A pedra que pergunta pelo próprio propósito rouba a cena, dá vontade de ficar mais com ela. Em Renda ao Sol / Conto também há um homem estranho oferecendo uma peça que pesa sobre o corpo.
O CONTO DE ELÍSIO
Pensamento
A pedra que pergunta pelo próprio propósito rouba a cena, dá vontade de ficar mais com ela. Em Renda ao Sol / Conto também há um homem estranho oferecendo uma peça que pesa sobre o corpo.
Conteúdo da publicação
O CONTO DE ELÍSIO
Elísio se vê em extrema angústia, com luzes brancas ao seu redor, em contraste com o carmesim. Quando se aproxima dele, um médico de rosto pálido e vista cansada, lhe faz uma proposta:
"Tu irás caminhar até a densa floresta onde tua alma repousa
Coragem deves ter, pois tua sina se reflete na presença daqueles que te acompanham."
Elísio aceita, e caminha em direção a floresta. Sua jornada inicia.
VELUM RUMPIT
Caminho em alerta, pois o que me aguarda é desconhecido
Porém, o desejo de me encontrar alinha meus passos
No entanto, sinto o compasso
Que dentro de minha alma desalinha a cada passo
Lugar inquietante me encontro
Imensas arvores cercam-me
Não há outro ser a vista
Mas a sensação é de constante observação
Trêmulas, minhas mãos se encontram
Não há presença de vento, mas um ruído inquietante
Torna-se maior à medida que caminho
A luz da Lua me guia em meio as sombras
De forma repentina, vejo o meu reflexo
Que me traz angústia
E surge na beira do riacho
Um cavalo branco de olhos inocentes
Tal figura recorda a Elísio a pureza que lhe foi arrancada. No entanto, como um raio que corta o céu, recordações surgem.
O respirar pesado que me acompanha
De nada lembra aquele que há muito senti
Ao me aproximar de tão puro animal
Sinto mãos que me aprisionam
Imóvel me encontro, o riacho se torna árido O cavalo torna-se negro e os olhos refletem fogo
As mãos me aprisionam de tal maneira
Que eternas marcas deixam em meu corpo
Com a mente fragmentada, Elísio indaga qual o sentido do que há pouco lhe acontecera, quando surge o homem pálido. Com olhar profundo e sorriso inconveniente, ele se aproxima do homem desvanecido e diz: "Porque te entristeceste? O caminho que te aguarda rasgá-lo-á ao meio se não fores corajoso. Levanta-te, homem covarde, e segue teu rumo!" O homem se retira, gargalhando de forma inescrupulosa.
Elísio segue em frente...
Tal caminho, dor e pranto, são inevitáveis
Mas voltar não é mais possível
Sinto que o que acabo de ver
É apenas o prelúdio do que me aguarda
Densa e inquietante, a mata adentro
Penso que o ruído parte de dentro
Então três sombras surgem em minha frente
Não apresentam corpo, mas têm presença
Faces soberbas e egoístas surgem
Estranhas, não me parecem
Encontro-me cercado por tais criaturas
Lançam três artefatos em minha direção
As sombras se dirigem a Elísio. A primeira entrega-lhe uma foice e diz: "Para ceifar tua alma me serve, porém cabe a ti encontrar outro sentido."
A segunda entrega-lhe um chicote com pregos e diz: "Para destruir tua carne me serve, porém cabe a ti encontrar outro sentido."
Enfim, a terceira entrega-lhe uma máscara ridícula com guizos estridentes e fala: "Para te ridicularizar me serve, porém cabe a ti encontrar outro sentido."
As sombras se dissipam e escurecem a mata novamente
Motivo para tal ação não compreendo
Inquieto me encontro; qual o motivo de tais artefatos
Aquelas faces me recordam dor e angústia
À frente, uma imensa rocha se encontra
Caminho a seguir, não vejo
Quando uma voz grave ouço
Enlouquecido, penso estar
Aquela rocha está falando comigo?
Tal ação parece me confortar.
Ao me aproximar vejo diversas fendas na rocha
Tais fendas formam um triste rosto,
No qual verte água e assimila-se a lágrimas
Pergunto o que seria esse estranho ser
A rocha, que está no caminho do confuso homem, inicia um diálogo:
"Sou a pedra entre tantas,
Mas o que me faz uma pedra, não sei.
Qual o propósito de uma pedra?
A pedra que souber, diga-me.
Mas toda pedra pensa? Jamais saberei.
Ou, ao menos, existe a maior das pedras que me moldou?
Se existes, me diga o propósito de uma pedra,
Ou por que há pedras perfeitas e outras tão imperfeitas quanto a mim,
Ou diga-me se há perfeição em ser uma pedra,
Por que penso, não sei, por que sou diferente,
Maciça, porém oca.
