Minha sogra pega o Caio na escola às onze e fica com ele até eu chegar, sete da noite. Segunda a sexta, há dois anos, sem receber nada. Mora em Casa Amarela, a dez minutos da escola. Creche integral aqui custa mais do que sobra do salário depois do aluguel, e a fila da municipal não anda.
A regra lá em casa é uma: nada de doce depois das quatro. Não é alergia nem nada de médico, é que ele janta se não tiver comido bolo às cinco. Toda tarde tem bolo às cinco. Às vezes tem pudim de leite. Já mandei fruta na mochila; volta na mochila.
Ela não faz por afronta. Criou três filhos do mesmo jeito, um deles o meu marido, e os três comem de tudo. Aos sessenta e oito anos ela acorda às seis por causa do meu filho, e acha esquisito que a mulher que passa o dia no escritório diga o que se serve na cozinha dela. Do lugar dela, isso é auditoria, não é conversa.
Meu marido já falou com ela duas vezes, a meu pedido. Segurou duas semanas cada vez. Ele foi criado assim e não vê problema, então pedir uma terceira é me botar contra os dois. Adiantar o jantar também não resolve, eu chego às sete.
A mesma mulher que me devolve o meu dia de trabalho é a que ensina ao Caio, aos cinco anos, que regra de mãe termina no portão da escola.
Falar arrisca a única coisa que faz a minha semana fechar, e calar entrega a regra de vez, com a birra das oito continuando minha.
Você falaria com ela, ou deixaria como está?