Os trinta e três anos a viver com a Anna foi onde a história me virou. Ele viu-a uma única vez, nem chegou a ir à pracinha, e mesmo assim é com ela que passou mais tempo do que com qualquer pessoa de carne e osso. Aposto que a Anna que ele tem na cabeça j
Os trinta e três anos a viver com a Anna foi onde a história me virou. Ele viu-a uma única vez, nem chegou a ir à pracinha, e mesmo assim é com ela que passou mais tempo do que com qualquer pessoa de carne e osso.
Aposto que a Anna que ele tem na cabeça já não se parece nada com a moça espalhafatosa que o Beto lhe quis apresentar.
Conteúdo da publicação
Memórias de um homem que não soube viver.
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By: Kevin F. Silva
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Edi
Estou acabado, sou um fracasso, um imbecil; e sou mais imbecil ainda por decidir escrever isso.
Vivo só, não tenho trabalho e, por minha péssima alimentação e outros fatores que não cabem a ti saber, tenho uma aparência bastante desagradável.
Me faltam os dentes na boca, sinto-me muito enjoado e com uma dor de cabeça insuportável.
Hoje tomei a difícil decisão de levantar da cama. Preferiria que tivesse morrido; venho esperando por esse dia há um bom tempo.
Não pense que eu devo dar um fim a ela, já fui covarde demais na vida.
Estou velho, estou inchado. Não gordo, caro leitor, a palavra certa é “inchado”; há diferença, seu tolo.
Antes fosse tudo isso gordura.
Mas do que interessa minha aparência? Isso já não importa.
Já disse que vivo só? Bom, se já disse, enfatizo aqui, agora: sim, caro leitor, eu vivo só; não tenho amor, não tenho amigos, não tenho paixão, não tenho família.
Mas não se engane. Apesar da minha aparência um tanto desagradável, fui, quando jovem, um rapaz belo, charmoso. Daquele tipo que provoca inveja e raiva nos outros rapazes.
Então, meu querido leitor, tive muitas oportunidades de encontrar um amor ao longo da vida, mas não sei se era capaz de amar alguém.
Houve um episódio na minha vida, em especial, que faço questão de contar, meu caro leitor, para explicar o motivo do meu fracasso na vida amorosa e na vida como um todo.
Como sou nojento e patético.
Caro leitor, acabei de comer um pedaço de pão que estava debaixo do meu armário.
Não sinta nojo, é a minha comida, seu estúpido!
Bom, o que espera de um homem de natureza como a minha? Estou reduzido à miséria. Tudo que tenho são restos de móveis velhos e usados. Moro num cubículo que até os ratos que vivem para lá e para cá reclamam do pouco espaço.
Dentre o pouco que me resta, tenho essa caneta e esse caderno velho, no qual escrevo.
Tenho também a pouca vergonha de contar tudo isso para você, meu leitor, como se toda essa história fosse digna de um livro.
Mas talvez sirva de exemplo para você.
Não me orgulho do que fiz, mas também não vejo o que poderia ter feito de diferente.
Minha vida é um inferno.
Te convido, caro leitor, a entender o porquê de toda essa desgraça na minha vida.
Já peço, de antemão, caro leitor, desculpas pela péssima escrita. Não sou escritor e é a primeira vez que escrevo como num livro.
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O MEU FRACASSO
Era uma tarde de um dia que não me lembro, o ano eu também não me lembro. Me desculpe, caro leitor. Mas lembro dessa conversa muito bem, cada palavra, cada insulto daquele que se dizia meu amigo: Beto.
Lembro-me também, meu leitor, de cada sensação que senti naquela conversa.
Apesar de não lembrar o ano exato, eu lembro que tinha 20 anos. Agora estou com 53, faça as contas.
Meu amigo Beto veio até mim, pois tinha algo para me falar.
— Cara, eu tenho uma notícia louca para te contar — disse-me Beto.
— Pelo seu entusiasmo, parece boa coisa — observei.
— É sim, meu amigo. Pois bem, sabe a Anna? — perguntou Beto.
— Aquela sua amiga que veio aqui semana passada?
— Essa mesma.
— Lembro-me bem dela. O que tem para falar sobre ela? — questionei.
— Ela está a fim de você, cara. Você nunca namorou; é sua chance. Aproveita.
— Sei não, cara...
— O quê? Como assim não sabe? Ela é linda.
— Ela é muito linda, de fato.
— Pois então, que desânimo é esse? — questionou Beto.
— É porque ela não parece o tipo de mulher que eu quero — expliquei.
