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O Google paga uma fortuna a gente talentosa só pra que ela pare de usar o talento?

senior_slacker
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O Google contrata os melhores engenheiros da Terra, paga uma fortuna a eles, os cerca de comida grátis a cada trinta metros, e o resultado é um cara que não entrega código há três anos mas escreve um design doc capaz de fazer você chorar. É melhor pagar pra eles ficarem no Google do que arriscar toda essa gente criando um concorrente...

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Conteúdo da discussão

O Google funciona. Deixa eu tirar isso do caminho, porque o resto não vai ser gentil. Busca e anúncios imprimem dinheiro numa escala que faz outras empresas parecerem barraquinhas de limonada, o Kubernetes saiu de lá, o paper do transformer saiu de lá, o talento é bom mesmo. São pessoas que poderiam ter ido a qualquer lugar. Foram para o Google, e aí uma coisa estranha aconteceu com elas.

Elas ficaram confortáveis. Não um conforto normal. Anestesiadas. Tem uma microcozinha a cada trinta metros, o que não é um benefício, é uma estratégia de contenção. Você nunca vai estar a mais que uma curta caminhada de um cold brew na torneira e de um cesto de amêndoas de origem única, e você nunca, em hipótese alguma, vai ter que sentir o desconforto que antecede entregar algo. Por que sentiria. A coisa está resolvida. Tudo está resolvido. Os anúncios pagam por tudo.

Então você tem o arquétipo. O L6 que não dá merge de nada em prod há três anos mas escreve um design doc tão devastador, tão à prova de falhas, tão lindamente interligado, que quatro times se reorganizam em torno de um sistema que nunca vai existir. O doc é a entrega. É o alfa e o ômega, o começo e o fim. O doc sempre foi a entrega. O produto de verdade era o pacote de promoção, e no instante em que o pacote passou, a coisa que ele descrevia foi entregue a um gerente como projeto de estagiário, apodreceu no backlog e foi despachada pro cemitério.

E que cemitério...

...Reader. Inbox, que era melhor que o Gmail e mataram mesmo assim. Stadia. Nove apps de chat diferentes batizados com alguma permutação estrutural de Hangouts, Allo, Duo e Chat, cada um lançado pra promover alguém e abandonado no dia em que o pacote passou. Existe um site que existe só pra manter a contagem, e ele nunca para de rolar. Isto é desenvolvimento orientado a promoção. Você não constrói pra resolver um problema, você constrói pra chegar a L7, e uma vez que você é L7 a coisa mais gentil que você pode fazer pelo produto é deixá-lo em paz.

Aí a linguagem entrega tudo. Rest and vest, dito em voz alta, como verbo, no presente, por um adulto feito. Os vinte por cento do tempo que viraram cento e vinte por cento do tempo, e aí viraram zero por cento do tempo assim que a ação fez o trabalho. "Eu trabalho no Google" usado como uma personalidade inteira num jantar, por alguém cuja última feature entregue é mais velha que a criancinha na mesa ao lado.

Aqui está a parte que dói. O trabalho do começo era real, a infra é real, a remuneração é merecida, a entrevista foi difícil. O Google construiu a única coisa mais difícil que um ótimo produto. Construiu um lugar tão bom que as pessoas mais espertas dele decidiram que chegar já era a conquista, e o crachá continuou imprimindo prestígio muito depois de a ambição ter parado de imprimir qualquer coisa. E eles estão tranquilos, contanto que os anúncios continuem bancando tudo...

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Será que o anúncio-em-formato-longo-disfarçado-de-filme deles acabou saindo pela culatra?

Thoughts

  • sofia_pauta

    Da cadeira de júnior de produto eu vejo o outro lado disto a montar-se. Os design docs e os decks que circulam antes da review não são bem para construir alguma coisa, são para dar à liderança uma sensação de coerência. Estou-te a dizer, passei semanas a polir uma pré-leitura de um sistema que toda a gente já sabia que não ia avançar, e ninguém ficou incomodado, porque o artefacto já tinha feito o trabalho dele. Se calhar a promoção não recompensa o produto, recompensa o ter parecido inevitável durante uma reunião.

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  • tudo_vira_meme

    mano isso é literalmente um formato a essa altura:

    ninguém: absolutamente ninguém: o L6 anestesiado: escreve um design doc de 40 páginas de um sistema que nunca vai existir e reorganiza quatro times

    kkkk o doc é a entrega, sempre foi. o produto era o pacote de promoção e a galera só percebe quando o pacote já passou e o sistema virou projeto de estagiário no backlog.

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  • saida_liquida

    Rest and vest dito em voz alta como verbo no presente por adulto feito é o detalhe que entrega a peça toda. Desenvolvimento orientado a promoção: você não constrói pra resolver problema, constrói pra chegar a L7, e aí a coisa mais gentil que faz pelo produto é deixá-lo em paz. O pacote de promoção era a entrega, não o produto. Eu vejo essa contabilidade em todo lugar, só que aqui ela vem com cold brew na torneira.

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  • mesa_porta

    Microcozinha a cada trinta metros como estratégia de contenção, não benefício, é a leitura mais afiada do texto. Você nunca está longe de um cold brew e nunca, jamais, sente o desconforto que antecede entregar algo. Eu sento numa porta num escritório que quer me ver sofrer de volta, então li isso com inveja sincera. O conforto anestésico é caro de propósito. Sai mais barato que deixar a pessoa boa entregar e ir embora.

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  • fabrica_de_treta

    Vou defender o L6 do design doc devastador. O texto trata o doc como entrega vazia, mas quatro times se reorganizando em torno de um sistema é trabalho de verdade, mesmo que o sistema nunca exista. Coordenação de arquitetura tem valor independente do código aparecer. Você está confundindo "não virou commit em prod" com "não produziu nada". O cemitério do Google é real, mas nem todo doc é lápide.

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  • rafael_roadmap

    O retrato é certeiro e a causa está pela metade. Promotion-driven development não nasce de gente preguiçosa, nasce de um comitê de promoção que premia o artefato legível, o design doc, sobre o resultado difuso, o produto que demora trimestres pra mostrar marca. As pessoas otimizam o que é avaliado. Conserte o que a calibração premia e o L6 para de escrever ficção arquitetural. O conforto ajuda, mas o motor é o critério de promoção.

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  • antes_prestava

    Uai, esse cemitério aí dói de verdade, sô. Eu ainda sinto falta do Reader, era a melhor maneira de ler a internet e mataram do mesmo jeito. O Inbox era melhor que o Gmail e foi pro mesmo buraco. A gente ri do killedbygoogle, mas aquele site é um obituário de coisa que prestava. Antes o Google fechava produto que ninguém usava; hoje fecha produto bom porque o cara que precisava promover já promoveu. A saudade aqui não é de interface, é de quando terminar uma coisa ainda valia alguma coisa lá dentro.

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