Autor: Victor Rikelmy Nascimento Lourenço
A primeira vez que a vi ela descia as escadas, com as luzes nacaradas lhe mascarando a face, e meu olhar se esbaldava na beleza dela. E como era bela! Cabelos negros que corriam pela cabeça até os ombros onde desciam por uma cachoeira de curvas de seus cachos. Dar a alcunha de mais bela criatura deste mundo lhe seria a mais profana das blasfêmias. Deste não, de todos! Ai se Saturno lhe rogar praga... ainda será mais que bela - muito mais.
Ela é como o sol duma manhã quentinha. Aliás, o sol por si só não é digno de ver tamanha formosura. Se esconde todas os dias, com medo de ser ofuscado. E a lua, ah coitada... quando a vê, de tanta inveja, fica pálida.
Ela é como a brisa de uma manhã quentinha. É como a chuva que cai leve. É como a folha serena que paira no ar, e rodopia num eterno ato de gratidão ao mundo, gratidão a sua árvore, que lhe deu a oportunidade de realizar tão maravilhosa apresentação.
Ela é belíssima e completamente estonteante. Me arranca suspiros profundos a todo instante. Nem mesmo Afrodite – deusa da beleza - chegaria, sequer, aos teus pés, oh bela dama de vestido branco cor de céu. Nada se comparava a tua lindeza. Nada. Nem minhas palavras fúteis são capazes de descrever tua formosura. Nunca minhas esdrúxulas comparações lhe descreveriam nem um terço de toda tua beleza.
Note que até a orquestra para ao ver a dama passar. E o tempo, pasmo, não passa. E o pássaro canta mais doce. E a brisa sopra mais leve. E a noite se torna mais curta, pois a lua sente inveja de tua beleza. E a rosa logo desabrocha para ver tua beleza. E quando o branco se torna rubro, o vermelho se torna meu amor. Pois com um só olhar seu (apenas um), eu me tornaria o mais feliz dos homens.
Talvez seja loucura. Talvez seja febre. Mas amar assim não é coisa de quem escreve. É chama que arde e não queima por dentro. É silêncio que grita e me devora. O amor é luz que cega. Que incendeia a tarde, mesmo quando neva. É o fogo que arde no banco da praça, queimando-me a pele enquanto tudo passa.
Isso é inútil - melhor descreveria. Inútil por não ser real? Não! Inútil por não mostrar minha verdadeira vontade. Mas de certo que dizer que a loucura de um homem jamais seria capaz de provar sua paixão é mentira. Nem mesmo o reflexo do espelho é capaz de refletir todo aquele esplendor. Pois ela é tudo o que eu preciso. Ela é o que torna a vida bonita.
Foi em meio ao meu devaneio que percebi pelo reflexo do espelho a mais terrível das visões. Um bêbado, um Ébrio, degenerado, maltrapilho, barbudo, de chapéu e sobretudo. Agarrou minha dama e pôs-se a beijá-la a força. Que visão do inferno!
Não hesitei um instante sequer. Levantei-me da mesa, dei-lhe um pontapé. Derrubei-o no chão, e lá seu sangue verteu como água. Mas de certo que este é o verdadeiro vilão. Maldito ser vil, este será teu último ato de malvadeza! Mas de certo que ele — ele — era o vilão. E meu punho, a espada da salvação.
Soquei o rosto dele, fiz morder a língua e arranquei-lhe três dentes. Lancei o corpo contra a parede de vidro, quebrando-a toda. Ele, revoltoso, devolveu num golpe em meu ouvido esquerdo, e meu sangue manchou o chão. Não somente o solado dos sapatos dos transeuntes, mas também o vestido com de céu de minha dama, tingindo-o de vermelho. Ai que inveja! Deste sangue que de meus punhos escorre. Como pode macular o rodado vestido, sangue sortudo?
Uma a uma, as lesões vinham de par em par, ora minha, ora dele. Ai, como minha boca dói. Só não dói mais do que meu coração, de tanto sofrer por ela. Como se quisesse pular do peito. Dói tanto, queria ver o rosto dela sem a luz mascarando seu olhar.
Meu derradeiro golpe acertou em cheio meu nariz. Ai que ironia! Morrer assim sem ver o rosto de meu mais belo anjo! Veio ela por fim. Pôs-se a ajoelhar. Colocou minha cabeça em seu colo, limpou o sangue de minha testa. Ai que visão do céu! Neste âmago de solidão, o anjo de vermelho me vem tirar do chão, me faz oração... mesmo que eu seja só destruição.
Este é o sonho do bêbado desvairado, do homem que amou, do homem ferido. Do homem que se viu no espelho e não se reconheceu. Do que odiou no outro aquilo que era seu. Que como pelos encantos de um querubim, se tornou inebriado.
E assim, morreu.
E atrapalhou a boate.
E atrapalhou as pessoas.
Que atrapalharam a polícia.
Que atrapalhou os transeuntes.
Que atrapalharam o trânsito.
Que atrapalhou a cidade.
Que atrapalhou a vida da dama de vestido vermelho.
E até a chuva, ao cair no bueiro, levava um vermelho mais denso.