Pular para o conteúdo
Carregando…

O Infiltrado (6)

nombredeusuario
Pensamento

Pensamento

levantaTerra

O Bulk que manda sempre o contrário e às vezes acerta é o tipo de chefe que todo mundo já teve.

O Bulk que manda sempre o contrário e às vezes acerta é o tipo de chefe que todo mundo já teve.

Conteúdo da publicação

O velho navio havia sido consertado tantas vezes que já não parecia mais um navio.

Seus três mastros eram as primeiras — e quase as únicas — coisas visíveis acima da água quando ele patrulhava os furiosos mares do Caribe como um submarino nazista, depois que o furacão chamado Beatriz havia passado.

O capitão Gonzáles conseguia sentir o cheiro como um cachorro farejando merda de boi.

Ele havia perdido a fé na missão.

O frade que segurava a bússola embarcara primeiro porque havia perdido a fé em Deus.

O navio negro, lambuzado de piche e coberto por uma crosta de sal, deixava no ar um cheiro de coisa podre.

— Você não sente o cheiro?

— Você sempre diz que ele está perto, e os homens já estão formando um sindicato gigante. Logo vão expulsá-lo do leme.

— Me conte uma novidade, tio. Este seria meu terceiro galeão perdido, se todos esses rumores forem verdadeiros.

— Alguns dizem que viram os três mastros e que você virou deliberadamente para o sul, direto para a tempestade...

Finalmente, o monge conseguiu dizer.

Gonzáles não respondeu.

— O perigoso nesse navio, meu amigo, não é o que se vê de longe. De longe, você vê o vigia no cesto da gávea, com um telescópio acorrentado a ele. O maldito pirata diz que o telescópio é dele, mas aquele telescópio pertencia ao capitão anterior.

Fez uma pausa.

— Aquele que eu mesmo matei.

O monge baixou a bússola.

— Naquela noite, eu era o único que conseguia ouvir o sino dele.

— O sino?

— Dizem que ele toca sozinho. E que, em algumas noites, se solta e vai sozinho para o mar.

Um relâmpago iluminou os três mastros.

Por um instante, pareciam quatro.

— O perigo daquele navio — continuou Gonzáles — está abaixo do convés.

O PORÃO INFERIOR

Oficialmente, está cheio de ferramentas e peças de reposição.

Na realidade, ninguém sabe o que há lá dentro.

A porta tem três fechaduras.

O capitão tem uma chave.

O contramestre tem outra.

E a terceira...

Gonzáles puxou uma corrente de dentro do peito.

Nela pendia uma pequena chave, negra de ferrugem e tão velha que parecia ter sido arrancada de uma sepultura.

— Eu ouvi passos lá embaixo.

— E você desceu?

— Desci.

— Até onde?

— Um nível.

— E então?

— O maldito navio me expulsou.

— Como?

— Ele submergiu.

O monge ficou em silêncio.

— Até afogar tudo o que estava vivo.

Gonzáles fechou a mão em torno da chave.

— Essa é a minha obsessão. Eu só desci um de seus níveis.

— Dizem que um dos canhões da bateria de bombordo está apontado para dentro. É verdade?

— Sim.

— E por quê?

— Não há como dispará-lo.

— Então para que ele está lá?

Gonzáles olhou para o convés.

— Dizem que ele aponta para o Bulk.

O monge estremeceu.

Não sabia por que aquele nome, tão específico e ao mesmo tempo tão genérico, o assustava tanto.

A PRISÃO

— Eu nem sequer cheguei a ver a prisão particular do capitão.

— A prisão?

— Não é uma cadeia comum. Só as pessoas mais importantes acabam naquele V.I.P.

— O que há lá dentro?

— Uma mesa.

— Nada mais?

— Não há janelas. Fica abaixo da linha d’água.

— E os prisioneiros?

Gonzáles demorou muito para responder.

— Quando perguntei, disseram que eles já não eram prisioneiros.

— Então o que eram?

— Memórias.

O monge não perguntou mais nada.

— Alguns dizem que você é obcecado pelo navio, e não por caçar o maldito capitão inimigo.

— Eles têm razão em pensar assim.

Gonzáles olhou para a porta.

— Eu vi uma inscrição.

— O que dizia?

AQUI TERMINA O SEU NOME.

Abaixo dela havia uma seta entalhada diretamente na madeira.

— Para onde apontava?

— Para baixo.

Um baque pesado ecoou sob seus pés.

Os dois olharam para o chão.

— Quando o navio se ergue — disse Gonzáles —, todos nós, humanos, viramos irmãos, tentando sobreviver a ele.

Ele tirou a pequena chave negra.

— Na verdade, foi o próprio Morgan que me deu isto enquanto estava se afogando.

AS MAQUINAÇÕES

— Dizem que o poder está na Sala das Maquinações.

— Onde?

— Atrás de uma parede falsa.

— E o que há lá dentro?

— Mapas que mudam.

— Ossos usados como dados.

