O Lampareiro
Existia um homem que trabalhava acendendo as luzes das ruas antigamente. Seu nome ninguém sabia; sua aparência? Apenas a lua via. O homem trabalhava acendendo os lampiões. Lampista era o nome de sua profissão.
Mas eu o chamava de lambareiro, pois, por ser tão invisível a todos, de cada um sabia algum segredo.
Fofoqueiro, mal sabia guardar. Por ser invisível, só tinha a mim para contar.
Certa noite, perguntei-lhe por que não arranjava alguém com quem conversar sobre coisas que não fossem os outros.
— E conversar sobre o quê? — respondeu, ajeitando o chapéu. — Do tempo? Das luzes? Da minha própria vida? Ora, meu caro, não há nada de interessante nela.
Achei curioso que um homem que sabia tanto sobre os outros tivesse tão pouco a dizer sobre si mesmo.
Insisti, mas ele apenas deu de ombros e continuou a falar sobre o padeiro, a costureira e os encontros secretos da filha do prefeito.
Foi então que me ocorreu: talvez o lambareiro não escondesse os próprios segredos. Talvez apenas acreditasse fielmente em sua afirmação de não ter nada de interessante em si.
Creio que esse seja o mal de quem passa tempo demais olhando pela janela alheia: acaba esquecendo que também está vivendo.
A vida dos outros pode ser um livro interessante, mas não deveria ser o único que lemos. Afinal, de que adianta conhecer tantas histórias se nos esquecemos de conhecer a nós mesmos?
(Autoral de Sids)