Perfeito. Aqui está o Capítulo 4 inteiro, com os travessões trocados por vírgula ou ponto conforme fica mais natural, e as divisões de seção no lugar. É só copiar e colar.
Capítulo 4 — Depois da Corrida
I. A outra margem
Correram mais do que de costume naquele sábado, e não houve conversa sobre isso. Na altura da ponte velha, onde Ana sempre diminuía o passo e fazia a curva de volta, Jon continuou reto. Ela chegou ao ponto em que o corpo já conhecia a mudança de direção, o pé direito quase procurando sozinho o caminho de casa, e não virou. Continuou. Jon só percebeu alguns metros depois; não olhou para ela, apenas ajustou o ritmo, e Ana gostou que ele não perguntasse.
A ciclovia seguia depois da ponte acompanhando o rio por mais dois quilômetros, estreita em alguns pontos, sombreada em outros por árvores que ela conhecia de passar de carro e nunca correndo. Era estranho descobrir que uma rota tão antiga podia continuar além do lugar onde ela sempre decidira que terminava. Não transformou aquilo em metáfora; estava cansada demais. O fim de outubro já começara a roubar das manhãs o frio limpo das semanas anteriores, e às sete e meia o sol batia aberto sobre o rio. A camiseta de Jon estava escura entre as omoplatas, grudando nas costas sempre que ele diminuía o ritmo, soltando quando acelerava. Ana percebeu, e continuou olhando para a frente, porque não havia nada de extraordinário em reparar num homem suado depois de dez quilômetros lado a lado. Era o tipo de coisa que os olhos registram antes de qualquer julgamento. Mesmo assim, alguns segundos depois, passou à frente.
"Tá roubando", Jon disse.
Ela olhou por cima do ombro. "Roubando o quê?"
"Você acelerou na descida."
"Isso se chama correr."
"Na subida você quer morrer. Na descida vira atleta."
"Você tá falando demais pra quem corre tão devagar."
Ele acelerou. Ana percebeu a provocação tarde demais e foi atrás. A disputa durou talvez quarenta segundos e terminou do único jeito possível: os dois chegando juntos a um trecho em que a ciclovia alargava, Ana curvando o corpo com as mãos nos joelhos e Jon fingindo que respirava melhor do que respirava.
"Tá ofegante."
"Não tô."
"Tá sim."
"Você também."
"Eu tenho trinta e seis anos."
"Você usa sua idade como argumento pra coisas contraditórias."
Ana ergueu a cabeça. "Como assim?"
"Quando ganha, trinta e seis não é nada. Quando perde, você tem trinta e seis."
"Eu não perdi."
"Claro."
Ela quis responder, mas precisava mais de ar, e ficou curvada de novo, respirando pela boca. Quando tornou a se endireitar, Jon estava de costas para ela, olhando o rio. Poderia ter continuado de frente, poderia ter feito piada com o rosto vermelho, com o cabelo dela escapando do elástico, com a falta de fôlego, e não fez: deu a ela aqueles segundos sem plateia.
Ana passou o antebraço pela testa. "Tô com uma fome absurda."
Jon virou. "Tem açaí ali na frente."
"Onde?"
"Depois da praça. Umas duas quadras."
"É bom?"
"É açaí."
"Isso não responde."
"Eu como."
"Isso também não responde."
"Então não sei."
Ela riu. "Você vai?"
"Vou."
Ana poderia ter dito que precisava voltar. Tinha a turma infantil às nove, ainda precisava tomar banho, abrir o estúdio, separar as caixas de som menores que usava com as crianças. Cláudio provavelmente estaria dormindo e só desceria quando ela já estivesse embaixo. O cálculo passou inteiro pela cabeça dela: havia tempo, não muito, mas suficiente.
"Eu vou também."
Jon assentiu como se fosse a conclusão mais banal da manhã, e talvez fosse. Começaram a caminhar, e só depois de alguns metros Ana percebeu uma diferença que não gostou de perceber tão claramente: a corrida tinha acabado. Nenhum dos dois precisava mais continuar ao lado do outro. Continuaram.
II. Paçoca
O lugar do açaí era pequeno, três mesas de plástico na calçada sob um toldo que um dia fora roxo e agora tinha uma cor indefinida entre lilás e sol. Duas mesas estavam ocupadas por gente de roupa de corrida. O rapaz atrás do balcão cumprimentou Jon com um "e aí" preguiçoso, e Ana olhou para ele.
"Você é cliente."
"Às vezes."
"Então você já tinha um plano."
"Eu tinha fome."
"Suspeito."
Jon pediu o dele primeiro: leite em pó, paçoca e banana. Ana ouviu paçoca e perdeu o respeito pelo restante. Quando chegou a vez dela, pediu granola e banana. Jon esperou os dois copos ficarem prontos e levou um em cada mão até a mesa. Ana sentou, olhou para o dele, depois para ele.
Jon tirou a tampa. "Fala."
"Não falei nada."
"Fez a cara."
"Que cara?"
"A mesma cara que você faz quando alguém pisa fora do tempo."
"Eu não faço uma cara."
"Faz."
"Você não tem experiência suficiente pra saber."
"Tenho dois meses de estudo de campo."
Ela riu e apontou para o copo. "Paçoca no açaí é uma agressão."
