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O Livro Dos Sonhos

jerson
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CAPÍTULO 8

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Capítulo 8 - O PEQUENO IVAR

O Pequeno Ivar

Alguns animais passam pela nossa vida. Outros se tornam parte dela.

Era uma tarde comum.

Daquelas tardes que parecem não carregar nada de extraordinário. O dia seguia seu curso, e eu seguia o meu, ao lado da pessoa com quem, naquela época, eu compartilhava a vida.

Nós fazíamos planos.

Projetávamos o futuro. Conversávamos sobre a casa, sobre os nossos sonhos, sobre tudo aquilo que imaginávamos que ainda viveríamos juntos.

E, no meio de tantos projetos, nasceu um desejo simples.

Queríamos um companheiro.

Um pequeno ser que pudesse fazer parte da nossa história.

Eu sempre fui apaixonado por animais. Sempre quis ter um que pudesse acompanhar minha trajetória, alguém que estivesse conosco nos dias bons e nos dias ruins.

Naquela época, eu também gostava muito de Vikings. Havia um personagem que me chamava especialmente a atenção: Ivar.

Não era o lado cruel das batalhas que me fazia admirá-lo. Era a maneira como ele enfrentava suas próprias limitações.

Ivar não fazia de suas dificuldades uma desculpa.

Ele transformava suas limitações em estratégia.

Enfrentava guerras, dores e desafios usando aquilo que tinha. Encontrava caminhos onde outros enxergavam apenas impossibilidades.

Eu admirava isso.

E talvez, sem perceber, eu já tivesse escolhido um nome para alguém que ainda nem conhecia.

Ivar.

Começamos então a procurar.

Redes sociais. Amigos. Pessoas que conhecessem alguém doando animais.

Até que encontramos uma senhora que estava doando alguns gatinhos.

Fomos até a casa dela.

E foi ali que eu o vi pela primeira vez.

Ela olhou para nós e disse:

— Esse aqui é o loirão.

Eu perguntei:

— Loirão?

Ela explicou que era por causa da cor dele.

E então eu olhei.

Dentro daquela pequena caixa estava um gatinho laranja, pequenininho, que praticamente cabia na palma da minha mão.

Seus pelos tinham uma cor viva, como o laranja do outono. Havia pequenas listras que lembravam as de um tigre. Seus olhos acompanhavam a cor dos pelos e brilhavam de uma maneira difícil de explicar.

Mas o que mais me marcou foi o jeito como ele me olhou.

Nossos olhos se encontraram.

Por alguns segundos, parecia que não existia mais ninguém naquela sala.

Eu o peguei no colo.

Abracei.

Olhei para ele e pensei que talvez estivesse diante de um amigo que permaneceria comigo pelo resto da vida.

Mostrei-o para minha companheira.

— Olha que lindo. Ele vai ser nosso amigo.

E naquele momento, o nome já estava decidido.

— Você vai se chamar Ivar.

O pequeno guerreiro tinha chegado.

---

No começo, Ivar era pura energia.

Corria pela casa.

Batia nas coisas.

Fazia bagunça.

Aprontava de tudo.

E nós corríamos atrás dele tentando ensiná-lo.

Até as necessidades ele fazia nos lugares mais improváveis.

Mas Ivar aprendia rápido.

Muito rápido.

Com o tempo, começou a entender onde deveria fazer suas necessidades e passou a usar o cantinho dele no quintal.

Era impressionante.

Ele aprendia tudo.

E parecia entender muito mais do que um simples animal de estimação.

Eu costumava sentar para assistir a um dos meus animes favoritos: One Piece.

E Ivar vinha.

Deitava ao meu lado.

Às vezes encostava a cabeça na minha barriga. Outras vezes, apoiava a cabeça na minha perna e ficava ali, quietinho, olhando para a televisão.

Eu assistia às aventuras de Luffy e dos piratas enquanto aquele pequeno gato assistia comigo.

Talvez ele não entendesse absolutamente nada do que estava acontecendo.

Mas eu gostava de imaginar que entendia.

Ele simplesmente ficava.

E, para mim, aquilo era suficiente.

Com o tempo, parei de chamá-lo apenas de Ivar.

