Carregando…

O Livro dos Sonhos

jerson
Pública 1 conversa 2 pensamentos 69 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Cap.7

In groups

Pensamento

Pensamento

li_no_busao

Amar sem conhecer. Essa frase vai ficar comigo.

Amar sem conhecer. Essa frase vai ficar comigo.

Conteúdo da publicação

Capítulo 6 - QUANDO O SILÊNCIO VOLTOU

Capitulo 6 - Quando O Silêncio Voltou

O sonho que aprendi a amar antes mesmo de conhecê-lo

Existem dias que chegam sem fazer barulho.

A gente acorda, trabalha, segue a rotina e acredita que, quando a noite chegar, tudo ainda estará exatamente onde deixamos. Acreditamos que alguns dias são apenas dias comuns. Dias destinados a começar, acontecer e terminar como tantos outros.

Naquele dia, saí para trabalhar acreditando que voltaria para mais um fim de tarde comum.

Eu chegaria em casa, encontraria o amor da minha vida, a abraçaria, beijaria e continuaria vivendo os dias como sempre havíamos vivido.

Mas eu estava completamente enganado.

Quando abri a porta, ela estava ali.

Com as mãos escondidas atrás das costas e um sorriso de orelha a orelha.

Um sorriso que eu nunca esqueceria.

Eu parei.

Por alguns segundos, fiquei tentando entender o que estava acontecendo. Ela olhou para mim e perguntou, com aquele brilho nos olhos:

— Oi, amor. Tudo bem? Como você está? Como foi o seu dia?

E então, finalmente, mostrou o que escondia.

Naquele instante, uma notícia transformou completamente a minha vida.

Era um sonho.

Um sonho que eu carregava desde muito novo.

Depois de tantos anos de sofrimento, dor, lutas e angústias, aquele sonho, finalmente, parecia ter encontrado o caminho para se realizar.

Nós seríamos pais.

As lágrimas vieram.

Vieram os sorrisos.

Vieram os abraços.

Vieram os planos.

Começamos a imaginar tudo. O que compraríamos, como seria o quarto, quais cores escolheríamos.

Rosa ou azul?

Fizemos planos para alguém que ainda não conhecíamos, mas que já ocupava um espaço inteiro dentro de nós.

Seguimos vivendo aquela alegria quase como um segredo.

Durante um mês, guardamos aquele sonho entre nós. Éramos um casal carregando uma felicidade que desejávamos compartilhar no momento certo.

Mas, talvez, a minha vida tenha me ensinado cedo demais que nem toda alegria permanece pelo tempo que gostaríamos.

Vieram as complicações.

Vieram as dores.

Vieram os hospitais.

Médicos atrás de médicos tentando entender o que estava acontecendo.

Tentamos de tudo para proteger aquele pequeno sonho.

Houve conversas sobre procedimentos delicados, sobre possibilidades, sobre tentativas para manter intacta aquilo que, para nós, já significava tanto.

Eu só queria que ela ficasse bem.

Eu só queria que aquele sonho permanecesse vivo.

Mas existem momentos em que percebemos que nossas mãos não têm força suficiente para segurar tudo aquilo que amamos.

Três meses se passaram.

E, então, o sonho começou a se esvaziar.

Não estou falando de uma metáfora.

Não estou falando de um plano que deu errado.

Não estou falando de um projeto que não aconteceu.

Estou falando da morte no sentido mais literal e doloroso que essa palavra pode carregar.

Era uma tarde, no meio da semana.

Ela estava no hospital, depois de novas complicações.

Eu havia passado a madrugada ao lado dela, segurando suas mãos trêmulas e tentando esconder a preocupação que também morava dentro de mim.

Em algum momento, ela olhou para mim e disse:

— Amor, vai dar tudo certo. Pode ir para casa descansar. Você não pode ficar aqui a madrugada inteira nesse hospital. Eu fico por nós... por mim e pelo nosso bebê.