"Você põe granola."
"Granola combina."
"Segundo quem?"
"Segundo a civilização."
Ele provou o próprio açaí. "Bom."
"Você não tem critério."
"Você ficou oito semanas tentando me ensinar que gosto não é critério pra dança e agora quer aplicar na paçoca."
Ana abriu a boca e fechou. Jon viu; não sorriu, mas havia satisfação suficiente nos olhos.
"Tá", ela disse. "Essa foi boa."
"Eu sei."
"Não estraga."
Sentaram-se de frente, apertados pela mesa pequena. Jon esticou uma perna sem pensar e o joelho tocou o dela. Recolheu imediatamente.
"Foi mal."
Ana olhou para o espaço que ele tinha aberto entre os dois e depois para ele. Havia qualquer coisa quase engraçada naquela velocidade. Dois meses de dança, mãos, braço, ombro, peito próximo, quadril encontrando eixo, e um joelho debaixo de uma mesa ainda produzia um pedido de desculpas.
"Jon."
"O quê?"
"Você acabou de correr mais de dez quilômetros do meu lado."
"Eu sei."
"Pode encostar no meu joelho sem preencher um formulário."
"Eu não ia preencher."
"Pareceu."
Ele esticou a perna de novo, não até encostar, só o suficiente para mostrar que tinha entendido. Ana baixou os olhos para o próprio açaí antes que ele visse o sorriso. A camiseta dele continuava úmida nas costas, o cabelo tinha secado errado na frente, uma mecha mais escura grudada perto da testa. No estúdio Jon estava sempre minimamente arrumado, mesmo quando chegava cedo; ali tinha a pele quente da corrida, a respiração ainda um pouco funda, a marca vermelha da gola no pescoço. Ela percebeu mais do que pretendia e foi até o copo.
"Por que você não toma café?"
"Porque é ruim."
Ana quase se ofendeu. "Você não gosta de café."
"Foi o que eu disse."
"Ninguém gosta no começo."
"Então qual é o sentido?"
"Você aprende."
"Por quê?"
"Porque..."
Ela parou. Ele esperou. Ana procurou um argumento e encontrou apenas hábito, infância, manhãs, cheiro, Cláudio colocando água demais, a mãe dela passando café forte demais quando ela tinha quinze anos. Nada que respondesse.
"Tá. Ponto pra você."
"Segundo."
"Não começa a contar."
"Eu conto tudo."
"Esse é exatamente o seu problema."
A conversa saiu daí e foi para lugares que não tinham sido convidados. A mãe dele apareceu primeiro, porque Ana perguntou se tinha aprovado o corte de cabelo. Depois o pai. Depois o fato de Jon desmontar rádios quando criança e nunca remontar porque, segundo ele, "a parte interessante já tinha acontecido".
"Seu pai devia amar."
"Ele achava que eu era um pequeno criminoso."
"Você quebrava as coisas dele."
"Eu entendia as coisas dele."
"Desmontadas."
"Detalhe."
Ana contou que tinha começado a dançar porque a mãe não tinha com quem deixá-la durante as aulas.
"Então você também foi obrigada."
"Não."
"Tinha oito anos."
"Eu podia ficar sentada."
"Mas não ficava."
"Não."
"Então."
"Então o quê?"
"Você fala de mim e da Carla, mas sua mãe fez a mesma coisa."
"Minha mãe não me empurrou pra pista."
"Não precisava."
Ana apoiou a colher no copo. "Você gosta muito de estar certo."
"Não. Eu gosto quando eu estou."
Ela riu. A conversa era mais desorganizada do que as conversas deles durante a corrida. Correndo, o corpo dava ritmo até para o silêncio; ali havia desvios. Jon começava falando da infância e terminava explicando por que odiava mamão. Ana contava sobre a mãe e no meio lembrava de uma aluna que tinha levado um papagaio para o estúdio quando ela tinha vinte e dois anos. Não havia pergunta seguida de resposta, havia assunto puxando assunto. Isso agradava Ana, e foi por estar confortável que ela puxou a primeira aula.
Jon estava tentando raspar o resto de paçoca do fundo do copo quando ela disse: "Você tava bem pior naquele primeiro dia."
Ele ergueu os olhos. "Correndo?"
"Existindo."
"Ah."
"Você parecia alguém que tinha entrado no endereço errado e tinha vergonha de perguntar como saía."
"Eu queria sair."
"Eu sei."
"Não sabe."
Ana sorriu. "Você ficou com a mão na maçaneta."
A colher dele parou. "Você viu?"
"Era minha sala."
"Você tava falando com a Carla."
"Eu consigo falar com uma pessoa e enxergar outra."
Jon olhou para ela com uma expressão de consideração genuína. "Isso explica muita coisa."
"Que coisa?"
"Você saber tudo que acontece."
"Não sei tudo."
"Quase."
"É meu trabalho."
"Controlar todo mundo?"
"Prestar atenção."
"Mesma coisa com embalagem melhor."
Ela estreitou os olhos. "Você tá abusado."
"Você falou que eu podia encostar no seu joelho. Achei que as regras tinham relaxado."
Ana riu antes de conseguir impedir. "Não mistura."
"Você começou."
