3. A SENSAĂĂO DE SER "ESTRANHA"
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NĂŁo era uma dor que se via.
Era um ruĂdo que sĂł eu escutava.
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Quando as outras crianças riam das mesmas piadas,
eu ria atrasada, encaixando o riso na boca errada,
como quem veste uma camisa que nĂŁo Ă© do seu tamanho.
Ser estranha nĂŁo era ser invisĂvel.
Era ser visĂvel demais, do jeito errado.
Sentir que todos os olhares me atravessavam
com uma pergunta muda:
ÂŽÂŽDe onde vocĂȘ veio? Por que nĂŁo se encaixa?``
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Como ÂŽÂŽPatti Smith`` em ÂŽÂŽHorses``,
eu era uma andrĂłgina em um mundo de caixas.
Como ÂŽÂŽk.d. lang`` antes de sair do armĂĄrio,
minha voz era grande demais para o corpo que a continha.
NĂŁo era mĂĄ, nem feia, nem burra.
Era apenas um peixe num bando de pĂĄssaros.
Tentava abrir asas, mas sĂł conseguia nadar no ar.
Ser estranha Ă© isso:
vocĂȘ se vĂȘ no mundo,
mas o mundo nĂŁo te vĂȘ como parte dele.
VocĂȘ Ă© o ponto fora da curva,
o erro no meio da fĂłrmula certa.
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E o pior nĂŁo era ser apontada.
O pior era saber que era verdade.
Até que um dia ouvi ŽŽTracy Chapman`` cantando ŽŽFast Car``
e entendi: nĂŁo era sobre fugir.
Era sobre encontrar um lugar onde eu pudesse parar.
â NelleAziul