Belém a avisar-te com a humidade e as veias da testa. Cá a terra também avisa, com o calor das três da tarde, e ninguém ouve. Tu ouviste.
O Homem de Bigode
Talvez este esteja entre o quarto ou quinto texto que começo a escrever e paro antes de finalizar. Talvez por entender que nada do que escreva aqui tenha sentido, ou por um grande medo de encarar as…
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Pensamento
Belém a avisar-te com a humidade e as veias da testa. Cá a terra também avisa, com o calor das três da tarde, e ninguém ouve. Tu ouviste.
Conteúdo da publicação
Talvez este esteja entre o quarto ou quinto texto que começo a escrever e paro antes de finalizar. Talvez por entender que nada do que escreva aqui tenha sentido, ou por um grande medo de encarar as realidades que as palavras que aqui estarão podem carregar. Mas, a todo momento, também me vem uma súbita vontade de colocar tudo isso para o lado de fora, de fazer quase como a chuva que cai todo dia às três horas da tarde na sua cidade e lava tudo, mas, quando passa, deixa o sentimento de: será que foi?!
Talvez seja essa a resposta para tantas escritas não finalizadas: o medo de esse sentimento não ir embora, mesmo depois de tantas palavras.
Algo ecoa enquanto as palavras pairam por minha cabeça e desaceleram no compasso da minha caneta quando escrevo: eu escrevo para alguém, para mim ou por algo? Eu escrevo para quem me conhece ou para quem nunca me conheceu? Eu escrevo para alguém que existe ou para alguém que minha cabeça quis inventar?
Juntando todas essas indagações, entendo que essas palavras são, sim, para você, mas principalmente para que, depois de tanto, você talvez saiba, caso entenda, um pouco mais quem sou eu.
Era fevereiro, véspera do dia 02, dia de minha mãe, Iemanjá, ano de 2026, e uma vida turbulenta ao redor, daquelas que você compara com uma viagem de avião que passa pelos Andes, onde geralmente acontecem as piores turbulências do mundo. Eu tinha acabado de voltar para o Brasil. Finalmente, eu tinha realizado um sonho: passar alguns meses apenas viajando, conhecendo, provando e existindo em minha própria existência. Redundante mesmo.
Passava por um ótimo momento profissional e sentia que todo o resto, mesmo turbulento, com o balanço, acabava por se encaixar. Nessa época, eu costumava chamar isso de “uma vida equilibrada”. Porém, como qualquer história, é aqui, entre turbulências e equilíbrio, que tudo começa a acontecer.
A parte equilibrada em mim costumava pensar que o único pilar, estabelecido socialmente e psicologicamente, que faltava para mim era o amor. E, nessa grande busca do autoconhecimento, eu tinha muito claro que paixões, amores, loucuras do coração… seriam algo que não seria mais visto do jeito que costumava ver.
Um dia, eu acreditei muito no amor. Me consideravam até um cara romântico, daqueles que já planejam o casamento inteiro antes mesmo de existir o marido. O cara que faz do mundo uma moeda, se for preciso. Pelo amor e pela partilha.
Sim, veja bem, eu já fui esse cara.
Em fevereiro de 26, eu era um homem de 32 anos, que havia acabado de voltar para o Brasil, cem por cento certo de que: “aqui esse tal de amor não me abala mais, eu quero viver, eu quero me amar! De mim, para mim”.
A inconsistência acontece quando esse mesmo cara estava muito feliz, pois, em poucos dias, estaria celebrando a união da prima com o amor da vida dela. Seria o primeiro casamento homoafetivo da família. Todos os ânimos à flor da pele, dos que ansiavam pela união do amor aos que queriam apenas ver esse grande feito. Aos que eram contra, deixo fora da minha rede energética.
Foi por pouco, quase que não consigo ir. Já era dia dois e o casamento seria no dia sete, e eu não tinha passagem. Neste dia, dia de Iemanjá, eu lembro que, como um bom filho, me vesti de branco e cultuei, na varanda de casa, olhando o céu como se fosse o mar. E, como um ato inconsciente do meu corpo, eu chorei pensando no amor.