Ele voltou ao copo. Havia alguma coisa diferente na maneira como conversavam naquela manhã. Não era exatamente coragem; Jon continuava escolhendo as palavras como se cada frase precisasse atravessar uma alfândega interna antes de sair, mas agora algumas passavam sem declaração. Ana gostava de encontrá-las do outro lado.
"Você era muito travado", ela disse.
"Era?"
"Era."
"Melhorei."
"Um pouco."
"Cláudio disse que eu tô com corpo de dançarino."
"Cláudio exagera quando gosta de alguém."
Jon demorou um segundo. "Ele gosta de mim?"
A pergunta era tão genuína que Ana riu. "Claro que gosta."
"Não sabia."
"Ele te chama pra ajudar, te empresta coisa, fica quinze minutos explicando passo depois da aula sem cobrar."
"Eu achei que ele fazia isso com todo mundo."
"Ele faz. Com quem gosta."
Jon assentiu devagar, guardando a informação. Ana viu. Havia coisas que ele recebia com uma espécie de cuidado que fazia parecer que ninguém nunca tinha colocado aquilo na mão dele antes. Ela sentiu vontade de aliviar a conversa, ou talvez de levá-la para outro lugar.
"Mas naquela primeira aula ele também achou que você ia fugir."
"Eu quase fugi."
"Você fala isso com orgulho."
"Não é orgulho."
"Pareceu."
"Eu fiquei muito nervoso."
"Eu percebi."
"Você percebe tudo, aparentemente."
"Tudo não."
Ana viu a oportunidade se formar antes mesmo de terminar a frase. Havia uma saída segura à mão: podia brincar com os ombros dele, com a mania de contar, com o fato de ele quase não olhar para ninguém. Era fácil, seria engraçado, e terminaria ali. Mas outra lembrança já estava na mesa, e ela sabia que Jon a carregava também. Sabia pela forma como ele evitava qualquer referência ao fim daquela aula, pela pressa com que fora embora depois. Ana sentiu uma curiosidade pequena e concreta: queria saber o que aconteceria no rosto dele se ela dissesse. Devia ter bastado perceber isso para não dizer. Não bastou.
"Apesar de você ter facilitado bastante em certo momento."
Jon franziu a testa. "Como?"
Ana tomou uma colher de açaí. Já não estava frio como antes. "Você sabe."
"Não sei."
Sabia, e ela viu o exato instante em que soube: o olhar mudou primeiro, depois o corpo, aquela rigidez que ela conhecia tão bem das primeiras aulas voltando à base do pescoço. Ana sentiu uma ponta de satisfação e imediatamente desconfiou dela. Poderia parar.
"Ah, sabe."
"Ana."
O nome saiu diferente. Não professora, não exatamente amigo. Um aviso.
Ela apoiou o cotovelo na mesa. "Você ficou tão nervoso no começo que eu achei que você ia parar de respirar."
"Eu não parei."
"Quase."
"Não foi isso."
"Não?"
Jon olhou para a rua. Ana sentiu o próprio pulso sob a pele quente da corrida. Uma parte dela já pedia recuo, não por medo dele, mas por consciência de si. Era casada. Era professora dele. Ele era mais novo. Nada disso desaparecera porque estavam comendo açaí depois de correr. E ainda assim havia algo absurdamente tentador em finalmente nomear um episódio que os dois vinham carregando separados havia semanas. Ela poderia tornar aquilo simples. Escolheu não tornar.
"Você ficou excitado, Jon."
Ele não se mexeu, tão completamente parado que Ana quase riu. A palavra, dita daquela maneira comum, sem eufemismo, pareceu ocupar menos espaço do que todos os rodeios anteriores.
Jon olhou para ela, depois para o copo. "Tá."
Ana ergueu uma sobrancelha. "Tá?"
"O que você quer que eu responda?"
"Não sei. Qualquer coisa."
"Eu tava tentando esquecer."
"Por quê?"
Ele olhou de novo. A pergunta tinha sido sincera; Ana só percebeu depois.
"Porque foi constrangedor."
"Pra você."
"É."
"Pra mim não."
Jon deixou a colher no copo. "Não?"
Ana poderia simplesmente dizer não. Era a resposta necessária, nada mais. Mas alguma coisa nela queria que ele entendesse direito. Talvez porque, olhando para aquele constrangimento ainda intacto, o episódio parecesse menos carregado do que tinha parecido no dia; talvez porque ela não gostasse da ideia de ele ter passado semanas imaginando que a tinha ofendido.
"Jon, eu dou aula de dança."
"Eu sei."
"Eu passo minha vida encostando em gente."
"Isso é diferente."
"É um corpo reagindo."
Ele pareceu pouco convencido. Ana inclinou um pouco a cabeça. "Você achou que eu fiquei ofendida?"
"Eu não sabia."
"Você ficou três minutos no banheiro."
Os olhos dele subiram imediatamente. "Como você sabe que foram três?"
Ana sorriu. "Então foram três."
"Você me pegou."
"Meu Deus."
Ela começou a rir. Jon fechou os olhos.
"Não ri."
"Três minutos?"
"Eu precisava esperar."
"Esperar o quê?"
Ele abriu os olhos e olhou para ela. Ana sabia perfeitamente o quê. Mesmo assim perguntou, e o fato de ter sido uma escolha passou pela cabeça dela com nitidez suficiente para produzir um pequeno aperto abaixo das costelas.