— Como assim, cara? Ela é simpática, bonita, inteligente... E a lista só cresce.
— Tudo bem, mas eu não quero só isso numa mulher. Eu não sei, é besteira minha. Talvez eu esteja desejando uma mulher perfeita demais.
— Cara, você não pode ficar preso em ideias. Aproveite o que a realidade te proporciona. A realidade está batendo na sua porta, é hora de sair dessa sua vida de fantasias, cara.
— Essa vida é ótima: não há dor, não há frustrações, não preciso lidar com pessoas ruins que só machucam a gente.
— Escute bem, amigo. Escute. É melhor se machucar com uma experiência real, que te traz ensinamentos, experiências de vida, ou viver uma vida de fantasias, sem nunca ter a chance de conhecer uma mulher legal, divertida, que vai te trazer sensações reais?
— Criar cenários na minha cabeça também me traz sensações reais. Só porque não foi causado por uma experiência externa significa que a sensação não existiu? — perguntei.
— Qual é, meu amigo!? Sua vida vai se basear nisso?
— Eu só vou dar uma chance para uma garota real se ela for como o meu ideal.
— Mulher nenhuma vai ser como você idealiza.
— E então eu viverei assim.
— Ok, e se seu ideal aparecesse hoje, você estaria preparado para ela? Como você conversaria com ela se você nunca conversa com garotas de verdade? Você vive esperando essa pessoa perfeita, mas será que você seria o suficiente para ela?
— O que você quer dizer?
— Ora, o que eu quis dizer está bem explícito no que acabei de falar — explicou Beto.
— Então você pensa que eu não saberia lidar com meu ideal?
— Qual é, cara?! Como você vai estar preparado para lidar com uma mulher que você considera perfeita se você não tem experiências reais? Você tem maturidade emocional para sustentar um relacionamento? Você tem presença?
— Eu aprenderei na marra. Farei o que for preciso para conquistá-la.
— Se você mal consegue conversar com uma mulher que não te atrai romanticamente, imagina com uma mulher que considera perfeita... — declarou Beto, zombando de mim.
Após aquela observação de Beto, fiquei pensativo, considerando o ponto do meu amigão.
— Eh! Eu realmente tenho dificuldades em conversar com mulheres — admiti.
— Então, cara. A Anna já demonstrou interesse. Você tem a aprovação dela, você só precisa corresponder ao interesse que ela demonstrou — disse Beto.
— Eu não sei, Beto. A personalidade dela não me atrai... Para ser realista, a personalidade até me cansa um pouco; ela é muito expansiva e espalhafatosa; é um choque para o meu cérebro — expliquei.
E não se engane, caro leitor, Beto já havia observado e percebido padrões nas minhas narrativas, pelo menos é o que eu imagino. Aquele carrasco era de uma sagacidade notável.
E sinto desconforto a cada vez que visito estas lembranças. Consigo sentir, até hoje, a vergonha que aquele verme me fez sentir com estas palavras.
Naquele momento, caro leitor, ele olhou para mim e proferiu, num ataque feroz, palavras que até hoje me assombram.
— Você tá colocando muita imposição. Eu acho que você está com medo — apontou Beto.
— Medo de quê?
— Medo de não dar conta dela. Você não tem nenhuma experiência com isso. Você não sabe o que vai fazer; não sabe conversar, não sabe beijar e você nunca se relacionou sexualmente com uma mulher. Você tá com medo de chegar lá e não saber o que fazer. Você está com medo de finalmente ter que fazer isso; fugir da fantasia, onde você não tem controle sobre as pessoas e sobre as situações. É isso! Você prefere a beleza e a segurança de uma fantasia ao risco de uma experiência real. Não é isso mesmo? Não é? — insistiu Beto.
Ao ouvir aquilo, eu fiquei calado, pensativo. Confesso que tive um pequeno impulso de rir, não porque achei algo engraçado, mas porque era trágico.
Talvez Beto estivesse certo, e eu sabia que estava. Porém, o impulso do homem de se defender e tentar defender a sua honra diante de um duro ataque a uma identidade que você tenta esconder e pode jurar diante do criador do universo que faz isso com excelência dominou meu ser.
— Quanta baboseira você acabou de dizer — respondi, esforçando-me para manter uma expressão séria. — Eu só não quero usar a Anna como um objeto de aperfeiçoamento. Escute, eu não posso acumular uma bagagem de conhecimento teórico para, justamente, quando a mulher ideal aparecer, eu saber lidar com toda a situação? — perguntei.