Comecei a chamá-lo de filho.

— Filho, vem cá.

— Filho, sai daí.

— Filho, não faz isso.

Ele tinha deixado de ser apenas um animal de estimação.

Tinha se tornado família.

---

O tempo passou.

Ivar cresceu.

Aquele pequeno gatinho que cabia na palma da minha mão se transformou em um gato enorme.

Pesado.

Forte.

Bonito.

Um verdadeiro loirão.

E talvez por isso eu gostasse tanto de dizer que ele parecia comigo.

Nós dois éramos loiros.

Ele tinha aquela presença forte, aquele jeito único.

Eu cuidava dele como podia.

Dava banho.

Cuidava de suas feridas.

Levei-o para ser castrado, mesmo com todas as dificuldades.

Precisamos ir até outra cidade.

E Ivar tinha um medo absurdo da rua.

Quando saíamos, ele cravava as garras nas minhas costas.

Era como se dissesse:

Pai, não me solta.

Eu olhava para aqueles dois olhos brilhando de medo e tentava tranquilizá-lo.

— Calma, filho. Eu tô aqui.

Depois da castração, veio o famoso cone na cabeça.

Foi uma dificuldade.

Mas passamos por aquilo juntos.

Como sempre.

---

Então a vida começou a mudar.

As dificuldades dentro do meu casamento aumentaram.

Os problemas chegaram.

As coisas começaram a desmoronar.

Até que chegou o dia em que minha esposa foi embora.

E quando ela foi, deixou para trás uma casa cheia de lembranças.

Mas Ivar ficou.

E foi justamente naquele momento que nossa relação se tornou ainda mais forte.

Quando eu chorava, ele vinha.

Deitava nos meus pés.

Encostava a cabeça na minha perna.

Ficava perto.

Se eu caminhava para um lado, ele ia comigo.

Se eu caminhava para outro, ele me acompanhava.

Parecia sentir a minha dor.

Como se não precisasse entender o motivo.

Ele simplesmente sabia.

Havia dias em que eu sentava sozinho e chorava.

E Ivar aparecia.

Não perguntava nada.

Não tentava explicar nada.

Apenas ficava.

Às vezes, o amor não precisa de palavras.

Às vezes, ele tem quatro patas e se deita ao nosso lado.

---

Houve uma época em que as coisas ficaram ainda mais difíceis.

Eu não tinha dinheiro.

Faltava quase tudo.

Até mesmo a ração se tornou um problema.

Minha família chegou a dizer:

— Jerson, você precisa doar esse gato. As coisas estão apertadas demais.

Mas como eu poderia simplesmente entregar meu filho?

Eu dava um jeito.

Pedia ajuda.

Cheguei a pedir ração a amigos.

Não queria que ele passasse fome.

E mesmo quando eu tinha pouco, tentava dividir aquilo que tinha com ele.

Naquele período, eu estava cheio de quedas.

Cheio de derrotas.

Cheio de dores.

Mas Ivar continuava ali.

Ele não foi embora.

Não me abandonou.

Permaneceu comigo quando muitas outras coisas já tinham partido.

E, pouco a pouco, eu comecei a me reconstruir.

Comecei a andar novamente com minhas próprias pernas.

Comecei a compreender que algumas coisas pertenciam ao passado.

Comecei a deixar para trás aquilo que precisava ser deixado.

Talvez Ivar tivesse ficado comigo durante todo aquele processo por uma razão.

Talvez ele tivesse permanecido até eu aprender a seguir sozinho.

---

Então chegou o dia em que a dor mudou de lugar.

Ivar começou a ficar doente.

Muito doente.

E eu não tinha dinheiro para levá-lo ao veterinário.

Eu queria salvá-lo.

Queria fazer alguma coisa.

Mas não sabia o quê.

A doença avançava.

E eu me sentia impotente.

Certa manhã, fui trabalhar.

Era um trabalho pesado, em um depósito de material de construção.

Eu carregava peso durante o dia inteiro.

Naquele dia, senti uma dor forte no peito.

Foi como se alguma coisa tivesse avisado dentro de mim que aquele dia seria diferente.