Jon passou a mão pela nuca. "Você sabe."
"Quero ouvir."
"Não."
Ana riu. "Covarde."
"Você já sabe."
"Eu quero ver você falar."
"Por quê?"
A pergunta a pegou. Porque queria, a resposta veio rápida demais. Porque era engraçado vê-lo desconfortável. Porque ali, fora do estúdio, a autoridade dela podia ser usada como brincadeira e não como instrução. Porque havia algo no modo como ele corava que despertava nela uma vontade pouco generosa de apertar mais um pouco. E porque, por baixo disso, havia outra coisa, que ela reconhecia e não estava disposta a examinar numa cadeira de plástico às oito e pouco da manhã.
"Porque você fala de tudo como se estivesse lendo manual", disse. "Quero ver como você explica essa."
"Não explico."
"Ponto pra você."
"Terceiro."
"Você tá contando ainda?"
"Eu avisei."
Jon respirou e depois ficou sério.
"Desculpa."
Ana parou de sorrir. "Por quê?"
"Por aquilo."
A mudança na voz dele tirou a brincadeira da mesa por um instante. Não havia flerte ali, só constrangimento antigo. Ana viu de novo o rapaz da primeira aula, os ombros altos, o corpo tentando obedecer a instruções demais ao mesmo tempo, a forma quase desesperada como procurara uma saída quando percebeu o que estava acontecendo. Ela sentiu ternura antes de qualquer outra coisa.
"Você não precisa pedir desculpa."
"Eu sei que não foi de propósito, mas..."
"Mas nada."
"Foi inadequado."
Ana ficou olhando para ele. "Inadequado?"
"Não achei uma palavra melhor."
"Você tá pedindo desculpa porque teve uma ereção enquanto dançava comigo?"
Outra palavra, direta. Jon piscou, e Ana teve que morder por dentro a vontade de rir. Poderia ter dito reação. Poderia ter dito aquilo. Escolhera ereção. Por quê? Talvez porque estivesse cansada da coreografia absurda de dois adultos fingindo que uma parte do corpo precisava permanecer sem nome para ser tratada com maturidade. Talvez porque quisesse ver o que ele faria com a palavra. Essa segunda possibilidade incomodou mais.
"Quando você fala assim parece pior", ele disse.
"Pra mim parece mais simples."
"Não era simples naquele momento."
"Pra você."
"Sim."
Ana apoiou os braços na mesa. "Eu não fiquei brava."
"Tá."
"Nem ofendida."
"Tá."
"Nem achei que você fez alguma coisa comigo."
Ele respirou um pouco mais solto. "Tá."
"Você só ficou nervoso."
"Eu estava muito perto de você."
A frase caiu entre os dois. Ana sentiu primeiro no peito, não porque tivesse sido particularmente ousada; pelo contrário, Jon a dissera com simplicidade, quase como uma justificativa técnica. Mas havia uma diferença entre ouvir "meu corpo reagiu" e ouvir aquilo.
Ela quase respondeu com alguma piada. A primeira frase que veio foi segura: é dança, Jon. Podia dizer. Terminaria ali. A segunda veio logo atrás: e eu estava muito perto de você também. Ana sentiu a própria boca começar a formar antes de decidir. Parou. Pegou a colher. Mexeu um açaí que já não precisava ser mexido.
"É dança", disse finalmente. A resposta segura.
Jon assentiu, e a decepção que Ana sentiu consigo mesma por tê-la escolhido foi inesperada o bastante para quase fazer a colher escorregar. Era o tipo de coisa que pedia para ser examinada, e ela a deixou onde estava, por ora.
"De qualquer forma", Jon disse, "desculpa."
Ana respirou. "Tá tudo bem."
"Tá."
"Você não precisa passar três minutos escondido se acontecer de novo."
Ele olhou para ela. "Não vai acontecer."
A resposta saiu rápida. Ana viu a certeza excessiva e riu.
"Não?"
"Não."
"Você parece muito confiante."
"Eu já sei como é."
"Ah, então é questão de treinamento?"
"Não foi isso."
"Foi exatamente isso."
Ele passou a mão pelo rosto. "Ana."
Ela gostava demais de ouvi-lo dizer o nome daquele jeito. O pensamento veio inteiro, e dessa vez ela não conseguiu fingir que não viera. Gostava. Não havia conclusão anexada; era só o fato.
Aquele devia ter sido o ponto de parada. Ela já tinha ido suficientemente longe, e sabia disso com a mesma precisão com que sabia quando um aluno perdia o eixo antes de ele pisar errado. Podia mudar para a música. Podia perguntar da mãe dele. Podia levantar. Tinha aula. Tinha marido. Tinha trinta e seis anos e experiência suficiente para reconhecer uma porta antes de atravessá-la.
Jon ainda estava vermelho. Ainda havia uma tensão pequena no canto da boca. E Ana percebeu que queria vê-lo ficar mais vermelho. O desejo não era grande. Era pior por ser pequeno, pequeno o bastante para parecer inofensivo.
Ela deixou a colher no copo. "Da próxima vez", disse, "não precisa fugir sozinho."