No amor, naquele cara lá de trás que eu falei que antes existira.
No dia seguinte, meu pai me liga e diz: “Você não pode perder esse dia, vou comprar uma passagem”.
E assim, como criança, eu fiz. Organizei meus brinquedos, minhas roupinhas. Eu pensava: “Uhuuul!”.
Belém, há cerca de 11 anos, já não é mais a mesma para mim. Hoje em dia, eu fico muito suado quando estou aqui, como se fosse de outro lugar, como se Belém, de alguma maneira, tentasse me avisar de algo. Minha cabeça lateja de dor pela umidade, e minhas veias da testa ficam saltadas.
Talvez eu já seja um forasteiro. Parando para pensar, já vivi mais vida fora do que aqui. Aos 7 anos, fui morar em João Pessoa, na Paraíba, aos cuidados do meu pai biológico, assim que ele se separou da minha mãe. Lá, eu fiquei até os 14, quando, em uma decisão burra, meu pai me manda para Delrey, nos Estados Unidos, para um intercâmbio. Volto para Belém apenas aos 16 anos. E, aos 21, me mudo oficialmente sozinho para São Paulo, mas talvez esse precise de um novo capítulo.
Mas berço é berço. E, dessa vez, ao desembarcar dia 04/02, dia do aniversário da minha mãe, eu me arrepiei ao pensar: finalmente, tô aqui.
Eu queria estar ali. De alguma maneira, eu sabia que voltaria diferente dessa vez.
Sempre muito certo do que quis, não era diferente nas minhas amizades: sempre poucas e boas. Meu único e mais fiel amigo me esperava no aeroporto, para irmos curtindo a volta até em casa, conversando e, como sempre, rindo.
A risada me acompanha. Onde estou, sempre haverá risos. Já fui salvo muitas vezes pela leveza que isso carrega.
Entendendo qual seria nosso cronograma, ele me disse: “Amanhã, um dia antes do casamento, tem uma festa gay muito legal, mais famosa da cidade”.
Confesso que nunca fui muito de festa. Meu autismo imaginário é meio antissocial quando o assunto é um lugar fechado com muita gente.
No dia, falei que ia e não fui. Para completar mais um pouco sobre minha personalidade.
Neste mesmo dia, resolvi que iria sair com outras pessoas, e assim eu fiz. Me entreguei do jeito que só Belém tem a oferecer: o limite no zero e a vontade no máximo, tudo ajudando para que você tenha a maior noite, madrugada e início da manhã da sua vida.
Mas isso você sabe.
Em nenhum momento eu pensei no casamento. Na verdade, pensei. Quando, às 15h, meu despertador tocou, meu despertador eram os gritos da minha mãe me chamando de irresponsável, que, naquela hora, eu já deveria estar “tomando um rumo” e começando a me arrumar. Afinal, eu sou da família, iria chegar com a cara amassada.
(Engraçado escrever isso tendo praticamente mudado de cara nesse meio-tempo da história para quem sou hoje. Aqui talvez tenhamos a nossa próxima história.)
Promessa é dívida. Falei para minha prima que iria fazer valer o casamento dela.
Acordei com ânimo, êxtase, ansiedade. Me arrumei, fiquei pronto, acendi um cigarro e pensei: ufa, não serei eu quem vai atrasar.
A tensão ia passando, e a ressaca do dia anterior brigava para aparecer. Mas um remédio inesperado me foi oferecido: “Tome, vai ajudar”.
E assim foi.
De novo, eu pontuo: tava tudo muito estranho. As coisas estavam se desenhando para virar uma história.
Entrei no carro. Chuva torrencial, que, inclusive, depois soube que atrapalhou os planos do casamento, que teria a primeira cerimônia do lado de fora, em um espaço que vi pelo vidro e que seria lindo. Ele tinha uma passarela branca, dividida por dois corredores de flores rosa e verde, algo bem primaveril. As cadeiras estavam em dois blocos, divididos pela passarela, e, na frente, havia um altar, também ornado com flores que, ao que me lembro, eram bem parecidas com cerejeiras.