Mas eu não queria deixá-la.

Não queria deixá-los.

Eu queria permanecer ali durante toda a noite, como se a minha presença pudesse proteger o único sonho que eu não queria perder.

Eu queria lutar.

Queria fazer alguma coisa.

Queria entender por que, depois de tantas dores, mais uma parecia chegar para tentar me destruir.

Por muito tempo, eu perguntei a Deus o porquê.

E talvez essa seja uma das perguntas que eu nunca consiga responder completamente.

Hoje, porém, acredito que Deus possui planos que nem sempre dependem daquilo que desejamos.

Planos que são maiores do que a nossa compreensão.

Planos que, muitas vezes, só fazem sentido quando olhamos para trás.

Naquela noite, fui para casa.

Mas não dormi.

Ou, pelo menos, não consegui descansar.

Passei a madrugada acordando, voltando para a cama, tentando dormir e falhando novamente. Meu coração permanecia no hospital.

Na manhã seguinte, eu estava sentado na varanda quando o telefone tocou.

Era ela.

Do outro lado da ligação, havia uma dor que eu jamais esquecerei.

E então veio a pergunta.

Ela me perguntou se eu realmente queria continuar ao lado dela.

Havia algo em sua história que tornava tudo ainda mais doloroso.

Antes de mim, ela já havia enfrentado outras perdas.

Cinco crianças.

Cinco sonhos interrompidos antes que pudessem continuar.

E aquele seria o sexto.

O primeiro que também era meu.

Eu sabia que os outros sonhos não me pertenciam.

Não eram filhos meus.

Mas justamente por conhecer a história dela, por saber quantas vezes ela havia enfrentado aquela mesma dor, eu desejava, mais do que nunca, que dessa vez fosse diferente.

Eu queria que ela pudesse viver aquilo por inteiro.

Queria vê-la ser mãe.

Queria que ela conhecesse a alegria, o apego, o amor e a paz que imaginávamos sentir.

Mas a vida não é um conto de fadas.

E, às vezes, a realidade chega sem pedir licença.

Chega para rasgar.

Para furar.

Para destruir.

No terceiro mês da gestação, perdemos o nosso filho.

E foi uma das dores mais terríveis que já enfrentei.

Sentado naquela varanda, chorando, eu tentei entender o que havia acontecido.

Onde ele estava?

O que tinha acontecido?

Por quê?

E, em meio àquela dor, eu disse:

— Ele se foi.

Mas, dentro de mim, algo dizia outra coisa.

Eu sabia.

Ou, pelo menos, tinha uma certeza que não sei explicar.

Para mim, era uma menina.

Uma menina que eu nunca cheguei a ver.

Uma menina que nunca segurou a minha mão.

Uma menina que nunca ouviu a minha voz.

Mas que, de alguma forma, eu já amava.

Hoje, nossa história como casal não existe mais.

Seguimos caminhos diferentes.

E existem motivos que, com o tempo, comecei a compreender.

Talvez hoje eu consiga entender coisas que, naquela época, seriam impossíveis de aceitar.

Mas a dor daquela perda continua sendo uma marca.

Mais uma marca entre tantas outras que carreguei durante a minha vida.

Meus leitores conhecem parte das minhas dores.

Conhecem algumas das histórias que contei em O Silêncio que Me Formou.

Conhecem as quedas.

Os medos.

As perdas.

As reconstruções.

E aquela foi mais uma dor que eu jamais esquecerei.

Mas este é o Livro dos Sonhos.

E essa história não termina apenas na realidade.

Porque, depois da perda, veio o sonho.

---

Eu via você.

Pequena.

Delicada.

Com suas mãozinhas pequenas e seu sorriso brilhante.

Eu via seus cachinhos dourados.

E, mesmo sem nunca ter conhecido seus olhos, eu imaginava como seria olhar para você todos os dias.

Eu sabia que você cresceria.

Sabia que um dia começaria a dar os seus primeiros passos.