Jon olhou. Ana poderia terminar ali. Me avisa seria brincadeira suficiente. A frase que apareceu, porém, fez o coração dela bater uma vez errado. Não diga, foi a primeira coisa que pensou. Logo atrás: é só uma piada. E depois, mais baixo: quero ver a cara dele. Foi essa última que decidiu.
"Eu vou com você no banheiro."
Jon parou completamente. A mão continuou segurando a colher, mas não se mexeu. Os olhos permaneceram nos dela por tempo suficiente para Ana sentir o calor subir pelo próprio pescoço. Ela tinha esperado constrangimento; não tinha esperado silêncio, nem aquele olhar. Por uma fração muito curta, antes do bom senso chegar, Ana sustentou. Alguma coisa passou pelo rosto dele: surpresa primeiro, depois compreensão, depois algo que ela não tinha direito nenhum de tentar nomear.
Foi Ana quem recuou. Riu.
"Olha a sua cara."
Jon baixou os olhos. "Você falou."
"Foi uma piada."
"Eu sei."
"Não parece."
"Eu sei que foi uma piada."
"Então para de fazer essa cara."
"Que cara?"
Ana abriu a boca. Não encontrou uma descrição que não piorasse tudo. "Essa."
"Você que causou."
Ela soltou uma risada curta. "Tá ficando abusado."
Jon olhou para ela novamente, e ali aconteceu uma coisa pequena. Ele poderia ter pedido desculpa, era o que o Jon de dois meses antes teria feito. Poderia ter recuado. Em vez disso, disse: "Você que começou."
Ana sentiu primeiro o divertimento, depois o susto. Não pelo conteúdo. Pela facilidade.
"Eu sou sua professora."
Jon não hesitou. "Você disse que não tava trabalhando."
Ana ficou um segundo olhando para ele e então riu de verdade, baixando a cabeça.
"Desgraçado."
"Primeira vez que você me chama assim."
"Se acostuma."
"Tá."
Ela apontou a colher para ele. "Não se acostuma demais."
"Complicado entender as regras."
"Esse é o objetivo."
"Então eu nunca vou aprender."
"Talvez."
A palavra saiu mais baixa do que precisava. Ana percebeu. Jon também, provavelmente. Dessa vez nenhum dos dois tentou salvar. O rapaz do balcão arrastou uma cadeira no interior da loja, um ônibus passou, e a vida, com uma falta completa de respeito pela importância que duas pessoas podiam atribuir a um silêncio, continuou.
Ana olhou o relógio.
"Merda."
"Infantil."
"Vinte e seis minutos."
"Você consegue."
"Eu tenho que tomar banho."
"Vinte e seis minutos."
"Eu tenho que abrir o estúdio."
"Vinte e seis minutos."
"Você tá gostando disso."
"Um pouco."
Levantaram. Jon pegou os dois copos, e Ana observou enquanto ele caminhava até a lixeira. A camiseta ainda estava úmida nas costas; dessa vez ela não desviou imediatamente, só quando ele virou. Prendeu novamente o cabelo. Ele voltou.
"Até quinta."
"Até quinta."
Jon deu um passo. Ana poderia deixar terminar ali. Devia. Já tinha passado o ponto uma vez, talvez duas. A vontade de fazer uma última provocação veio acompanhada agora de consciência suficiente para que ela quase sentisse vergonha antes mesmo de falar. Ainda assim:
"Jon."
Ele virou.
Ana segurou o sorriso. "Da próxima vez, dois minutos."
Ele demorou meio segundo, entendeu, e as orelhas ficaram vermelhas antes do resto.
Ana riu e começou a correr. Ouviu atrás:
"Você é uma pessoa horrível."
Ela não virou. "Quinta-feira!"
Correu mais rápido. E dessa vez sabia perfeitamente por que estava rindo.
III. Panquecas
Cláudio estava na cozinha quando Ana chegou. A massa das panquecas descansava sob um pano de prato, o café já estava pronto, e ele, de costas, camiseta velha e bermuda, mexia no celular com a concentração de quem provavelmente assistia a um vídeo de conserto de alguma coisa que não precisava consertar.
"Demorou", disse.
Ana fechou a porta. A frase produziu nela uma reação tão imediata que quase respondeu rápido demais. Olhou o relógio.
"Corri mais."
"Tá virando atleta."
"Eu já era."
"Você dá aula de forró."
"Exatamente."
Cláudio virou, sorriu daquele jeito pequeno de manhã, ainda meio dormindo, e beijou a testa dela quando passou. Ana sentiu cheiro de café, pasta de dente e casa. Entrou na cozinha, abriu a geladeira, não precisava de nada, e ficou olhando para dentro.
Eu vou com você no banheiro. A frase voltou com a própria voz dela e, sem o rosto de Jon na frente, soou diferente. Menos engraçada.
Ana pegou água e fechou a porta da geladeira. Cláudio despejava massa na frigideira.
"A corrida foi boa?"
"Foi."
"Encontrou o Jon?"
A mão dela apertou um pouco mais a garrafa. Não havia nada na voz de Cláudio, nenhum teste, nenhuma referência ao sábado anterior, só uma pergunta simples, feita porque agora ele sabia que às vezes os dois se cruzavam.
"Encontrei."
"Ele corre bem?"