Mas já posso aqui mesmo adiantar que tudo isso foi apenas um detalhe para uma noite que seria histórica e que estaria gravada em mim por tanto tempo.
E não, infelizmente, essa aqui não será a história de uma festa. Aqui será a história de como a vida de alguém pode mudar em questão de minutos só pelo olhar. De como, sem entender quem é, podemos nos conectar, nem que seja de maneira individual, com alguém.
O casamento, a festa, foi o propulsor. Mas a gasolina de tudo, da minha vida, sempre foi o amor.
Chegamos ao casamento. Como família, ocupamos lugares específicos, próximos de onde seria a entrada das noivas. Sentamos e, apesar de amar estar presente, é sempre bem desconfortável a espera pelo início. Quase nenhum casamento pensa em welcome drink. É sempre uma espera amarga pelo primeiro gole.
A ansiedade tomava conta de mim. Era como se quem fosse casar fosse eu.
Talvez aqui, agora, sentado em frente a essa tela escrevendo, eu esteja com meu coração batendo na mesma frequência em que estava naquele dia.
A música começou. Meu Deus, as luzes baixaram um pouco. Acredito que a música era o tema da Bela e do Edward, de Crepúsculo, e, na minha cabeça, ecoava: “How can I love when I’m afraid to fall”.
Já segurando uma vontade absurda de deixar minhas lágrimas escorrerem por todo o meu rosto e pelo meu terno, consequentemente, eu olho para a frente e vejo minha prima, que cresceu vivendo sendo uma pessoa diferente, igual a mim, que viveu à margem do merecimento da felicidade, que eu vi tantas vezes também ansiar pelo amor, ali, linda, com um vestido branco, com um decote nadador que ia até a cintura dela.
O tecido era estruturado e fluido ao mesmo tempo. De longe, eu via, eu sentia a felicidade. Eu sentia o cheiro do amor.
Ela veio andando. No primeiro passo, as lágrimas não aguentaram. Comecei a chorar igual bebê, não me aguentei. Era demais para mim. Significava tanto para ela, para a família, para mim, para a sociedade.
Eu me arrepiava e lembro disso. Sentia meu coração pulsando.
Meu pai havia entrado com ela, a pedido dela, representando a figura paterna que os praxes de casamento pedem. Eles entram pela passarela, que agora foi organizada em cima da hora por conta da chuva. Na parte interna, andam pelo corredor, passam pelas pessoas e param próximo a nós, na mesa do bolo.
Fez-se um silêncio. Eu lembro, eu consigo sentir.
Nessa hora, outra música começa a tocar. Não lembro ao certo, mas sei que era alguma música nacional.
Ali, naquele minuto, para mim, tudo iria mudar. Eu não sabia. Até hoje, eu não sei o que acontece, o porquê aconteceu e o que vai acontecer após eu colocar o ponto final nesta escrita.
Foi assim, como mágica, que a outra noiva entrou. Outro amor para mim. Ela estava linda.
Mas algo ali fez meu coração acelerar mais forte.
A noiva entrou com um rapaz: um homem alto, cabelos pretos, pele clara, mas que denunciava que vivia em um lugar solar. Os olhos brilhavam. O cabelo tinha um movimento que eu consigo desenhar com minha lembrança. Um terno bem alinhado, uma gravata vinho.
Mas nada disso aqui importa.
Esse homem entra, eu olho para ele e meu coração acelera. Minha pele cria gotículas de suor, meu estômago fica frio, gelado. É uma mistura de frisson com desejo.
Eu não sei o que está acontecendo. Quem é esse homem que eu nunca tinha visto na vida? Por que estou sentindo isso? Meu Deus, eu quero esse homem para mim! Eu dizia.
Para mim, tudo para nesse momento.
Eu olhei para ele e me tornei aquele de antes. Pensei em mim no altar com ele. Pensei nos nossos filhos, no nome que a gente daria para o nosso cachorro.