E eu estaria ali.

Eu seria aquele que seguraria sua mão.

Aquele que caminharia ao seu lado.

Que mostraria caminhos.

Que ensinaria que a vida pode ser bela para aqueles que aprendem a vivê-la.

Assim como minha mãe sempre me ensinou que a vida é muito mais do que perdas.

Ela também é feita de alegrias.

De momentos.

De reencontros.

De sonhos.

De tudo aquilo que tentamos construir dentro de nós, todos os dias.

Eu imaginava olhar para você.

Amarrar seu cabelo.

Contar histórias.

Ensinar sobre amor.

Sobre esperança.

Sobre Deus.

Sobre a vida.

Eu faria de tudo para que você fosse a criança mais feliz deste mundo.

Eu te ensinaria a sorrir.

Mas, principalmente, aprenderia com o seu sorriso.

Eu te protegeria.

Ou, pelo menos, tentaria.

Porque foi isso que eu quis fazer desde o instante em que descobri que você existia.

Proteger um sonho que eu já amava.

Esse foi o sonho.

O sonho que se perdeu.

E, ainda assim, o sonho que permaneceu.

Quando acordei, o quarto estava em silêncio.

E, naquele silêncio, eu entendi algo da forma mais dura possível:

Às vezes, nós amamos profundamente alguém que nunca chegamos a conhecer.

Você nunca respirou neste mundo.

Mas respirou dentro de mim.

E isso ninguém pode apagar.

Há perdas que não enterram apenas um futuro imaginado.

Elas levam planos.

Levam expectativas.

Levam nomes que nunca serão chamados.

Levam quartos que nunca serão preparados.

Brinquedos que nunca serão comprados.

Histórias que nunca serão contadas.

Mas existem amores que não desaparecem porque a história foi interrompida.

Alguns amores continuam existindo em lugares onde o tempo não consegue alcançar.

Você nunca cresceu.

Nunca correu pela casa.

Nunca segurou a minha mão.

Nunca me chamou de pai.

Mas, de alguma forma, eu conheci a versão de você que existia dentro dos meus sonhos.

E talvez essa seja a única forma que encontrei de guardar você.

Você continuará existindo onde ninguém pode tirar você de mim.

Na memória.

Na esperança.

E nos sonhos.

Foi naquele momento que o silêncio voltou.

O mesmo silêncio que, um dia, ajudou a me formar.

Mas agora ele voltava diferente.

Mais pesado.

Mais profundo.

Carregando uma ausência que ninguém conseguia explicar.

Durante muito tempo, achei que o silêncio era apenas vazio.

Hoje sei que não.

Às vezes, o silêncio é o único lugar onde conseguimos ouvir tudo aquilo que o coração ainda não consegue dizer.

E, quando o silêncio voltou, eu chorei.

Chorei pelo sonho.

Pela perda.

Pelo pai que eu sonhei ser.

Pela filha que eu sonhei conhecer.

Mas também chorei por amor.

Porque, mesmo sem ter tido a chance de conhecê-la, eu já sabia:

alguns amores não precisam de uma vida inteira para se tornarem eternos.

Talvez você nunca tenha chegado até mim da forma que eu sonhei.

Mas, por alguns meses, você transformou o meu mundo.

E, por uma vida inteira, continuará fazendo parte da minha história.

Você foi um sonho.

E eu aprendi a amar você antes mesmo de conhecê-la.

Talvez seja por isso que a sua partida tenha doído tanto.

Porque perder você não foi apenas perder algo que eu desejava.

Foi me despedir de alguém que, mesmo sem nunca ter aberto os olhos para este mundo, já tinha aberto um espaço eterno dentro do meu coração.

E, naquela despedida, depois de tantas palavras, perguntas e lágrimas...

o silêncio voltou.

Thoughts

  • li_no_busao

    Amar sem conhecer. Essa frase vai ficar comigo.

    Permalink

Related posts