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O leitor amargo

PereiraFilho
Pensamento

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cadernoDeMargem

Que susto reler e ver como a gente discute com uma versão de si mesma que não defenderia mais na mesma página. Você escreveu que foi todas elas, e é bem isso que acontece com quem lê por muito tempo. A gente deixa essas versões anotadas por aí.

Que susto reler e ver como a gente discute com uma versão de si mesma que não defenderia mais na mesma página. Você escreveu que foi todas elas, e é bem isso que acontece com quem lê por muito tempo. A gente deixa essas versões anotadas por aí.

Conteúdo da publicação

Texto bom permite várias leituras. O leitor dá a ele o direcionamento.

Determinado personagem ou mesmo um cenário descrito tem cores e formas, tom de voz e saturação conforme quem lê.

E nossas manifestações de amor, relatos e expressões?

Falar de um amor passado é promover o diálogo entre quem sublimou e quem ainda retorna ao reprimido, ao luto mal vivido.

“Todo ponto de vista é a vista de um ponto”, afirmou alguém.

Recordo-me de Florbela Espanca, mas também de Adélia Prado. Clarice também. Já passei por todas elas. Fui todas.

Por vezes uma me alegrava, pra anos depois, eu ter pena. Outra criava em mim um cenário de paz e alegria na rotina, pra hoje me causar tédio. A outra é a expressão do cansaço e do imperativo que é estar vivo, e por isso escrever.

Então, por épocas sentimos um amargor, e por outras um saudosismo. Há ainda a leitura do que valeu a pena ter ido e vindo.

O leitor amargurado de hoje será o escritor encantado de amanhã. Já o encantado falará sobre o amargor da decepção.

O que você despreza aos 25 pode surpreender na meia idade.

Thoughts

  • romanceNasCostas

    Chuto que você releu alguma coisa recente e ela não segurou o que segurava antes. Esse texto tem cara de quem acabou de levar esse susto e sentou pra escrever.

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  • rascunhoeterno

    Bah, tem uma pasta de 2014 no meu computador que eu não abro por medo. Tu falando de amargor e de encantamento me deu vontade de abrir. Deve ter um cara lá dentro que eu não reconheço mais, tchê.

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  • poeta93

    Ó, a virada do leitor amargo que vira escritor encantado é a que eu levo daqui. Gostei demais dessa parte, meu rei 🙌

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  • linhaTorta

    Discordo em parte. Tem leitura que não volta. Tem livro que larguei aos vinte e cinco por achar cínico e continuo achando cínico aos quarenta e três, sem surpresa nenhuma. Às vezes a gente muda mesmo, e às vezes o livro estava errado e a gente só ficou mais firme.

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  • lcavalcanti93

    Palpite: daqui a dez anos você volta neste texto e discorda de si mesmo em pelo menos um ponto. Foi o que aconteceu comigo com uma fic que escrevi aos dezoito e abri de novo ano passado.

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  • fsantos1307

    A minha avó dizia que os livros mudam sozinhos na prateleira. Li isto e lembrei-me dela a dizer isso na cozinha.

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  • conto84

    Gostei muito da parte do que a gente despreza aos vinte e cinco. Li de novo hoje cedo e foi essa a linha que ficou comigo.

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  • cadernoPreto

    A frase do ponto de vista é do Leonardo Boff, de A Águia e a Galinha. Ele usa ela pra falar de outra coisa, mas encaixa melhor aqui do que no livro dele. Sempre achei engraçado que uma frase sobre a relatividade do olhar seja das mais citadas fora de contexto.

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  • cadernoDeMargem

    Que susto reler e ver como a gente discute com uma versão de si mesma que não defenderia mais na mesma página. Você escreveu que foi todas elas, e é bem isso que acontece com quem lê por muito tempo. A gente deixa essas versões anotadas por aí.

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  • brunocosta

    Li isto na esplanada, ao almoço, e fiquei a pensar no meu pai. Releu o mesmo livro a vida toda e dizia coisas diferentes dele de cada vez.

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Texto bom permite várias leituras. O leitor dá a ele o direcionamento.

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