Eu pensei em tudo.
Eu amei alguém em 20 segundos, só de olhar, só de ver, sem conhecer.
Eu te amei sem saber seu nome.
Eu esperava só o momento de abraçar minha prima e perguntar: “Quem é ele? Onde ele vive?”.
E assim eu fiz, na primeira oportunidade que tive.
Antes disso, eu o acompanhava pelo olhar. Eu estava, talvez, obcecado. Ficava pensando na vida que eu queria com aquele homem que eu sequer, de novo, sabia o nome, mas de quem eu tinha uma certeza absoluta: ele era exatamente o que eu sempre quis ou talvez pedi, naquele dia 02, em que estava olhando para o céu.
Cheguei nela, abracei.
“Parabéns, prima, te amo. Mas, assim, me diga: qual o nome do homem que entrou com sua noiva?”
Eu sei que todo jogo de conquista demanda das duas partes estarem interessadas. Eu gosto muito de um ditado que diz: “Quando um não quer, dois não brigam”.
Mas, enquanto eu indagava minha prima, eu me esvairia de qualquer coisa que pudesse vir a ser negativa. Eu pensava que apenas precisava que ele também soubesse da minha existência.
Por 20 segundos, depois de anos, eu estava pronto para viver uma nova história de amor.
Não com o meu holandês, que havia ficado janeiro inteiro. Não com o alemão, que me acompanhou na minha tour europeia.
E sim com o cara que usava bigode e que eu havia visto 15 minutos atrás.
Mas, como um balde de água fria, o que talvez inconscientemente me derrubaria do sonho bem mais que um “não, ele não está a fim de você” aconteceu:
Ele já tem alguém.
Ele já conhece o amor.
Todos os meus agora 45 minutos de sonho com esse homem estariam caindo por terra.
Mas como ele pode ter alguém? Que brincadeira é essa do universo comigo?
Desde que tive minha última desilusão amorosa, meu corpo romântico se fechou. Perante minha espiritualidade, quase como que uma entrega, eu sabia que tinha que deixar a cargo dos meus orixás. Meu coração romântico é sensível, precisa de cuidado e afeto. Não é qualquer um que sabe cuidar.
E, pensando assim, me fechei aos orixás e disse: “Quando entregar, entrega a quem saiba cuidar”.
E neles eu confio.
Foi instantâneo. Quando eu vi, a passos curtos, o homem branco, com sorriso envergonhado, enfrentando um mar de pessoas olhando para ele, segurando nos braços o bem mais precioso de um casamento, essa porta que estava a cargo dos orixás abrir foi aberta.
Então volto a me indagar: o que houve? Por que vocês estão mexendo nesse lugar em mim por alguém que não estaria disponível?
Volto ao momento em que o gelo sai do meu corpo e a vergonha toma conta. Eu poderia ter analisado o território antes da pergunta. Mas o que eu sentia era grandioso. Eu precisava, de alguma maneira, pelo menos entender quem era esse homem.
Eu o olhei, o observei, eu o imaginei. Ali, naquelas poucas horas, sendo a pessoa que meu coração tanto ansiou.
Horas passaram, o álcool precisou entrar para reorganizar os sentimentos. Não havia como bagunçar mais.
Por um minuto, admito que me fez esquecer. Fui curtir a noite. Eu já estava em processo de desopilar. Nesse momento, aquele calor que me dava enxaqueca e soltava minhas veias já fazia parte de mim como um único corpo.
Eu dançava, eu ria, eu fazia piada…
Eu, por um segundo, pensei: “Ufa, que loucura, passou!”.
Nesse momento, eu lembro, estava ali, parado, sozinho, pensando: “Qual será meu próximo drink?”.
Olho para a frente e talvez não acredite que esteja acontecendo. De novo, senti o suor pelo meu corpo. Eu não sentia as pernas. Meu coração pulsava.
Eu lembro da sensação.
Ele veio na minha direção.
Não lembro ao certo se vi, se senti. Mas ouvi:
“Você tem um cigarro?”