— Cara, você vai morrer só, pois essa “mulher ideal” nunca vai aparecer. E digo mais, mesmo se, por algum milagre, ela aparecer no mundo real, ela não seria tão interessante quanto é dentro da sua cabeça. E você iria encobri-la de defeitos para dizer que ela não é mulher para você, igual você tá fazendo com a Anna agora. Tudo isso pelo medo de agir e, principalmente, por não saber como agir — exclamou Beto.
— Ora, para quê esse ataque? Tudo bem, você é incrível, você lida bem com as mulheres, você tem vários encontros, você vive.
— Não fique zangado, meu amigo. Eu falo isso porque eu quero ver você aproveitando a vida. Você vive trancado em casa, lendo livros ou sei lá o que tanto você faz em casa. Por fim, eu falo porque acho que você merece viver de verdade, no mundo real, longe dessas fantasias que você cria na sua cabeça — explicou Beto.
— O que eu posso fazer? Não há nada de interessante fora de casa, só pessoas tolas, estúpidas, superficiais. Isso sem tocar no fato de que essa cidade é suja, fétida e feia. Eu odeio sair naquelas ruas.
— Não condene o mundo e as pessoas, Edi. Prefira olhar as oportunidades que eles lhe oferecem. O mundo é mais do que isso que você falou, meu amigo.
Eu me deixei levar por essas palavrinhas bonitas de Beto; como fui tolo!
Só para constar, caro leitor, ainda detesto essa cidade.
Fui engolido por uma onda de fragilidade emocional e me rendi àquelas palavras idiotas:
— Você acha que eu deveria sair com Anna? — perguntei.
— Claro, meu amigo, ela é uma beldade, e está entregue a você. Ela mesma me disse.
— E se eu não souber o que falar no encontro? — perguntei.
— Como você não vai conseguir? É inteligente, fala muito bem, é educado... As mulheres gostam disso. Você vai dar um jeito — falou Beto.
— E quando eu for beijar ela? Eu nunca fiz isso. E se eu errar e ela desistir de mim? — perguntei.
Agh!
Acredite, caro leitor, eu sinto enjoo toda vez que lembro dessas minhas falas; como fui estúpido.
— Vai com calma, ela tá na sua, meu amigão. Se errar, sorria e tente de novo. Ela não vai te condenar por isso. Brinque com a situação, se for possível — falou Beto.
Ele falou, leitor, que eu deveria brincar com a situação. Que piada!
Entenda, querido leitor, se naquela situação eu tentasse rir, é bem provável que ela fosse embora.
— E se ela só quiser brincar com meus sentimentos? — perguntei.
— Agora chega, Edi. Não crie os piores cenários, saia um pouco das projeções da sua cabeça. O mundo real é diferente. Sabe a teoria do gato de Schrödinger?
— Sei. O que há?
— Então, imaginemos que toda essa sua situação é como aquele experimento. Você só sabe se o gato está vivo ou morto ao abrir a caixa, exatamente como sua situação: você só saberá o que vai acontecer depois de dar o primeiro passo, ou seja, abrir a caixa. Não precisa ficar imaginando se o gato está vivo ou morto. Só abra a caixa que você vai saber.
— Ah! Como tudo isso me cansa — falei.
— Edi, amanhã eu virei aqui e te levo até ela, pode ser?
— O quê? De jeito nenhum!
— Qual é, cara! Você quer isso, você já admitiu.
— Não admiti não!
— Claro que admitiu, só não percebeu. Não adianta esconder mais, cara, eu já compreendi tudo — falou Beto, rindo de mim.
— Que inferno! E onde ela estará? — perguntei.
— Eu falo com ela para te encontrar na pracinha do centro. Eu te levarei lá e deixarei vocês a sós — explicou Beto.
— Sério que a praça foi o melhor lugar que você pensou? — perguntei.
— Você queria em outro lugar? Pode ser naquele parque que tem várias alamedas.
— Não, não! De jeito nenhum; há muitas pessoas por lá.
— Não tem muito para onde ir por aqui — falou Beto.
— Pode ser na porcaria da pracinha, então.
— Perfeito! Amanhã eu volto aqui e vamos até lá. Vista sua melhor roupa, hein!?
— Claro. Vestirei.
— Até amanhã, meu amigo. E não vai mudar de ideia — falou Beto, virando-se e indo embora.
Eu me lembro, leitor, de ter pensado, naquele momento, em acabar com a minha vida.
Parece exagero, meu leitor?