Ana tomou água antes de responder. "Corre."
"Melhor que você?"
"Vai se ferrar."
Cláudio riu. "Resposta suficiente."
Ana encostou na bancada. Ele virou a panqueca e errou; metade dobrou sobre si mesma.
"Controle de qualidade", ela disse.
"Você não viu nada."
"Vi tudo."
"Essa é sua pior qualidade."
A frase trouxe Jon de volta antes que ela pudesse impedir. Você percebe tudo. Ana sentiu irritação, não com Cláudio, nem com Jon, consigo mesma. Foi só uma piada. Era verdade.
Ela poderia contar a Cláudio, se quisesse. Poderia dizer: zoei o menino porque ele ficou excitado no começo das aulas e falei que da próxima vez ia com ele ao banheiro. Poderia. A simples ideia de pôr a frase naquela cozinha fez o estômago dela se contrair. Não porque Cláudio fosse necessariamente ficar bravo, talvez risse, talvez dissesse que ela era impossível, talvez achasse estranho; ela não sabia. O que sabia era que não queria contar. E essa constatação incomodava mais do que a própria brincadeira.
Cláudio empilhou duas panquecas.
"Banho primeiro ou comida?"
"Comida."
"Atleta de verdade."
Ana mostrou o dedo do meio. Ele veio até ela com a espátula ainda na mão e passou o braço pela cintura.
"Suada."
"Eu corri."
"Eu percebi."
Ele beijou o canto da boca dela, e Ana respondeu, não por obrigação. O corpo conhecia aquele homem havia onze anos: o peso do braço, a barba mais áspera de sábado de manhã, a maneira como ele apertava a cintura duas vezes antes de soltar. Ela gostava. Ainda queria ficar ali. A certeza veio quase como alívio, e imediatamente produziu culpa.
Cláudio voltou à frigideira. Ana sentou na bancada.
Eu vou com você no banheiro. Por que tinha dito aquilo? A resposta mais confortável era que fora engraçado, verdade. A segunda, que Jon ficava engraçado sem graça, também verdade. A terceira demorou mais a chegar: porque queria provocar.
Ana olhou para a nuca de Cláudio. Queria provocar Jon. Não fora acidente, não fora uma frase que escapara antes de ela perceber. Tinha pensado, considerado não falar e falado mesmo assim. E pior: gostara de conseguir fazê-lo parar, gostara daquele segundo em que Jon simplesmente não soubera o que fazer com ela.
Ana pegou uma panqueca com a mão.
"Ei."
"Controle de qualidade", disse, já mordendo.
"Essa é minha função."
"Reestruturação interna."
Cláudio tentou arrancar da mão dela; Ana desviou rindo. Por alguns minutos foi só aquilo: café, panqueca, a infiltração que ainda não tinha sido consertada, o cliente que Cláudio odiava, uma mãe da turma infantil que mandava mensagem às seis da manhã. Vida. Ana deixou que a vida ocupasse o espaço. Funcionou. Quase.
IV. Quinta-feira
Na quinta seguinte, Jon chegou às sete e vinte e oito. Ana soube o horário porque estava olhando o relógio quando ele entrou, e a explicação de que não o esperava surgiu tão imediata e tão infantil que ela se irritou consigo mesma.
"Adiantado", disse.
Jon deixou a mochila no canto. "Dois minutos."
"Pra você isso é atraso."
"Eu tava trabalhando."
"Milagre."
Ele olhou para ela, e havia alguma coisa no olhar, uma lembrança compartilhada que nenhum dos dois precisava trazer até a superfície para que existisse. Ana sentiu o primeiro impulso de brincar. Precisou de três minutos hoje? A frase veio pronta. Não falou, e a satisfação de ter se contido durou pouco.
Jon apontou para o cabo da caixa de som. "Vai cair."
"Não vai."
Caiu. Ele ficou olhando. Ana pegou o cabo do chão.
"Uma palavra e você dança com Dona Lúcia a aula inteira."
"Não falei nada."
"Falou com a cara."
"Aprendi com você."
Ana virou para a caixa de som para esconder o sorriso. Era isso que tinha mudado, nada que alguém de fora pudesse apontar, nenhum gesto novo, nenhuma proximidade proibida. Só uma camada a mais de conversa por baixo da conversa.
Carla chegou faltando três minutos para as oito, ofegante sem ter corrido absolutamente nada além do trecho entre o carro e o estúdio.
"A prova tentou me matar", anunciou.
"Passou?", Ana perguntou.
"Não sei. Decidi viver na ignorância."
Ela abraçou Ana, bateu no ombro de Jon e foi trocar o tênis.
A aula começou. Quando a roda girou e a pôs diante de Jon, a primeira coisa que Ana percebeu foi que o corpo dele realmente tinha mudado, não de aparência, de disponibilidade. O ombro cedia. O peso vinha. As mãos já não pediam desculpa antes de tocar. Cláudio tinha razão.
"Melhor", ela disse.
"Você sempre fala como se eu estivesse numa avaliação."
"Você está."
"Nota?"
"Não exagera."
Ana ajustou a mão dele; os dedos dela envolveram o pulso, nada diferente de cem correções anteriores. Ainda assim, a lembrança do sábado voltou com uma precisão irritante. Eu estava muito perto de você. Ela soltou o pulso.
