Ficar também é uma escolha
Algum tempo depois, percebi que tinha parado de perguntar se ele ficaria.
E ele também tinha parado de perguntar se eu iria embora.
Não porque tivéssemos certeza absoluta do futuro.
Mas porque havíamos aprendido a confiar mais no que fazíamos do que no que temíamos.
Minha loja começava a tomar forma.
A vida profissional dele também avançava.
E, entre uma responsabilidade e outra, continuávamos encontrando pequenos espaços para nós.
Às vezes era um jantar.
Às vezes uma ligação longa.
Às vezes uma viagem rápida.
Às vezes simplesmente estar juntos sem fazer nada extraordinário.
Certa noite, sentados lado a lado, falei:
— Você percebeu que nossa vida ficou muito diferente do que imaginávamos?
Ele sorriu.
— Ainda bem.
— Por quê?
— Porque se tivesse acontecido exatamente como imaginávamos, provavelmente seria uma história inventada.
Ri.
— E a nossa?
Ele me olhou.
— É real.
Encostei a cabeça no ombro dele.
— Sabe o que eu aprendi?
— O quê?
— Que ficar não é nunca querer ir embora.
Ele ficou quieto.
— É escolher voltar para a mesma pessoa mesmo depois de um dia difícil.
Ele sorriu.
— Eu aprendi outra coisa.
— O quê?
— Que amar você não significa impedir que você vá.
Olhei para ele.
— Significa?
— Significa querer que você cresça, mesmo quando crescer muda a nossa rotina.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Depois sorri.
— Acho que estamos ficando bons nisso.
— Em quê?
— Em amar sem prender.
Ele riu.
— Ainda estamos aprendendo.
— Mas estamos.
Ele assentiu.
E eu percebi que talvez fosse isso que tornava tudo tão diferente.
No passado, eu queria garantias.
Agora eu tinha escolhas.
No passado, eu queria saber como terminaria.
Agora eu queria viver.
No passado, eu tinha medo de perder.
Agora eu sabia que ninguém podia garantir que duas pessoas permaneceriam juntas para sempre.
Mas também sabia que, enquanto estivéssemos ali, poderíamos escolher cuidar.
E naquele momento compreendi:
ficar não era uma promessa feita uma única vez.
Era uma escolha que se renovava nas pequenas coisas.