Você ainda não entendeu o que eu era e que, de certa maneira, ainda sou?
Eu preciso deixar isso bem explícito para você?
Depois da saída de Beto, lembro-me bem de ter me condenado por me colocar naquela situação.
Por que eu não me mantive firme com a minha decisão inicial de não assumir essa responsabilidade?
Acredite, meu caro, me castigo todos os dias por isso.
Naquela noite, não consegui dormir. Não conseguia ficar em paz e pensava incessantemente sobre o que eu deveria fazer.
Sabe, caro leitor, aquela tarde que tive com Beto foi a última vez que o vi.
Não vejo Beto desde os 20 anos.
Aquele encontro com Anna nunca aconteceu.
O que eu poderia fazer?
O que fazer quando se é um imbecil como eu?
Medo?
De que eu tive medo?
Da realidade?
Medo de tornar tudo aquilo que eu sempre criei nas fantasias em realidade?
Eu temia a realidade tanto que preferi viver nas fantasias, inventando obstáculos, problemas e defeitos nas pessoas e nos eventos externos?
Eu temo as pessoas com tanta intensidade que me recusei a me encontrar com o potencial amor da minha vida.
Será esse medo o reflexo de toda a minha mediocridade como ser humano?
Estou reduzido a nada, embora pudesse ser tudo.
Leitor, eu amei Anna. Sim! Quando a vi pela primeira e única vez, meu coração se agitou em paixão.
Sim, eu a amei e amo até hoje. Amo a possibilidade que ela me foi. Amei pela sensação de ser desejado.
Mas como a odeio. Odeio pelo que ela fez comigo. Odeio-a por saber, naquela época, que ela estava apaixonada por mim.
Seria injusto, meu leitor, considerar que eu não estaria como estou se não fosse pelo gosto peculiar daquela perversa?
Eu fugi dela por medo. Eu tive medo, caro leitor. Como fui medroso.
Guardo a imagem de Anna comigo até hoje, meu leitor. Hoje mesmo chorei. Sim, chorei. O que há?
Como amei Anna.
Mas eu vivo com ela.
Sim, vivo.
Ela está comigo há 33 anos, meu leitor.
Não acredita?
Eu não estou louco.
Não estou mesmo!
Beto era um canalha, queria ver eu me humilhar, queria ver meu sofrimento. Ele me odiava por eu ser mais inteligente do que ele. Ele zombou de mim, meu leitor, ele zombou de mim.
Como sinto falta do Beto.
Já não tenho mais tempo, meu leitor, estou doente.
Morrerei em breve.
Vou morrer só e esquecido.
Mas esquecido por quem?
É possível ser esquecido quando nunca foi lembrado?
Me acharão porque o cheiro do meu cadáver podre começará a incomodar os vizinhos.
Sinto, por mim mesmo, remorso, sinto repugnância, sinto nojo.
Mas sinto também arrependimento por deixar a minha vida passar sem ao menos me dar a chance de viver experiências boas.
Mas o que eu poderia ter vivido? O que o mundo poderia oferecer para um homem como eu?
Nada!
Só se vive conformado nesse mundo, pessoas tolas, patéticas, pessoas comuns. O mundo é perfeitamente habitável para essas pessoas.
Não sinto nenhum arrependimento, eu menti.
Eu odeio esse mundo.
Eu vivi melhor do que todos, porque não me submeti às tolices do mundo.
Será que não fui digno de viver a boa vida, meu querido leitor?
Te entrego esse pequeno, mas importante relato da minha fracassada, patética e inválida vida.
Os trinta e três anos a viver com a Anna foi onde a história me virou. Ele viu-a uma única vez, nem chegou a ir à pracinha, e mesmo assim é com ela que passou mais tempo do que com qualquer pessoa de carne e osso.
Aposto que a Anna que ele tem na cabeça já não se parece nada com a moça espalhafatosa que o Beto lhe quis apresentar.
Eis aqui um cenário recorrente na minha rotina: eu, retornando à minha casa depois do trabalho, com minha bicicleta, observo atentamente cada pessoa ao longo das ruas.
Muita gente diz que sou um homem carente, de um abraço ou de um amor que passa. Mas a minha alma busca algo diferente, uma sede que só o alto em mim se disfarça. Não é carência do mundo que me faz…
Nenhuma droga no mundo é tão viciante quanto ele, nada me causa o mesmo efeito que simplesmente a presença dele causa em mim. E é mais que bom estar dopada dele toda hora e todo dia, me drogar de…