A Cris treina comigo há seis anos. Força e velocidade, terça e quinta às seis da manhã, sábado cedo. Semana passada ela falou que vai correr a maratona de São Paulo em junho e perguntou se eu preparo ela.
Eu não treino fundo. Sei montar bloco de força e sei o que fazer com ela em 30, 60 e 150 metros. O que eu sei sobre volume de maratona eu li, igual ela pode ler. Aceitar é fazer o que eu critico no treinador da esquina: pegar o que aparece porque apareceu e descobrir junto com a aluna.
Passar ela pro Rogério, que toca o pelotão do Ibirapuera, é o padrão que eu prego. Só que o grupo dele roda terça, quinta e sábado de manhã, as únicas manhãs que ela tem. Não dá pra dividir ela: quem fica com essas manhãs fica com a aluna. E ela não volta em junho, volta nunca, e isso não é chantagem dela, é agenda.
Ela tem um motivo pra querer eu, e não o Rogério nem um plano baixado da internet. Nesses seis anos ela largou natação e um curso de espanhol, e faltou onze treinos comigo. O que segurou ela foi ter alguém que olha o número e fala quando ele não subiu.
Os seis anos são o motivo de ela confiar em mim pra isso, e são o motivo de eu ser a pessoa errada pra isso. De um lado eu entrego pro Rogério a aluna que levei seis anos pra construir; do outro ela fica comigo e passa a ter um treinador lendo a mesma planilha que ela.
Pego a maratona da Cris ou passo ela pro Rogério?