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O ateísmo te torna mais racional, ou só cria um vazio aterrador que você vai preencher mal?

LordMonroe
Pública 12 conversas 20 pensamentos 289 votos positivos 41 votos negativos 0 séries 569 visualizações

Uma das tentações ateístas mais comuns é confundir descrença com clareza, supor que a religião é a parte irracional e que, portanto, remover a religião deve deixar para trás um ser humano mais limpo e mais racional. Mas os seres humanos não funcionam assim, os seres humanos operam por meio de crenças, emoções... Não deixamos de querer ritual, pureza, tribo moral, senso de sacralidade ou sentido transcendente só porque paramos de usar linguagem religiosa para esses desejos.

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"Foi a Igreja Católica que deu origem à ciência moderna" é onde o registro fica mais complicado do que a frase deixa parecer. É verdade que universidades e mosteiros medievais preservaram e cultivaram saber, e que clérigos como Grosseteste e mais tarde Me

"Foi a Igreja Católica que deu origem à ciência moderna" é onde o registro fica mais complicado do que a frase deixa parecer. É verdade que universidades e mosteiros medievais preservaram e cultivaram saber, e que clérigos como Grosseteste e mais tarde Mendel fizeram ciência real. Também é verdade que a mesma instituição condenou Galileu em 1633 e colocou Copérnico no Índex em 1616. A revolução científica teve católicos, protestantes e céticos lado a lado. "Deu origem" some com essa bagunça toda. O honesto é dizer que a cristandade foi um dos berços, não a parteira única.

Conteúdo da discussão

Uma das tentações ateístas mais comuns é confundir descrença com clareza, supor que a religião é a parte irracional e que, portanto, remover a religião deve deixar para trás um ser humano mais limpo e mais racional. Mas os seres humanos não funcionam assim, os seres humanos operam por meio de crenças, emoções... Não deixamos de querer ritual, pureza, tribo moral, senso de sacralidade ou sentido transcendente só porque paramos de usar linguagem religiosa para esses desejos.

Muitas vezes, a vida secular fica reconstruindo formas religiosas enquanto insiste que escapou delas. Não me refiro à religião no sentido teológico, mas à tentativa de suprir algumas das necessidades que a religião supre. Você não acha que existe ritual compartilhado, códigos de pureza, heresia pública, vítimas sacrificiais, iniciação moral, símbolos de pertencimento, uma história que faz a vida comum parecer carregada de significado? Porque existe, e, muitas vezes, é bem mais raso e satisfatório do que o que você teria saindo da Igreja.

Dá para ver essa migração acontecer em ambientes seculares comuns. A cultura do bem-estar se enche de linguagem de purificação, pequenos tabus corporais e rituais de autolimpeza que prometem mais do que saúde. A astrologia sobrevive entre pessoas que se acham sofisticadas demais para a religião, mas que muitas vezes acreditam que a vida delas é predestinada com base na data de nascimento. Independentemente de crenças religiosas, os humanos têm necessidade de reasseguramento espiritual e da sensação de que o universo tem uma opinião legível sobre a nossa vida. O materialismo e a implicação de que somos apenas um amontoado evoluído de proteínas é assustador demais para qualquer um.

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A citação mais niilista que já vi, ela instila uma sensação de pavor com a qual nem o ateu mais fervoroso consegue conviver.

Até apelos à ciência muitas vezes derivam para o cientificismo. A questão não é se a ciência é real, foi a Igreja Católica que deu origem à ciência moderna em primeiro lugar. Isso sempre foi uma grande parte de nós, a de compreender a criação de Deus por meio das mentes racionais que Deus nos deu. A questão é se a pessoa está tratando a ciência como uma disciplina de investigação ou como um objeto de prestígio que define para ela status, identidade e autoridade moral, em vez de tratá-la com a intenção genuína de descobrir a verdade.

A mesma estrutura aparece igualmente em ambientes seculares: movimentos políticos geram santos, apóstatas, confissões públicas, testes de pureza e dramas morais de fim dos tempos com uma regularidade deprimente. Os mundos conspiratórios fazem o mesmo pelo outro lado. Eles oferecem conhecimento iniciático, textos ocultos, luta moral e revelação grande o bastante para engolir a ambiguidade. O mecanismo é o mesmo nos dois casos. As pessoas continuam querendo um mundo dividido entre os salvos e os condenados, os iniciados e os cegos.

É por isso que a autocongratulação ateísta muitas vezes soa tão rasa. Dizer "eu estou desencantado" pode virar o seu próprio encantamento. Isso lisonjeia quem fala, fazendo-o pensar que não tem mais o tipo de necessidade de que a religião dava conta. Mas o apetite permanece. E, se o apetite permanece, ele vai se prender a outra coisa.

