Capítulo 3 — Quando os olhos se encontram
Às 18h30, ela chegou à academia.
E, como se o destino tivesse decidido não lhe dar sequer alguns minutos para se preparar emocionalmente, ele já estava lá.
Estava terminando o treino.
Por um instante, ela parou.
Não esperava encontrá-lo tão cedo.
Guardou suas coisas no armário e tentou agir naturalmente. Como se aquele homem não tivesse acabado de atravessar quinze anos de sua história com algumas mensagens.
Como se naquela noite eles fossem apenas duas pessoas indo treinar.
Ela estava se preparando quando percebeu que ele se aproximava.
— Eu já terminei meu treino por hoje. Volto para te buscar daqui a uma hora.
Ela apenas olhou para ele e assentiu.
Não confiava na própria voz.
Então ele se afastou.
E ela começou o treino habitual daquele dia.
Tentou não pensar.
Não criar expectativas.
Não imaginar como seria a conversa.
Não pensar no que poderia acontecer depois.
A esteira começou a marcar o ritmo.
Os equipamentos ocupavam sua atenção.
O esforço físico ajudava a silenciar a mente.
Ou pelo menos por alguns minutos.
Ela precisava daquela concentração.
Porque, quando a mente ficava livre, ele voltava.
A mensagem.
O convite.
O encontro.
A pergunta que ainda permanecia sem resposta:
Por que agora?
O tempo passou mais rápido do que ela esperava.
Até que, faltando apenas dez minutos para o horário combinado, percebeu uma coisa que a fez sorrir consigo mesma.
Estava completamente suada depois do treino.
— Ainda bem que aqui tem chuveiro — pensou.
Terminou o exercício rapidamente e foi tomar um banho.
Na mochila, como sempre, havia uma roupa reserva.
Uma pequena casualidade que, naquela noite, parecia providencial.
Depois de se arrumar, pegou o perfume.
Por um instante, lembrou da menina de dezessete anos.
Naquela época, gostava de perfumes marcantes.
Gostava de chegar deixando sua presença no ambiente.
Mas aquela mulher havia mudado.
Escolheu uma fragrância mais suave.
Não precisava mais anunciar sua chegada.
Quem realmente quisesse estar perto precisaria se aproximar.
Ela terminou de se arrumar e desceu as escadas.
E ele estava lá.
Esperando.
Por um instante, a mulher de trinta e dois anos desapareceu.
E a menina de dezessete quis voltar.
Aquela menina teria corrido até ele.
Teria esquecido todos os anos de distância.
Teria deixado o passado falar mais alto.
Mas ela respirou fundo.
Desceu devagar.
Não era mais aquela garota.
No último degrau, porém, o destino resolveu lhe pregar uma peça.
Seu pé se desequilibrou.
Por um segundo, achou que cairia.
Mas ele a segurou a tempo.
O susto fez os dois ficarem em silêncio por alguns instantes.
Ela se recompôs, ajeitando o cabelo ainda úmido.
Ele sorriu.
— Você continua um pouco estabanada.
Ela soltou uma pequena risada.
— Realmente ainda não entendo por que fazem academia no segundo andar.
A tensão diminuiu.
Era uma brincadeira simples.
Mas os dois perceberam que, apesar dos quinze anos, algumas coisas continuavam familiares.
Ele então perguntou:
— Então, para onde você quer ir?
Ela ficou surpresa.
Não havia pensado nisso.
Na verdade, imaginara que ele já teria escolhido o lugar.
Mas ele estava perguntando a ela.
O que ela queria?
Para onde queria ir?
Aquilo parecia pequeno.
Mas significava muito.
Durante tanto tempo, ela havia sentido que precisava esperar pelas escolhas dele.
Agora ele estava diante dela perguntando pela escolha dela.
— Podemos ir ao parque da cidade — respondeu.
Ele concordou.
E os dois seguiram para o carro.
Quando entraram, o silêncio tomou conta do espaço.
Não era um silêncio desconfortável.
Era um silêncio cheio de coisas não ditas.
Quinze anos cabiam dentro daquele silêncio.
Eles trocavam olhares rápidos.
Um sorriso surgia aqui.
Outro desaparecia ali.
Nenhum dos dois parecia saber exatamente por onde começar.
Até que ele quebrou o silêncio.
— Você ainda gosta de sertanejo?
Ela olhou para ele, surpresa.
Ele ainda lembrava.
Depois de tantos anos, ainda lembrava de uma coisa tão simples.
— Você ainda lembra do que eu gostava de ouvir?
Ele sorriu.
E colocou uma música no som do carro.
Ela olhou pela janela.
Mas seus pensamentos estavam muito longe dali.
Ele lembra.
Aquela pequena lembrança dizia mais do que parecia.
Ele não havia perguntado apenas qual música ela queria ouvir.
Havia perguntado sobre algo que fazia parte dela.
E, naquele momento, ela percebeu uma diferença importante.
Naquela noite, ele não havia decidido tudo sozinho.
Não escolheu o lugar.
Não escolheu a música sem perguntar.
Não conduziu o encontro como se soubesse exatamente o que ela queria.
Pela primeira vez, depois de tantos anos, ele havia perguntado.
O que você quer?
E talvez fosse justamente isso que mais mexia com ela.
Não era apenas o reencontro com aquele homem.
Era o encontro com uma versão diferente dele.
Uma versão que ela ainda não conhecia.
E, enquanto o carro seguia em direção ao parque, ela percebeu que talvez aquela noite não fosse sobre descobrir se ainda existia um sentimento.
Talvez fosse sobre descobrir quem eles eram agora.
Sem os dezessete anos.
Sem as mágoas antigas.
Sem as escolhas que não poderiam mais ser desfeitas.
Apenas duas pessoas diante de uma história que ainda precisava ser contada.