Vejo o primeiro raio de sol, o último também,
Mas aqui estou,
Imóvel, vazia.
Vejo a água brotar da terra
E o campo virar um rio.
A correnteza me carrega, porém para onde, não sei.
E, aos poucos, me esfarelo até assumir a mais perfeita das formas.
Será assim uma pedra perfeita?
Não me sinto como tal.
Meus pedaços se espalham,
Assumo uma nova forma,
Mas minha essência se mantém.
Qual a essência de uma pedra?
A luz se ergue e se põe, e aqui estou,
Entre tantas pedras,
Mas sozinha me encontro. Será que haverá um fim?
Perfeita é a pedra?
Se alguma pedra souber, por favor, diga-me."
Ao escutar tais palavras, Elísio angustiou-se e caiu, com a face prostrada ao chão.
Tamanha aflição toma conta de minha alma
Minha razão parece perder-se
Inegável é tal fato
Jamais senti tamanha similitude
Em contraste com minha angústia
Escuto uma risada.
Aquele homem pálido retorna
"Empecilho em tua empreitada encontraste
Esta pedra de teu caminho irei tirar
Porém te alerto:
Vazio terrível o aguarda
Coisa muito penosa
A tua fraqueza te custará as entranhas."
Elísio não vê outro sentido a não ser seguir em frente.
A pedra, em instantes, é retirada
Sozinho novamente me encontro
Tais palavras do homem pálido
Dilaceraram o meu ser
Minha mente se confunde.
NULLA SPES EST
Com a vista cansada e tomado pela confusão de sua mente esfarelada, Elísio segue em frente, passando diante de uma pedra entalhada que dizia NULLA SPES EST, mas não percebe tal aviso. O que o aguarda é o abismo, cuja profundidade alterna conforme o vazio de cada ser, e a única forma de sair é encontrar um propósito para a própria existência.
Caminho em direção ao abismo
Tão negro quanto a noite pode ser
Algo em mim indica perigo
Sinto que esta é a minha sina
Em um ímpeto, me lanço
Já não sinto mais a vida
A morte está a um palmo
Cada instante que despenco
Vejo boas memórias se esvaindo
Enquanto as cruéis me esfolam
Então, finalmente, ao fim, aproximo-me
Meu corpo é amortecido por flores,
Mas os espinhos penetram em minha pele
Perco os sentidos, a escuridão me domina
O que resta de mim?
Qual o meu propósito?
O vazio do abismo se equipara ao de minha alma
Surge uma luz. Há esperança?
Um homem com um lampião aproxima-se
Os espinhos parecem não incomodá-lo
Sua face se revela
Homem pálido!
Ajude-me!
A luz clareia o entorno
O que me espera se revela:
Um mar de rosas?
O pálido se dirige a mim:
"Caminho vil e atroz, deves seguir
Para que o abismo não se torne morada.
Vê o que te aguarda: se fraco continuares
Jamais sairás. É nisso que aposto. Irás falhar!"
Então, suplico a sua ajuda
Sou desprezado
O homem vai embora
A luz desaparece
Imóvel me encontro, os espinhos rasgam a minha carne
Sinto que não há mais o que lutar
Tento entender o motivo de tal crueldade
Os meus sentidos me sabotam!
O tempo passa sem pressa de se esgotar
Adormeço
Vejo uma figura feminina e um banquete
Me aproximo; ela estava em meu aguardo
Jamais vi tamanha beleza.
Sou tomado por desejos e me farto do banquete
Então, ela se aproxima e se entrega em meus braços
Sussurra em meu ouvido:
“Entregue-se ao prazer, você adora, aqui jamais faltará”
E quando estou entregue a ela,
A sua carne apodrece junto com o banquete
Acordo! Estou envolto por espinhos...
As palavras do homem pálido ecoam em minha mente
Sinto que o desejo de saciar minha carne me sabota A dor, aos poucos, começa a fazer sentido Começo a entender qual é o propósito de tal prova E então me recordo! Aquela sombra estranha!
Pego a foice, a qual recebi, e trilho o caminho
A dor é presente, mas, ao se aproximar do fim,
Percebo que a vaidade vai embora,
Junto com as gotas de suor e sangue!
Elísio segue em frente. A dor começa a educá-lo. Ao chegar no fim do mar de rosas, sente que seus desejos carnais desaparecem. Um pingo de esperança surge. Porém, o abismo continua, mas uma luz começa a surgir de Elísio;
Penoso caminho sigo
Uma luz surge em meu peito
Estranho conforto sinto
Deparo-me com um estranho labirinto!
LEVIS SEMITA-SEMITA LUCIS
Caminho até a entrada
A luz que surgira de meu peito ilumina apenas a um passo
Olho para as paredes; são escuras...