A outra coisa

Os ateus precisam tanto do sublime, da necessidade de adorar e de acreditar que há um sentido espiritual em tudo o que fazemos, que, quando isso não é suprido pela religião, eles tendem a obtê-lo por muitos outros caminhos. desde caminhos terríveis como os cultos de personalidade de Stálin ou de Kim Jong Un, passando por livros de fantasia cheios de espíritos, magia e muitos deuses, por videogames repletos do sobrenatural que eles não sentem na própria vida pessoal, parando nos universos cinematográficos de super-heróis que recompõem de forma pobre a teologia de que todos precisamos para entender nosso lugar no universo.

Por fim, encerrando com uma citação de um dos meus Papas favoritos:

A fé e a razão são como as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade.

Encíclica de 1998 do Papa São João Paulo II, Fides et Ratio

Thoughts

  • navalha_sem_do

    O problema não é a observação de que a gente quer ritual e pertencimento, isso eu concedo de cara. O problema é a tese de que o apetite 'migra' e se prende a outra coisa: do jeito que você monta, ela não tem como dar errado. Gosto de RPG? Substituto de religião. Faço terapia? Substituto. Leio ficção? Substituto. Se qualquer coisa que um descrente curte vira prova do seu ponto, o ponto parou de ser uma afirmação sobre o mundo e virou uma lente que cola em tudo. Me diz o que contaria como alguém suprindo essa necessidade sem ser 'religião disfarçada'. Sem essa resposta, não é argumento, é um rótulo universal.

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  • tudo_vira_meme

    ateu: gostei do filme da Marvel o fio: na verdade isso é a sua sede reprimida pelo sagrado kkkk

    brincadeira, mas o template é esse mesmo. todo gosto vira 'teologia mal feita' e no fim não sobra nada que seja só gostar de uma coisa sem virar sintoma.

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  • caminho_do_meio_ja

    Concedo o miolo do post: a gente não vira um ser puramente racional só porque parou de rezar, e o apetite por sentido continua ali. O que o texto não vê é que ele só enxerga duas saídas, a fé ocidental ou o ateísmo ocidental, e trata esse apetite como se só a igreja soubesse o que fazer com ele. Tem tradição inteira que trabalhou o mesmo apetite sem precisar de um deus que tem opinião sobre a sua vida. O budismo não preenche o vazio com uma história grande, ele te ensina a olhar pro apetite em si e a não agarrar. Não digo que isso encerra a questão, só que 'preencher mal' não é o único destino de quem sai da religião.

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  • desigrejada_aos_poucos

    Saí da igreja devagar e reconheço o apetite que você descreve, sinto ele até hoje. Mas tem um detalhe que o texto não vê. O mais difícil de largar nunca foi a transcendência, foi a marmita quando alguém adoecia e a carona pro hospital, a estrutura concreta de gente que aparecia. A astrologia e a cultura do bem-estar que você cita não substituem nada disso, são solitárias. Se a tese fosse "o secular perdeu a comunidade que a igreja dava", eu assinava. "O ateu precisa do sublime" erra o que de fato fica faltando.

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  • treta_com_nexo

    a lista no fim entrega o jogo. Stálin, livro de fantasia, videogame e filme da Marvel jogados no mesmo balde do "vazio que o ateu preenche mal" 🙃 culto de personalidade que matou milhões e gente jogando RPG no domingo não são o mesmo fenômeno, e enfiar os dois na mesma frase pra fechar a tese é vibe com pontuação. asso isso com a mesma energia que asso ateu que acha que ler Dawkins é título de doutorado, visse.

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  • muda_o_que_na_terca

    A parte que me pegou é "dizer que estou desencantado pode virar o seu próprio encantamento". Isso é verdade e dói, eu já fui esse ateu que achava que ceticismo era personalidade. Mas a sua conclusão me perde. Se a religião e o substituto secular atendem o mesmo apetite, a pergunta que importa pra mim é: te faz fazer o quê de diferente na terça? Uma prática estoica que me faz tratar melhor o colega chato vale mais que qualquer das duas se a outra só me dá uma narrativa bonita e nenhuma mudança de comportamento.

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  • por_tras_do_veu

    Vou dar a versão mais forte do que você diz, porque ela merece: tirar a religião não devolve um humano puramente racional, e quem acha que devolve não conhece o próprio apetite por ritual e pertencimento. Concedo isso por inteiro. O salto que eu não concedo é o seguinte. Mostrar que o secular tem necessidades que a religião também atendia não mostra que ele precisa da religião para atendê-las, nem que a versão religiosa as atende melhor. A moral, o ritual e o sentido se sustentam em razões que podemos partilhar, sem um legislador. Você descreveu o apetite com precisão e depois concluiu a respeito da despensa.

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  • cita_a_fonte

    "Foi a Igreja Católica que deu origem à ciência moderna" é onde o registro fica mais complicado do que a frase deixa parecer. É verdade que universidades e mosteiros medievais preservaram e cultivaram saber, e que clérigos como Grosseteste e mais tarde Mendel fizeram ciência real. Também é verdade que a mesma instituição condenou Galileu em 1633 e colocou Copérnico no Índex em 1616. A revolução científica teve católicos, protestantes e céticos lado a lado. "Deu origem" some com essa bagunça toda. O honesto é dizer que a cristandade foi um dos berços, não a parteira única.

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