"Para de antecipar."
"Não antecipei."
"Antecipou."
"Você que atrasou."
Ana olhou. Jon sustentou. Por um segundo ela ficou genuinamente ofendida; depois percebeu que ele tinha razão.
"De novo."
Fizeram. Dessa vez encaixou.
"Viu?"
"Você atrasou menos."
Ana abriu a boca, a palma bateu, e Jon passou para a próxima parceira antes que ela respondesse. Ana ficou diante do Roberto.
"Professora?", ele disse.
"O quê?"
"A gente vai?"
"Vai."
Quase perdeu o primeiro passo. Quase.
No fim da aula, Carla sentou no chão ao lado de Jon.
"Você tá feliz demais."
"Não tô."
"Tá."
"Como mede?"
"Eu te conheço."
"Isso não é medida."
"Jon, você passou a aula inteira discutindo com a Ana."
"Ela tava errada duas vezes."
Carla arregalou os olhos. "Meu Deus."
"O quê?"
"Ela fez você achar que pode ter opinião."
Jon começou a guardar a garrafa. "Eu já tinha opinião."
"Não em voz alta."
Ana ouviu, passando com uma pilha de toalhas.
Carla a chamou. "Ana."
"Oi?"
"Você estragou meu amigo."
"Já veio estragado."
Jon olhou para ela, e Ana percebeu o sorriso dele antes que aparecesse. Carla apontou para os dois.
"Tá vendo? Isso. Ele não fazia isso."
Ana sentiu o corpo ficar alerta. "Isso o quê?"
"Responder. Antes eu insultava ele e ele só concordava."
Jon levantou. "É porque você normalmente tem razão."
Carla abriu os braços. "Viu? Voltou."
A tensão em Ana desapareceu tão rápido quanto tinha vindo. Carla não estava vendo nada, ou, se estava, era só Jon menos fechado, mais presente. Ana gostou disso. Talvez mais do que tinha direito de atribuir a si mesma.
V. O lanche de Carla
Na terça-feira seguinte, Jon pagou o lanche que devia. Carla escolheu uma lanchonete perto da faculdade, barulhenta, cheia de estudantes e de cadeiras que arranhavam o chão sempre que alguém se levantava, e falou por vinte minutos sem interrupção sobre a prova. Jon ouviu.
"Você tá me ouvindo?"
"Tô."
"Não parece."
"Você errou a questão sete porque trocou os dois remédios de nome parecido e agora acha que a professora fez de propósito."
Carla ficou em silêncio.
"Eu odeio que você me escuta."
"Você acabou de reclamar que eu não tava ouvindo."
"Eu quero uma escuta emocional. Você faz ata."
"Não sei fazer a outra."
"Eu sei."
Ela roubou uma batata dele. Jon deixou.
Carla falou de estágio, de um rapaz com quem tinha saído duas vezes e não sairia a terceira porque ele tinha dito "gratidão" quatro vezes durante o jantar, o que, segundo ela, era infração suficiente. Jon respondeu nos pontos necessários.
Em algum momento, Carla disse: "A Ana falou que te encontra correndo."
Jon sentiu a atenção se organizar inteira ao redor do nome, e não gostou que isso acontecesse tão facilmente.
"A gente cruza às vezes."
"Ela corre faz anos."
"Eu sei."
"Ela é competitiva?"
"Muito."
Carla riu. "Sabia."
Jon pegou uma batata. Poderia contar do açaí, não havia motivo para não contar. Tinham tomado açaí, dois adultos comendo depois de correr, nada demais. A frase do banheiro apareceu junto. Jon mastigou. Não contou.
Carla continuou: "Faz bem pra você."
"O quê?"
"Isso."
Ela fez um gesto vago.
"Correr?"
"Gente."
Jon olhou. Carla mexeu no canudo.
"Você sempre foi meio ilha. Eu gosto quando você arruma ponte."
"Você fala como se não fosse uma."
"Eu sou a ponte original. Patrimônio histórico."
Ele sorriu.
A conversa seguiu. Mas, no caminho de casa, Jon percebeu que tinha escolhido não contar sobre o açaí. Não porque houvesse algo a esconder, pelo menos era isso que dizia a si mesmo.
VI. A casa
Choveu na quinta-feira à noite, uma chuva grossa, prematura para aquela época do ano, que bateu nas janelas do sobrado e fez Cláudio anunciar, pela terceira semana seguida, que precisava olhar a infiltração do banheiro.
"Você fala dessa infiltração como quem fala de um filho que mora fora", Ana disse, tirando os brincos diante do espelho.
Cláudio apareceu atrás dela no reflexo. "Eu me preocupo."
"Mas não visita."
"Relações familiares são complexas."
Ana riu. Ele ainda estava com o cabelo úmido da chuva e passou a mão por baixo da barra da camiseta dela. Ana se encolheu.
"Gelada."
"Você tá quente."
"Não é meu problema."
"Pode ser solução."
Ela olhou para ele pelo espelho. Onze anos, e ele ainda fazia a mesma cara de quando achava que tinha dito alguma coisa inteligente.
"Péssimo."
"Funcionou?"
A mão dele permaneceu na cintura. Ana poderia sair. Não quis. Encostou as costas no peito dele.
