Lua aí de cima, que hoje me observa,
diz, daí do alto, ainda dá pra ver
a dor silenciosa que meu peito atravessa?
Lua aí de cima, velha testemunha,
que me enxergou inteiro noutros tempos atrás,
quando meu olhar em ti era feito de fascínio,
e a vida parecia menos voraz.
Hoje, porém, me observa diferente,
com o peito aberto, derramado no chão,
como casa vazia depois do incêndio,
restando eco, fumaça e escuridão.
Lua aí de cima, que tudo me atravessa,
me responde, se puder compreender:
daí do céu ainda existe promessa
de nascer em mim um outro ser?
Um alguém que não carregue nos olhos
o peso bruto do que se perdeu,
que esqueça por que escreveu estes versos
e consiga seguir sem morrer no que viveu.
Lua aí de cima, que tudo presencia,
ilumina o espaço vazio cheio de ausência.
E nivele a maré alta que me afoga
E me traga de volta a consciência
Levando embora de vez essa minha alma cinzenta
Lua aí de cima, luai aí de cima.