Minha reação, estupefata, paralisada, respondeu mentalmente: sim, casaremos hoje mesmo. Agora, eu aceito!
Meu corpo talvez tenha apenas pegado um cigarro, e minha voz soltou:
“Sim”.
Ali, assim, parado, já sozinho de novo, eu continuei sem saber o que pensar.
Que maluquice é essa? É carne? É desejo? É paixão?
“Me diga o que pesa num olhar que talvez eu te diga o que é a paixão.”
Parafraseando uma música, eu me perguntei isso por horas naquele dia.
Eu o perdi de vista depois do cigarro. Talvez tenha voltado para a vida que já é dele, que, com toda certeza, não seria a minha.
Eu sempre, quando fui romântico, acreditei em todas as possibilidades, mesmo tendo vivido bem poucas. O amor à primeira vista, a paixão ao ver, sempre foi irreal. Eu não acreditava.
Até ver o homem de bigode pela primeira vez.
Homem esse que, até hoje, sete meses depois, mora na mesma porta que eu abri naquele sete de fevereiro.
A festa acaba. Eu tive relações com outro cara nesse dia. Foi tudo um devaneio.
Eu vivi, assim como prometi para minha prima. Eu bebi, eu dancei, eu beijei, eu fui o último a ir embora.
Meu papel eu fiz.
Mas e a porta?
Eu não conseguia fechar.
Eu sabia desde o início que qualquer aproximação que eu tentasse não seria correta. O coração desse homem já tem alguém. E esse alguém não sou eu.
Isso me machuca um pouco ao escrever, mas o que seriam as histórias sem a dor, sem o que nos motiva a pôr para fora?
Mas eu nunca fui bom de cumprir regras.
Eu quebrei a minha primeira: eu fui atrás. Eu queria que ele soubesse quem eu era. Eu queria, de alguma maneira ou qualquer maneira, estar ali, na presença dele.
E aí veio o meu primeiro movimento.
Vou acessar, agora que já sei o nome.
(E confesso que, nessa altura do campeonato, 24h depois, eu já sabia bem mais que o nome.)
Fui até as redes sociais e cliquei no botão que traria, a partir dali, o que eu sempre quis: o contato com o homem de bigode.
Meses passaram, e o contato, de maneira amistosa, se fixava e permanecia quase que diário. Um contato que, para mim, já era mais do que suficiente para saber que, sim, aquele homem que para mim era inanimado realmente existe, tem dores, defeitos, problemas e situações reais, assim como qualquer outro.
O homem de bigode, pelo pouco que tive acesso, é médico, trabalha com medicina geral, generalista. Tem média de 30 anos, mora com a mãe e é muito feliz, tendo-a como companhia diária.
Pelo que sei também, ele é um homem muito leal aos amigos e conhecido por ser um doce de pessoa. Eu pude ter acesso a uma parte desse rapaz doce.
O homem de bigode também gosta do universo dos dinossauros, assim como ama qualquer filme do Nolan. Tem uma acidez estratégica nas palavras, mas também domina um assunto sério com camadas mais densas, como quando a gente conversa sobre os Reptilianos estarem entre nós.
Ele tem tatuagens pelos braços e algumas na perna, que criam uma simetria inexplicável para o corpo de quase 1,85 m de altura.
Como eu disse lá no início, essa não é uma história que dá certo ou que tenha um final feliz.
Eu ainda não sei quando acaba essa história, ou se é uma história, ou se, de fato, teve algum início ou meio.
Mas, desde sempre, eu soube que meu contato com o HDB não seria prudente. Ele já tinha alguém. Eu não queria construir apenas uma amizade. Eu queria que ele enxergasse o amor que eu poderia dar para ele.
Mesmo todos os dias me sentindo sujo por estar desejando ter alguém que tem alguém.
Mas eu segui, firme.
Tentei disfarçar, tentei deixar claro, tentei criar indiretas, tentei criar situações.
Nessa altura do campeonato, a competição era comigo mesmo. Eu não poderia, depois de ter ele aqui, perder o que nem era certo eu ter.