Cláudio beijou o ombro, sem pressa. Aquele beijo não fazia pergunta; conhecia o caminho. Ana virou o rosto e encontrou a boca dele. A familiaridade não diminuía o desejo, isso às vezes surpreendia as pessoas que falavam de casamento como se intimidade fosse forçosamente sinônimo de desgaste; com Cláudio, muitas vezes era o contrário. Ele sabia onde tocar, sabia quando esperar, sabia até qual lado do pescoço fazia Ana fechar os olhos antes mesmo de chegar ali.
A mão subiu. Ela segurou a nuca dele. Por alguns minutos não houve estúdio, nem Jon, nem corrida, nem açaí, nem banheiro, nem culpa, só Cláudio, a boca dele, o peso, o quarto, o som da chuva.
Depois, no escuro, Ana ficou com a cabeça apoiada no peito dele enquanto Cláudio passava os dedos devagar pelo braço dela.
"Você tá quieta."
"Tô cansada."
"Mentira."
Ana levantou a cabeça. "Como assim?"
"Quando você tá cansada, você reclama. Quando tá quieta, é outra coisa."
Ela poderia contar. A possibilidade apareceu. Poderia dizer que tinha feito uma brincadeira com Jon e depois se sentido idiota; não precisava entrar em detalhes. Cláudio provavelmente ouviria, talvez risse, talvez perguntasse, talvez aquele pequeno nó desaparecesse só por ter sido posto em voz alta. Ana ficou olhando a sombra do rosto dele.
"Turma de hoje foi puxada."
Escolheu.
Cláudio aceitou. "Foi mesmo."
Beijou a testa dela e, poucos minutos depois, dormia. Ana permaneceu acordada.
E agora a culpa ganhava uma forma que não tinha na cozinha. Não era por ter desejado Jon, ela ainda nem sabia se essa frase era verdadeira do jeito que parecia. Não era por ter feito alguma coisa; não tinha feito. Era por ter tido uma oportunidade simples de colocar aquela manhã dentro da vida que dividia com Cláudio, e ter escolhido não colocar.
Ana fechou os olhos. A frase voltou. Eu vou com você no banheiro. Dessa vez não havia humor nenhum nela; havia o rosto de Jon, o segundo de silêncio, a surpresa, e a satisfação que Ana tinha sentido. Essa era a parte de que não conseguia escapar. Ela tinha gostado. Não da ideia literal do banheiro, não precisava mentir para si mesma nesse nível ridículo. Gostara de provocá-lo. Gostara de perceber que podia afetá-lo. Gostara quando ele devolveu. Você que começou.
Ana virou para o lado. Cláudio respirava fundo. Ela colocou a mão sobre o braço dele, e o peso familiar ajudou. Não resolveu.
VII. Jon
Naquele sábado, depois do açaí, Jon tinha chegado em casa e ido tomar banho. A água estava fria no começo; esperou esquentar. Enquanto esperava: Eu vou com você no banheiro. Fechou os olhos.
"Foi uma piada", disse em voz alta, e a frase dentro do box vazio soou estúpida. Claro que tinha sido uma piada; Ana mesma dissera. Não havia nenhuma informação nova ali. O problema era que o cérebro dele continuava tratando a frase como um objeto encontrado no chão, que precisava ser virado várias vezes para descobrir de onde tinha vindo.
Tomou banho, vestiu roupa, ligou o computador e abriu o trabalho. Leu a mesma linha quatro vezes; na quinta, percebeu que estava sorrindo. Parou. Levantou, foi buscar água, abriu a geladeira, não queria nada, fechou. Voltou. Sentou.
Você ficou excitado, Jon. Passou a mão pelo rosto. Essa parte deveria ter sido pior, e curiosamente não era. A vergonha que carregava desde o começo parecia menor agora que Ana tinha posto palavras nela e nenhuma catástrofe acontecera. Ela sabia. Sempre soubera. E ainda assim continuava falando com ele, correndo, sentando numa mesa pequena, rindo, tocando no assunto, fazendo aquela maldita piada.
Jon pegou o celular e abriu a conversa com Carla. Digitou: A Ana é sempre assim? Olhou. Apagou. Digitou: Você já tomou açaí com a Ana? Apagou mais rápido. Largou o celular e voltou ao computador.
Cinco minutos depois estava pensando de novo. Não achava que Ana quisesse ficar com ele, a conclusão parecia grande demais, improvável demais e, principalmente, baseada numa frase que ela mesma chamara de piada. Mas havia outra possibilidade, menor, e mais perigosa justamente por parecer possível: talvez Ana gostasse de brincar com ele. Talvez aquilo tivesse sido especificamente para ele. Talvez ela tivesse querido ver a reação.
Jon encostou na cadeira. Sorriu.
"Idiota."
Não estava claro se falava de si mesmo ou dela.
O celular vibrou. Ele pegou rápido demais. Era Carla.
sobrevivi à prova. acho. terça vc paga comida
Jon respondeu:
Tá.
Carla:
nossa quanta alegria
Ele olhou para a tela. Digitou:
Tô de bom humor.
Ela respondeu quase imediatamente:
pior ainda. suspeito
Jon largou o celular. Continuava sorrindo. Quinta-feira parecia longe, e sábado ainda mais.