava de aprender.

Gostava de descobrir coisas.

Quando Charllotte não entendia alguma atividade, Vitória explicava.

— É assim.

— Como você sabe?

Vitória sorria.

— Eu li.

Charllotte fazia uma expressão admirada.

— Você sabe tudo.

Vitória ria baixinho.

— Não sei tudo.

— Sabe sim.

E naquele instante, talvez pela primeira vez no dia, Vitória esquecia completamente sua vergonha.

Com Charllotte, ela não precisava pensar antes de falar.

Não precisava escolher as palavras.

Não precisava se perguntar se alguém iria rir.

Era apenas sua irmã.

Sua pequena companheira.

A menina dos olhos grandes que sempre estava por perto.


As crianças do bairro gostavam de Vitória.

Ela podia ser tímida, mas quando estava entre pessoas que conhecia, conseguia brincar.

Corria pelo quintal.

Inventava jogos.

Sentava-se no chão com as outras meninas.

Às vezes, até gargalhava.

Charllotte gostava especialmente de ouvir aquela risada.

Porque era rara.

E porque sabia que, dentro da escola, Vitória parecia não conseguir encontrar aquela mesma menina.

Talvez o mundo fosse grande demais para ela.

Talvez as pessoas fossem assustadoras demais.

Ou talvez Vitória simplesmente precisasse de tempo para aprender a confiar.

Charllotte não sabia.

Nenhuma das duas sabia.

Mas havia uma coisa que Charllotte tinha certeza:

Se um dia Vitória precisasse de alguém, ela estaria ali.

Mesmo sendo apenas uma criança.

Mesmo sem saber resolver os problemas da irmã.

Mesmo sem entender completamente seus medos.

Charllotte estaria ali.

E Vitória também estaria ao lado dela.

As duas ainda não sabiam, mas cresceriam carregando marcas diferentes da mesma casa.

Vitória aprenderia a se esconder do mundo.

Charllotte aprenderia a esconder a própria dor.

E, por muitos anos, nenhuma das duas perceberia o quanto aquelas duas formas de silêncio estavam ligadas.

Porque algumas famílias não ensinam os filhos a falar.

Ensinam apenas a sobreviver em silêncio.

Thoughts

  • AlmaTavares

    A professora faz três perguntas seguidas à Vitória e cada uma é mais uma porta que ela não consegue atravessar. Em casa a irmã também insiste, e só quando as duas ficam caladas no chão do quintal é que aquilo passa. Parece-me que a família inteira cabe nessa diferença: a Margareth protege uma filha e manda a outra aguentar, e nenhuma das duas sabe ainda que as duas maneiras de calar vêm do mesmo sítio.

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  • tresPaginas

    Ai, a Vitória e o oi.

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Vitória era o tipo de menina que parecia estar sempre tentando desaparecer.

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