A madeira estalou.
Um som seco, pequeno — mas suficiente para anunciar que algo havia mudado do lado de fora. Até os grilos, que insistiam em cantar na escuridão, silenciaram de repente, como se reconhecessem a chegada de algo pior do que a própria noite.
Eles tinham vindo.
O bando.
A morte, montada em botas empoeiradas e olhos sem misericórdia.
Lá fora, o som de passos cercava a casa devagar, paciente, como predadores que sabiam que a presa já não tinha para onde correr.
Levantei-me.
As esporas rasparam no chão de madeira, riscando o silêncio como um aviso. Cada passo ecoava dentro de mim como o bater de um tambor de guerra.
Doze.
Eu contei.
Doze homens lá fora.
Doze coiotes famintos cercando um único leão ferido.
Eles gritaram meu nome.
Risos vieram junto.
Chamavam-me para fora como se aquilo fosse algum tipo de jogo.
Como se o medo fosse me fazer abrir a porta com as próprias mãos.
Como se eu ainda fosse o tipo de homem que implora por mais tempo.
Aproximei-me da mesa.
Peguei o revólver. Cain.
O peso dele se encaixou na minha mão como se sempre tivesse pertencido ali.
Abri o tambor.
Seis balas.
Frias.
Silenciosas.
Honestas.
Uma oração curta passou pela minha mente — não para ser salvo, mas para não hesitar.
Fechei o tambor com um clique firme.
Não olhei para o céu.
Nunca fui homem de pedir ajuda.
Naquela noite, eu assinaria meu próprio destino.
E faria isso com a própria mão.
Eles trouxeram corda.
Eu vi.
Queriam me arrastar, me pendurar, fazer espetáculo com meu fim.
Mas eu trouxe outra coisa para essa dança.
Trouxe chumbo.
E chumbo não pede permissão.
Encostei a mão na porta.
Respirei fundo.
E sorri pela primeira vez em muito tempo.
— Podem vir os doze — murmurei baixo. — Podem vir cem.
O inferno sempre encontra espaço para mais um.
Ou mais doze.
Eu nunca fui homem de recuar.
Nunca fui homem de poupar.
Naquela noite, eu não era um homem cercado.
Eu era um exército inteiro comprimido em um único corpo.
Um batalhão de um homem só.
Então derrubei a porta.
A madeira explodiu para fora como um trovão.
E o mundo virou fogo.
O primeiro caiu antes mesmo de entender o que estava acontecendo.
O segundo tentou rezar — mas não houve tempo suficiente para terminar a primeira palavra.
Os outros gritaram.
Atiraram.
Erraram.
A fumaça subiu densa no ar, carregando o cheiro metálico do fim.
Pólvora.
Sangue.
Destino.
E, no meio daquele caos, eu vi.
A morte.
Ela estava ali.
Não como inimiga.
Mas como uma velha conhecida.
Ela sorriu para mim.
E piscou, como quem reconhece um igual.
Eu sabia como aquilo terminaria.
Sempre soube.
Não havia saída.
Não havia amanhecer para mim.
Mas isso nunca foi sobre sair vivo.
Era sobre levar todos comigo.
Arrastá-los para o mesmo chão.
Para o mesmo silêncio.
Para o mesmo fim.
O último disparo ecoou como um ponto final.
O mundo ficou quieto outra vez.
E ali, entre corpos e fumaça, com o sangue ainda quente nas mãos...
eu entendi.
A espera acabou.
A conversa terminou.
E naquela noite,
Eu deixei de ser homem.
Virei fera.
Os dias passaram,
Deixando aquele lugar cada vez mais inóspito