— Jarras cheias de líquidos desconhecidos.

— Amuletos.

— Moedas de navios desaparecidos.

— Cartas náuticas mostrando costas que não existem.

— Espelhos cobertos.

— Sim.

— Símbolos pintados no chão.

— Velas que parecem nunca diminuir.

Gonzáles balançou a cabeça.

— Bobagem.

— Então o que há lá dentro?

— O próprio navio é o amuleto.

Ele olhou para as tábuas do convés.

— E aqueles que embarcam nele são os escravos.

— Do Bulk?

— Não.

Gonzáles baixou a voz.

— O Bulk apenas fala, grita e dá ordens.

— Então o que ele é?

— A boca dele.

O navio rangeu.

Não como os navios rangem.

Como os ossos rangem.

— Aquele maldito amontoado de toras tem um botão capaz de matar o Bulk.

— Um botão?

— Sim.

— Onde?

— Ninguém sabe.

— E por que eles querem o Bulk?

— Porque ele não morre.

Gonzáles sorriu sem alegria.

— Ele se alimenta dos mortos.

A SALA SECRETA

— Os piratas ingleses que sobreviveram dizem que existe uma sala secreta.

— Onde?

— Nas plantas do navio.

— E fisicamente?

— Ela aparece em qualquer lugar.

— Tem uma fechadura?

— Não.

— Uma maçaneta?

— Também não.

— Então como se entra?

— Isso é o que eles se recusam a contar.

— O que ela guarda?

— Disseram que era um tesouro.

Gonzáles balançou a cabeça.

— Eu digo que ela guarda algo que o maldito navio não quer que ninguém encontre.

Relâmpago.

Depois outro.

— SOCORRO! SOCORRO!

Os gritos dos ingleses pareciam vir da tempestade.

Gonzáles continuou:

— Quando meu navio estava afundando em milhões de lascas, eles gritavam que alguém estava vindo buscá-los.

— Quem?

— Nunca disseram.

— E o que você acha que há lá dentro?

— Um museu de atrocidades.

Coroas.

Relógios.

Joias.

Espadas.

Medalhas.

Anéis.

Telescópios.

Bússolas.

Cartas.

Retratos.

Insígnias de capitães.

Tudo o que um dia havia pertencido a alguém que morreu.

— A MÁ MÃE.

O nome saiu de Gonzáles como uma oração.

— O quê?

— A Má Mãe.

— Não a invoque.

— A MÁ MÃE.

Uma onda gigantesca bateu contra o convés.

Os homens caíram.

Na terceira vez que Gonzáles tentou dizer o nome, a onda levou seis marinheiros.

Os homens decidiram agir.

Prenderam-no.

O CAPITÃO CONFINADO

Gonzáles sentiu-se mais em paz na sala onde o trancaram.

Estava proibido, sob pena de morte, de invocar a fera.

Os homens haviam recuperado a sanidade.

Planejavam voltar para casa.

Mas não se via uma única estrela.

E, constantemente, precisavam descer e pedir indicações.

O grumete que o guardava de repente perguntou:

— É verdade, capitão, que o Bulk só come capitães?

Gonzáles caiu na gargalhada.

— Falso.

— Então o que ele come?

— Eu vi o Bulk comer quatro homens afogados.

— Quatro?

— Apenas dois eram capitães de verdade.

— E os outros?

— Piratas que comandavam um navio.

O grumete engoliu em seco.

— E por que ele faz distinção entre eles?

— Não faz.

— Então?

— Não se importa.

Gonzáles aproximou o rosto das grades.

— O Bulk odeia o navio tanto quanto eu.

Silêncio.

— É por isso que quero me jogar de cabeça dentro dele.

Duas batidas de advertência soaram atrás da porta.

BANG. BANG.

Era hora de mudar de assunto.

Mas todos estavam obcecados por algum aspecto daquele navio sem forma.

Gonzáles continuou baixinho, quase sussurrando em seu ouvido:

— O Bulk me poupou.

O grumete se aproximou.

— Ele poupou você?

— Eu poderia até dizer que ele me salvou.

— De quê?

— Só o Bulk conhece suas passagens.

Uma pausa.

— Seus segredos.

— Os nomes dos mortos.

— As rotas.

— As ordens.

— As superstições.

— Os esconderijos.

Gonzáles respirou lentamente.

— E ele tem uma característica terrível.

— Qual?

— Ele sempre diz o contrário.

— O contrário de quê?

— De tudo.

Se o capitão grita:

— TODOS A BOMBORDO!

O Bulk responde, com a mesma voz exata:

— TODOS A ESTIBORDO!

E as pessoas que têm medo dele...

só escutam o Bulk.

Se o capitão grita:

— CANHÕES PRONTOS!

O Bulk berra:

— NÃO DISPARAR!

Se o capitão, desesperado, grita:

— BAIXEM AS VELAS!

O Bulk responde:

— IÇAM-NAS!

Gonzáles fechou os olhos.

— E às vezes...

