No vidro frio, a sombra se ergue,
um reflexo que não é só meu.
Olhos cansados, sem brilho, sem cor,
um inimigo veste meu rosto, sem pudor.
Ele sussurra em silêncio pesado,
um eco que fere, um grito calado.
Não traz espada, nem lança, nem fogo,
mas corrói por dentro, lento e insidioso.
O espelho não mente, mas também não consola,
mostra a batalha que ninguém controla.
A guerra é íntima, travada na mente,
contra um fantasma que se faz presente.
E eu, soldado sem armadura,
enfrento o reflexo, a dor, a fissura.
Mas ao encarar o inimigo no espelho,
descubro que sou também meu próprio conselheiro.
Pois se a sombra insiste em me dominar,
é no olhar firme que posso lutar.
O inimigo é forte, mas não infinito,
há sempre uma fresta de luz no conflito.
COMPLEMENTO
Transformar dor em beleza é um ato brutal.
É segurar o fogo com as mãos nuas
e moldar o caos até que ele obedeça.
É olhar o diabo nos olhos e sorrir
não por desafio, mas por domínio.
A dor não me destrói, me lapida.
Cada cicatriz é um traço de arte,
cada queda, um degrau na ascensão.
O inferno me ensinou a dançar nas chamas,
a fazer da ruína um espetáculo.
O caos grita, mas eu grito mais alto.
Ele tenta me engolir, e eu o mastigo.
Sou o escultor da minha própria tormenta,
o criador da beleza que nasce da ferida.
Sorrir diante do demônio é saber:
ele só existe enquanto eu permito.
E quando o espelho mostra o inferno em mim,
eu o encaro e ele se curva.