Naquele fatídico dia, um mestre de obras recém-contratado chegou a um aeroporto improvisado no meio de uma floresta densa para iniciar sua primeira grande construção. Homem de poucos amigos e pouca paciência, mal desceu do avião e já mandou os pedreiros ligarem os equipamentos para abrir espaço naquele matagal que escondia rios de dinheiro sob aquela terra úmida.
De dentro de uma pequena cabana próxima, surgiu um velho de pele avermelhada e cabelos lisos. Apoiando-se em um cajado torto, gritou com voz rouca:
— As máquinas pararam de funcionar. Tá tudo meia-boca desde que o demônio ruivo apareceu.
O novo chefe, cético e grosseiro, respondeu com soberba:
— Depois que inventaram a pólvora, demônio virou lenda. Vocês não têm equipamento? Toquem fogo nessa floresta e devolvam o demônio para o inferno!
Os pedreiros, homens que haviam crescido naquelas terras, vivendo em ocas antes de acabarem vestidos como “brancos” sob a mira dos patrões, não gostaram da brincadeira. Diferentemente do chefe, não eram tão céticos.
A ordem de incendiar a floresta fez o silêncio pesar. O isqueiro passou de mão em mão, mas ninguém parecia ter coragem de riscá-lo. O mestre surtou. Resmungava, andava apressado e xingava Deus e o mundo. Olhou para todos com desprezo enquanto tomava o isqueiro das mãos de uma criança, a quem os demais haviam passado a responsabilidade de atear fogo à floresta.
Pegou um litro de gasolina, chamou a todos de incompetentes e, no momento em que se preparava para acender o isqueiro, ouviu uma risada vinda da floresta. Aos poucos, ela foi ficando mais alta. Mesmo entre pausas, era aguda e sinistra.
Os trabalhadores, aterrorizados, fecharam os olhos e, quando tornaram a abri-los, fixaram o olhar na divisão entre as árvores, de onde vinha a risada.
O homem caiu sentado. Sua coragem havia acabado, e a arma presa à cinta de couro não saía, por mais que ele puxasse. A risada se aproximava até que, finalmente, cessou.
O mestre tentou se recompor, mas, enquanto se levantava, ouviu um galho se partir. Depois outro. E mais um. Os estalos vinham acompanhados de pausas cada vez maiores, enquanto o silêncio se tornava mais agoniante.
Então, ouviu-se um estalar de ossos. Logo em seguida, o mestre sentiu um bafo quente em seu ombro. A criatura que estava atrás dele aproximou o rosto do homem e, estranhamente, com uma voz grossa, disse:
— O fogo queima aquilo que precisa ser queimado. O fogo queima homens, não demônios. Quem você pensa que é para apontar meu fogo contra a minha floresta?
O homem engoliu em seco, mas respondeu:
— Seu fogo? Sua floresta? O fogo pertence aos homens há muito tempo.
Um tiro rompeu o silêncio e atingiu o ruivo em cheio. Um dos trabalhadores, tomado pelo pavor, havia disparado.
O mestre se virou. O medo que lhe paralisara as pernas deu lugar a um sorriso insano. Finalmente, tinha algo que podia compreender: uma criatura ferida, vulnerável, à mercê dos homens.
— Faz muito tempo que os demônios começaram a queimar pelo fogo dos homens! — gritou. — Prendam-no! Vamos vendê-lo, assim como venderemos esta floresta! Eu sempre acreditei em lendas. Imaginem só como ficaria lindo empalhado!
E você, aí, do outro lado destas páginas, realmente acreditou que a floresta sairia ilesa?
O enterro do Curupira, infelizmente, não será o último. Enquanto houver homens dispostos a transformar florestas em mercadoria, haverá funerais que ninguém se dará ao trabalho de anunciar.
E, quando a última árvore cair, talvez não reste ninguém para ouvir a risada do próximo demônio.