Reflito; um longo tempo aqui ficarei
O que me resta? Sigo em frente ou
atravesso o mar de rosas novamente?
Conforme me aprofundo no labirinto,
Vultos passam sobre minha cabeça
Decido não me distrair;
Minha presença se torna perceptível
Figuras demoníacas surgem!
Em desespero, fujo, mas acabo encurralado
Com gritos e ofensas, se dirigem a mim
A luz de meu peito enfraquece conforme se aproximam A escuridão toma conta novamente. Caio de joelhos Gritos e gargalhadas me ridicularizam. Vejo olhos vermelhos Parecem conhecer meus medos e fraquezas. Ávido me sinto
O desespero toma conta. Tento escapar
A força das criaturas cresce conforme fujo
Já não há mais força em minha alma
Os insultos caem sobre mim como chumbo,
Porém, começo a compreender
Que as criaturas ganham força
Conforme fujo da verdade
E a verdade é que sou fraco e ridículo!
Não cabe a mim ser mais do que isso,
Mas cabe entregar o meu espírito
Naquele que transcende meu ser
Decido que não irei fugir mais
Enfrento as criaturas, lembro-me da máscara que carrego
Aceito ser ridículo, visto a máscara, e o som dos guizos,
Faz com que as criaturas fujam perante minha presença
A luz que há pouco desapareceu voltara mais intensa
Sigo em frente até o fim do labirinto.
A esperança aumenta...
Um proposito surge para Elísio, mas ainda é necessário que negue o seu próprio entendimento para do abismo emergir.
PLURES FACIES
Em frente sigo, a esperança me sustenta
Tenho forças para enfrentar o que me espera
De repente, avisto um lampião quebrado,
Aquele que o pálido carregava
Não muito distante, o encontro
Silêncio nunca o acompanhava
Porém, agora, estava mudo
Espelhos cercam todo o arredor
Sinto novamente um pavor
Algo em mim se inquieta
Me aproximo do pálido
Os espelhos se viram em minha direção
O pálido desaparece
Então, decido confrontar a minha imagem
E o rosto do pálido é exatamente como o meu
Confusão toma minha mente novamente
O pálido, todo esse tempo... Era eu?
Aquele que me sabotava,
Era uma projeção de minha personalidade
Os espelhos se aproximam ainda mais
Cada reflexo demonstra minhas ações
Ira, luxúria, inveja, orgulho, vaidade, ambição e gula
O peso de meus atos caem sobre mim
Sou esmagado contra o chão
A culpa me estilhaça de dentro para fora
Então, olho para cima...
E vejo uma luz?
Se torna uma silhueta e me estende a mão
Levanto a mão e clamo por socorro
Toco na luz e me levanto
Na minha mão aparece o último artefato
Que a tempo havia recebido: um chicote com pregos
Parto para cima dos espelhos
E, a cada um que se quebra, algo se desprende de mim
Até que não sobra mais nada
Desmaio e caio sobre os cacos.
QUID EST VERITAS-EST VIR QUID ADEST
Acordo com o cantar dos pássaros, o que há muito tempo não ouvia Escuto a suave correnteza de um riacho; o chão está macio O abismo desapareceu, o Sol brilha e esquenta minha face Ao meu lado, sinto o aroma dos lírios; ali repousei pó 1r dias
Já encontrava-se em sossego, quando as três sombras de outrora aparecem. Unem-se e surge um ser angélico. Quando me apresso a falar, O olhar do anjo fala mais a mim do que mil gerações de poetas
Caminho com o anjo e avisto uma criança brincando com sua mãe
A paz surgia daquela criança, e a sua mãe, com manto azul da cor do céu
Olham para mim e me convidam a repousar junto deles
No horizonte, vejo uma multidão cantando e dançando
Encontrei a verdadeira paz.
Elísio encontra seu propósito em meio a árdua jornada que lhe foi confiada, agora encontra-se em profunda paz. A jornada chega ao fim.
Thoughts
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PermalinkPô, uma pedra parada no caminho de um homem, perguntando qual o propósito dela. Não tem como não lembrar do Drummond, no meio do caminho tinha uma pedra. Só que aqui a pedra fala, chora pelas fendas, e quem tira ela do caminho é justamente o pálido.
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PermalinkA pedra que pergunta pelo próprio propósito rouba a cena, dá vontade de ficar mais com ela. Em Renda ao Sol / Conto também há um homem estranho oferecendo uma peça que pesa sobre o corpo.
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PermalinkMeu, do pálido eu desconfiei desde o médico lá do começo, de rosto pálido e vista cansada. Quando os espelhos mostraram que era o próprio Elísio, a conta fechou pra mim.
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