Quando voltei para casa, minha mãe me contou que Ivar estava cada vez mais fraco.

Ela tentava cuidar dele.

Trazia um cobertorzinho para o quintal.

Colocava-o em sua caminha.

Tentava aquecê-lo.

Mas ele voltava para o mesmo lugar.

O lugar onde sempre tinha brincado.

Onde tinha corrido.

Onde tinha vivido tantos momentos felizes.

Até que um dia ele cavou um pequeno buraco na terra.

E deitou dentro dele.

Ali.

No quintal.

No mesmo lugar onde tantas lembranças haviam sido construídas.

O lugar onde existiam memórias do meu casamento.

Onde meus sobrinhos e minhas sobrinhas haviam brincado com ele.

Onde houve risadas.

Onde houve vida.

E agora havia silêncio.

Ele havia escolhido aquele lugar para descansar.

---

Quando cheguei, Ivar estava deitado.

Respirava rapidamente.

Seus olhos estavam quase fechados.

Eu me aproximei.

E, mesmo fraco, ele acompanhou minha chegada com o olhar.

Como se ainda soubesse que eu estava ali.

Sentei-me ao lado dele.

Comecei a chorar.

Passei os braços ao redor daquele pequeno corpo.

Olhei dentro daqueles olhos que tantas vezes tinham me acompanhado.

E disse:

— Meu amigo...

Minha voz falhou.

— Para mim vai doer muito deixar você ir.

Respirei fundo.

— Mas pode descansar.

E então ele fechou os olhos.

Nos meus braços.

Meu pequeno guerreiro partiu.

---

Naquela noite, começou a chover.

Como se o céu também tivesse alguma coisa para dizer.

Eu cavei a terra no mesmo lugar onde ele havia escolhido deitar.

Escrevi uma carta.

Envolvi Ivar em um lençol.

E escrevi:

“Para meu grande amigo Ivar.

Eu te amo para sempre.”

Depois o enterrei.

Foram cinco anos.

Cinco anos de companhia.

Cinco anos de bagunça.

Cinco anos de carinho.

Cinco anos de amizade.

Cinco anos em que aquele pequeno gato esteve ao meu lado enquanto eu aprendia a sobreviver às minhas próprias dores.

Por isso, coloquei cinco pedras sobre seu pequeno túmulo.

Uma para cada ano.

Depois plantei algumas coisas ao redor.

Fiz uma oração.

E pedi a Deus uma coisa que talvez pareça estranha para algumas pessoas.

Pedi que, se os animais tivessem alma, que a alma de Ivar fosse bem guardada.

Porque aquele animal tinha sido muito mais do que um animal para mim.

Ele foi meu amigo.

Meu companheiro.

Meu filho.

Meu pequeno guerreiro.

E talvez algumas pessoas nunca entendam.

Mas eu aprendi que existem seres que entram na nossa vida sem saber falar a nossa língua e, ainda assim, conseguem compreender exatamente aquilo que estamos sentindo.

Ivar nunca me prometeu que ficaria para sempre.

Mas, durante os cinco anos em que esteve comigo, ele cumpriu algo ainda maior:

ele nunca me deixou sozinho quando eu mais precisava de alguém.

Hoje, quando penso nele, não penso apenas na morte.

Penso naquele pequeno gatinho laranja dentro daquela caixa.

Penso nos olhos que encontraram os meus.

Penso nele correndo pela casa.

Penso nele deitado ao meu lado enquanto eu assistia One Piece.

Penso nas garras agarradas às minhas costas quando ele tinha medo da rua.

Penso nele encostando a cabeça na minha perna quando eu chorava.

E penso nas cinco pedras.

Cinco anos.

Cinco lembranças.

Cinco marcas de uma amizade que o tempo não conseguiu apagar.

Talvez Ivar tenha partido naquele dia.

Mas algumas presenças não desaparecem quando o corpo vai embora.

Elas continuam vivendo dentro da gente.

E Ivar...

Bom, Ivar continua aqui.

Porque existem amigos que a morte leva dos nossos braços.

Mas nunca consegue levar do nosso coração.

Meu pequeno guerreiro.

Meu filho.

Meu amigo.

Ivar.

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