Parou.

— ...ele está certo.

O HOMEM GORDO

— E o Bulk tem um inimigo?

— Sim.

— Qual é o nome dele?

— O Homem Gordo.

— Ele está no navio?

— Nunca embarca.

— Então onde ele está?

— Nada ao lado dele.

— Nada?

— Sempre.

— E ele fala?

Gonzáles imitou o som.

— Hhhh... hhhhh... HhHhH!

O grumete empalideceu.

A porta se abriu.

O capitão escolhido para substituir Gonzáles entrou.

— Queremos partir.

Gonzáles olhou para ele.

— A pólvora está molhada. Vamos para casa. Sua mulher está esperando por você.

Então olhou para o grumete.

— E Lina está pensando na sua garotinha.

O grumete congelou.

O capitão escolhido se aproximou.

— Vou lhe contar um segredo, de capitão para capitão.

Gonzáles sorriu.

— O Homem Gordo come Bulks.

O capitão perdeu toda a cor.

— E se ele nos encontrar?

— O que você aconselha que façamos quando embarcarmos nele?

Gonzáles olhou para o teto.

— Procurem a garganta do navio.

— A garganta?

— Ninguém dorme lá.

...

— Ninguém come lá.

...

— E ninguém consegue atravessá-la sozinho, não importa quanto dinheiro esteja em jogo.

O capitão escutou sem se mover.

— É o lugar mais escuro do navio.

— Onde fica?

— Entre a sala de bruxaria e a prisão das mulheres.

— O bordel?

— Esse mesmo.

Gonzáles sorriu.

— Porque dizem que, quando o navio fica completamente escuro, é possível ouvir o velho capitão caminhando dentro das paredes.

BANG.

Alguma coisa soou ao longe.

Então:

CRAAACK.

O mastro principal explodiu.

Os homens correram.

Gonzáles olhou para o novo capitão.

— Agora haverá dois capitães.

— O que quer dizer?

— Você dirá o contrário do que faz sentido.

Ele sorriu.

— E eu direi aquilo que o bom senso mandar.

TRÊS DIAS DEPOIS

Os nativos de Santa Catalina encontraram os restos de outro naufrágio.

Entre milhões de lascas, encontraram o capitão Gonzáles inconsciente.

Ele segurava alguma coisa.

Um embrulho.

Repugnante.

Fedorento.

Molhado.

Pesado.

Ninguém queria tocá-lo.

Mas Gonzáles não o largava.

Os piratas tiveram de reanimá-lo boca a boca.

Quando abriu os olhos, a primeira coisa que perguntou foi:

— Onde está o Victorioso María?

Os piratas olharam uns para os outros.

Pensaram que ele estava falando de corsários.

Gonzáles estava falando de fuzileiros navais.

Jack se inclinou sobre ele.

— Capitão...

Gonzáles tentou se sentar.

— Onde estão meus homens?

— Seus homens?

— Onde está meu navio?

Jack apontou para os destroços.

— É isso que restou.

Gonzáles olhou ao redor.

Não havia navio.

Nenhum mastro.

Nenhuma vela.

Nenhuma tripulação.

Apenas areia, madeira quebrada e o mar.

E o Bulk.

Jack colocou a mão sobre seu ombro.

— Calma.

Gonzáles olhou para o objeto que ainda segurava.

Jack sorriu.

— O Bulk pode construir um navio para você com três palmeiras.

Gonzáles parou de respirar.

Porque atrás de Jack, na praia, havia três palmeiras.

E entre elas...

alguma coisa negra.

Muito distante.

Distante demais para ser um navio.

Mas as primeiras coisas que surgiram acima do horizonte foram três mastros.

O Bulk abriu um olho.

E sussurrou:

— Todos a estibordo.

Thoughts

  • Oliviamar

    Comecei pelas três palmeiras da praia, por mania minha, e passei o texto todo à espera delas. Esse Homem Gordo a nadar ao lado do navio é que ninguém me tinha avisado.

    Permalink
  • NunoParreira

    Fico preso ao Gonzáles a dizer que matou o capitão anterior e, mais à frente, que foi o Morgan a dar-lhe a chave enquanto se afogava. Ou uma das duas é mentira, ou ele estava lá quando o outro morreu.

    Aposto que o infiltrado do título é ele, e o frade ainda não deu conta de com quem fala.

    Permalink
  • levantaTerra

    O Bulk que manda sempre o contrário e às vezes acerta é o tipo de chefe que todo mundo já teve.

    Permalink
  • semdesculpa

    Fiquei do lado do grumete o capítulo todo. Quando o Gonzáles lhe atira a Lina e a filha à cara, vi que o homem sabe tudo de toda a gente, e a partir daí já não acredito em nada do que ele diz.

    Permalink

Publicações relacionadas

Pública 2 conversas 6 pensamentos 26 votos positivos 0 voto negativo 0 série

O velho navio havia sido consertado tantas vezes que já não parecia mais um navio.

Em grupos