Mas, dia após dia, isso me consumia.
Queria gritar, contar, chamar.
Assim como essa história escrita, já existiram áudios, cartas, fotos, músicas. Tudo incendiado ou arquivado por mim mesmo no momento em que nascem.
Eu não posso sentir o que não me é permitido ter de volta. Eu não posso viver isso.
Ao mesmo tempo em que repetia tudo para mim mesmo, eu ia e continuava. Naquele contato insistente, tentando dali tirar qualquer brecha que afagasse um coração desesperado por qualquer afeto do homem de bigode.
De novo, talvez seja necessário pontuar: meu Sol em Touro, com Lua em Touro, me deixa duplamente pé no chão em todos os aspectos da minha vida.
Eu não sou plantonista ou romântico como Castro Alves. Talvez eu viva nesse limiar romântico e ilusionista.
A metáfora do amor, para mim, sempre foi confusa, mas sempre pertencente a pilares que precisam se estabelecer antes de criar construção.
O amor, para mim, é a vida real. A gente demora para construir.
A paixão, para mim, é jogo. Ela é volátil. Nessa, se aposta, se perde ou se ganha.
Eu quis jogar, quis apostar. Mesmo sem entender o porquê dessa vontade, de onde vem.
O homem de bigode é real? É figurativo? Ele pertence ao meu coração? Ou pertence ao meu ego?
Meses se passam, e essa pergunta não sai. E ele continua aqui.
Em uma distância próxima, que afaga e destrói em uma mesma intensidade.
O HDB já foi comigo à terapia, às cartas, ao terreiro.
Eu precisava entender como é possível um coração bombear por alguém que não conhece. Seria o destino? Seriam os orixás? Ou seria apenas mais uma coincidência inevitável da vida?
Eu pensava.
Mas eu estava decidido. Em poucos dias, teria uma viagem para a cidade dele.
Eu sempre soube que ele teria alguém, mas eu queria me dar aquela prova, virar aquela chave.
Eu preciso fazer com que isso continue ou acabe. Eu estava me enganando. Eu não queria amizade.
Eu quero um encontro com você, falei.
E a resposta, talvez curta e confusa, do homem de bigode me estremeceu. Pareceu que sim, mas pareceu, ao mesmo tempo, que não.
Eu amei.
Afinal, era isso que eu queria, em curtas palavras: ou vai ou racha.
Nessa altura do campeonato, eu já não ligava para o karma que isso poderia me trazer.
Fui com sede. Cheguei, acessei… mas sem sucesso.
Eu não vi o homem de bigode pessoalmente.
As cartas já haviam me alertado que isso não aconteceria. Eu, como bom contador de histórias, precisei ver para crer.
Nesse momento, eu penso o quanto a minha vinda para a cidade dele, dessa vez, me instigou tanto.
Eu queria vê-lo, independentemente da circunstância. Eu queria sentir o cheiro, o perfume, o toque, ouvir a voz.
Talvez, de uma vez por todas, parar de falar “o homem de bigode” e, sim, falar “o homem da voz linda”.
Eu vim querendo realizar sonhos que foram construídos apenas por mim e sempre soube o resultado.
Vejam bem que nunca falo do que o HDB sente, porque esse jardim é meu. Ele é intocável. Ele sempre vai sentir o que quiser, brotar as flores que nele tiverem de brotar.
Hoje eu vou embora.
Finalizo esse texto do aeroporto. Vim horas antes, talvez porque uma parte de mim ainda tivesse esperança de, até o último minuto, dizer: “Estou aqui ainda. Dá tempo. Vem”.
Ou talvez porque outra parte de mim quisesse fugir. Fugir e, de uma vez por todas, colocar o ponto final que, neste texto, carrega um sentimento que foi cultivado por sete meses.
Não digo que esquecerei o homem de bigode. Talvez eu nem queira esquecer.
Ele existe em mim, mesmo que só em mim.
