A nossa primeira semana juntos - versão dela
A NOSSA PRIMEIRA SEMANA JUNTOS
Entender o passado não fez com que o agora mudasse completamente.
A conversa daquela noite colocou algumas coisas no lugar, trouxe respostas que eu esperei por muitos anos e, de alguma maneira, fechou feridas que eu já nem sabia se ainda estavam abertas. Mas também me mostrou que compreender o que aconteceu não significava saber o que fazer com aquilo que estava acontecendo agora.
Uma conversa não apagava quinze anos.
Um beijo não transformava duas pessoas em desconhecidas que, de repente, sabiam tudo uma sobre a outra.
Ele tinha voltado para a minha vida depois de quinze anos.
E eu ainda precisava descobrir quem ele era.
Talvez essa fosse a parte mais assustadora.
Durante muito tempo, eu conheci o garoto que tinha ficado guardado nas minhas lembranças. Aquele que eu amei aos dezessete anos, aquele que me fez imaginar possibilidades que nunca chegaram a existir.
Mas o homem que estava diante de mim agora carregava uma vida inteira que eu não tinha acompanhado.
E eu também.
Havia uma versão de mim que ele não conhecia.
Uma mulher que passou por perdas, escolhas, erros, recomeços e descobertas. Uma mulher que aprendeu a se posicionar, a reconhecer o próprio valor e, principalmente, a não entregar o coração apenas porque alguém voltou.
Por isso, naquela primeira semana, eu tentei não correr.
Eu queria aproveitar cada momento, mas sem transformar cada mensagem em uma promessa.
E talvez tenha sido justamente por isso que aqueles dias pareceram tão especiais.
Ele aparecia.
Todos os dias.
Às vezes, uma mensagem simples durante a manhã.
Às vezes, uma conversa que começava sem assunto e terminava muito depois do que deveria.
Outras vezes, ele encontrava uma maneira de me ver por alguns minutos na academia, ou aparecia para me buscar no trabalho.
Nada grandioso.
Nada que pudesse ser contado como uma grande declaração.
E talvez fossem justamente aquelas pequenas coisas que estavam começando a me convencer de que aquilo não era apenas uma lembrança voltando à vida.
Era o presente acontecendo.
Eu observava cada detalhe.
Não porque estivesse procurando motivos para desconfiar, mas porque ainda estava tentando entender.
Ele continuava tendo alguns gestos que pareciam familiares, pequenas maneiras de falar ou de sorrir que me levavam imediatamente aos dezessete anos.
Mas havia algo diferente.
Ele parecia mais cuidadoso.
Mais atento.
Mais disposto a ouvir.
E isso me confundia.
Porque uma parte de mim queria acreditar que sempre existira aquele homem escondido dentro do garoto que eu conheci.
Outra parte sabia que não.
Ele havia vivido.
Eu havia vivido.
Nós dois éramos resultado de tudo aquilo que aconteceu enquanto estivemos longe um do outro.
E talvez fosse exatamente isso que tornasse aquele reencontro tão diferente.
Eu não estava voltando para o passado.
Estava encontrando alguém que fazia parte dele.
Durante aquela semana, descobri coisas simples.
Descobri que ele tinha mudado alguns hábitos.
Que havia coisas que antes gostava e já não faziam tanto sentido.
Que algumas opiniões tinham amadurecido.
Que ele carregava preocupações que eu jamais poderia imaginar aos dezessete anos.
E, ao mesmo tempo, percebi que ele também estava descobrindo coisas sobre mim.
Ele não conhecia minhas pequenas manias.
Não sabia de algumas das coisas que me faziam rir.
Não conhecia completamente meus medos.
Não sabia quais assuntos eu evitava, quais lembranças ainda me tocavam e quais sonhos eu tinha construído ao longo dos anos.
Era estranho perceber isso.
Nós tínhamos uma história enorme.
Mas, de certa forma, ainda éramos desconhecidos.
E eu gostava disso.
Gostava da ideia de que não precisaríamos fingir que sabíamos tudo um sobre o outro apenas porque um dia havíamos nos amado.
Havia liberdade naquela descoberta.
Não precisávamos completar as lacunas com imaginação.
Podíamos perguntar.
Podíamos ouvir.
Podíamos simplesmente deixar que o tempo mostrasse.
À noite, quando eu ficava sozinha, porém, os pensamentos voltavam.
Eu me perguntava se aquilo duraria.
Se ele realmente queria conhecer a mulher que eu era ou se, em algum momento, perceberia que estava apenas tentando reencontrar uma parte da própria juventude.
Também me perguntava sobre mim.
Será que eu estava apaixonada por ele?
Ou pela possibilidade de finalmente viver aquilo que um dia não conseguimos viver?
Talvez ainda não houvesse resposta.
E, pela primeira vez, eu não sentia necessidade de encontrá-la imediatamente.
Eu estava aprendendo a não transformar sentimentos em decisões antes da hora.
A primeira semana não me deu certezas.
Deu-me pequenas provas.
Uma mensagem.
Uma conversa.
Um encontro rápido.
Uma risada.
Uma pergunta sobre o meu dia.
A maneira como ele parecia querer saber o que eu pensava antes de simplesmente presumir.
E cada uma dessas coisas dizia um pouco mais do que qualquer promessa poderia dizer.
Foi então que percebi uma coisa:
eu não precisava descobrir naquela semana se ele seria o homem da minha vida.
Precisava apenas descobrir se queria continuar conhecendo aquele homem.
E a resposta, apesar de ainda me assustar, começava a ser sim.
Porque um final de semana não seria suficiente.
Uma semana também não.
Talvez nem meses fossem.
Depois de quinze anos separados, não fazia sentido querer conhecer tudo em poucos dias.
Nós tínhamos duas vidas inteiras para contar.
Duas histórias para compartilhar.
Duas versões de nós mesmos que precisavam aprender a existir no mesmo presente.
E talvez o verdadeiro começo não tivesse acontecido naquela noite no parque.
Talvez tivesse acontecido naquela primeira semana.
Quando o encanto do reencontro começou a dar lugar às coisas simples.
Quando deixamos de falar apenas sobre o que fomos e começamos, aos poucos, a descobrir quem éramos.
Eu ainda tinha medo.
Ainda existiam perguntas.
Ainda existiam alguns “e se?” escondidos dentro de mim.
Mas havia uma diferença.
Dessa vez, eu não queria viver de perguntas.
Queria descobrir as respostas vivendo.
E, pela primeira vez em muitos anos, eu não estava tentando imaginar como teria sido a nossa história.
Eu estava começando a descobrir como ela poderia ser.