E talvez essa seja a parte mais bonita e mais difícil de aceitar em toda essa história: algumas pessoas entram na nossa vida sem necessariamente permanecer nela. Algumas nos atravessam sem saber a dimensão do caminho que abriram dentro da gente.
Eu não sei se isso foi amor. Não sei se foi paixão, desejo, destino, coincidência, projeção ou simplesmente um homem olhando para outro homem no momento exato em que alguma coisa dentro dele precisava voltar a sentir.
Talvez tenha sido tudo isso.
Eu só sei que, naquele sete de fevereiro, eu olhei para alguém e uma porta que eu havia fechado há muito tempo se abriu.
E, desde então, eu tentei entender o homem que estava do outro lado dela.
No caminho, encontrei mensagens, notificações, encontros que não aconteceram, cartas que não enviei, músicas que arquivei, perguntas que fiz às cartas, respostas que procurei no terreiro, conversas que talvez tenham significado muito para mim e pouco para ele.
E encontrei também uma versão minha que eu achava que não existia mais.
O romântico, que ainda acredita na fantasia uma vida inteira em vinte segundos.
O que ainda quer cuidar e ser cuidado, que ainda pode se apaixonar.
Essa história nunca tenha sido sobre descobrir se você seria meu. Ela conta como descobrir que eu ainda era capaz de querer alguém. E isso que eu levo comigo agora.
Não sei quando essa história acaba. Pensei que ela já tera acabado e eu ainda esteja escrevendo depois do ponto final. Talvez ela nunca tenha sido uma história de verdade, ou apenas uma história que aconteceu inteira dentro de mim.
Mas ela aconteceu, eu vivi, mas agora, boto aqui um ponto final neste capítulo.
Entro no meu avião, volto para a realidade que me espera e, pela primeira vez em muito tempo, não volto procurando por ninguém. Volto me encontrando. Eu vim ver o homem de bigode. E o homem de bigode, que sempre procurei. Era eu.
Thoughts
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PermalinkA prima entrando de vestido branco com o seu pai no lugar do pai dela, e você chorando igual bebê, isso eu li duas vezes. Vai postar a continuação da mudança para São Paulo aos 21?
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PermalinkBelém a avisar-te com a humidade e as veias da testa. Cá a terra também avisa, com o calor das três da tarde, e ninguém ouve. Tu ouviste.
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PermalinkJá sei pra quem eu ia passar esse texto: todo mundo que já perguntou pra prima quem era o cara e ouviu que ele tem alguém.
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PermalinkLi de uma vez, sem parar, e cheguei no aeroporto junto com você. Ele morando na mesma porta que você abriu ficou comigo o dia inteiro.
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PermalinkSeu pai ligando no dia seguinte pra dizer que compra a passagem, e depois entrando com a noiva no lugar de pai. Pra mim esse homem apareceu duas vezes no texto e nas duas segurou a família. Eu fiquei com ele na cabeça tanto quanto com o de bigode.
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PermalinkFicou-me o momento em que ele te pede um cigarro e tu respondes só sim, com a cabeça a fazer o casamento inteiro. Li ali menos desespero do que uma calma estranha, a de quem já sabia que ia guardar aquele segundo. E o jardim que dizes ser teu: para mim é onde o texto pára de pedir alguma coisa a ele.
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PermalinkIsso já é slam, mano 🔥
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PermalinkQuarta noite e ainda vou no casamento, adormeci mesmo quando o homem de bigode entrou. Amanhã descubro se ele te fala.
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PermalinkSua mãe gritando às 15h que você ia chegar de cara amassada no casamento da prima, essa eu reconheci na hora. Mãe é assim, o casamento é dela também. E no fim você foi o último a ir embora, promessa cumprida.
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PermalinkVocê chegando horas antes no aeroporto ainda com esperança de uma mensagem me fez pensar em quantas vezes a gente inventa um motivo prático pra ficar mais um pouco. Aposto que a próxima história, a de São Paulo aos 21, já está meio escrita na sua cabeça. Obrigado por trazer isso aqui, e bem-vindo!
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