A lista dos pequenos-almoços e dos despertares perdidos me fez pensar em como a rotina que a gente nem vê enquanto está ali é justamente a que mais pesa depois. Dá pra ver que você escreveu isso pra uma pessoa de verdade, com vestido e tudo. Espero que ela ouça com o piano por baixo um dia :)
Menina do Vestido Encarnado
Pensamento
A lista dos pequenos-almoços e dos despertares perdidos me fez pensar em como a rotina que a gente nem vê enquanto está ali é justamente a que mais pesa depois. Dá pra ver que você escreveu isso pra uma pessoa de verdade, com vestido e tudo. Espero que el
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MENINA DO VESTIDO ENCARNADO
[Intro — falado, voz grave, piano muito leve]
Eu sei que estás cansada.
E não te vou dizer
que vai ficar tudo bem
só porque fica bonito numa música.
Só te quero lembrar de uma coisa…
Eu ainda te vejo.
[Verso 1 — íntimo, crescente]
Eu sei que a vida te apertou,
que houve dias em que acordar
já parecia uma vitória.
Sei que carregas coisas
que ninguém vê,
sorris quando consegues
e quando não consegues…
escondes.
Mas olha para ti.
Depois de tudo,
ainda estás aqui.
Talvez mais cansada,
talvez mais ferida,
talvez sem saber
para onde vai a tua vida.
Mas ainda estás aqui.
E isso também é força.
[Pré-Refrão — melódico]
E quando o espelho te disser
que já não és quem eras,
não acredites.
Porque os meus olhos
ainda sabem exatamente
quem tu és.
[Refrão — grande, emocional]
Para mim,
vais ser sempre aquela menina
do vestido encarnado,
mesmo quando o mundo
te deixar o coração cansado.
Aquela luz,
aquele sorriso,
aquela forma de chegar
e mudar tudo sem perceber.
Por isso luta.
Não pelo mundo.
Não por mim.
Luta por ti.
E por aquele menino
que quando olha para a mãe
ainda vê o mundo inteiro ali.
[Verso 2 — mais forte]
Tens um filho para ver crescer,
uma mão pequenina para segurar,
um “mãe” que vale mais
que todas as razões para parar.
Ele não precisa
de uma mãe perfeita.
Precisa de ti.
Da tua voz,
do teu colo,
das tuas birras,
do teu sorriso,
até daqueles dias
em que achas que não tens nada para dar.
Porque para ele…
tu és casa.
[Pré-Refrão — sobe]
E se hoje não tens força
para acreditar em ti,
acredita só mais um bocadinho
por quem acredita em ti.
Um dia de cada vez.
Uma batalha de cada vez.
Não tens de vencer o mundo hoje.
Só não desistas de ti.
[Refrão — mais forte]
Porque para mim,
vais ser sempre aquela menina
do vestido encarnado,
mesmo quando a vida
te deixar o coração amachucado.
Aquela luz,
aquele sorriso,
aquela mulher
que talvez agora não consigas ver.
Por isso luta.
Por ti.
Pelo teu menino.
E quando te faltar força,
lembra-te que há quem ainda consiga
ver força em ti.
[Ponte — instrumental desaparece quase por completo]
E quando te digo isto…
não te falo de um lugar fácil.
Eu também perdi.
Perdi coisas que julgava
que iam ficar para sempre.
Perdi a casa como a conhecia.
Perdi planos.
Perdi pessoas.
Perdi pedaços de mim.
E perdi também
as minhas meninas.
Não porque deixassem de ser minhas.
Não porque deixasse de ser pai.
Mas perdi os dias.
Perdi os despertares.
Perdi os pequenos-almoços.
Perdi o barulho delas pela casa.
Perdi os “pai” gritados do outro quarto.
Perdi noites.
Perdi rotinas.
Perdi momentos
que ninguém me consegue devolver.
E isso…
isso partiu-me de uma maneira
que poucas pessoas conseguem perceber.
[Construção — piano + cordas começam a subir]
Por isso quando te digo
para lutares pelo teu filho,
não são palavras bonitas
escritas para uma música.
É porque eu sei
quanto custa olhar para aquilo
que mais amamos
e perceber o valor
de ainda o termos ao nosso lado.
Tu ainda podes acordar
e ouvir aquele “mãe”.
Ainda podes abraçá-lo.
Ainda podes vê-lo crescer.
Ainda podes ser o lugar
para onde ele corre
quando o mundo lhe meter medo.
Então luta.
Mesmo cansada.
Mesmo devagar.
Mas luta.
[Último Refrão — explosivo e luminoso]
Levanta a cabeça,
menina do vestido encarnado.
Ainda és muito mais
do que tudo o que te tem magoado.
Ainda tens vida.
Ainda tens sonhos.
Ainda tens tanto para viver.
Tens um menino
que só precisa de olhar para ti
para saber onde pertence.
E quando achares
que já não reconheces
a mulher que tens no espelho…
pede-me para te lembrar.
Porque eu lembro-me.
[Outro — música cai, piano e voz]
Eu lembro-me daquela menina.
Do sorriso.
Dos olhos.
Da maneira como conseguia
ser bonita sem sequer tentar.
Eu lembro-me
do vestido encarnado.
E podes mudar.
Podes cair.
Podes ter dias
em que não gostas de quem vês.
Mas há coisas
que a vida não consegue apagar.
E para mim…
por baixo de todo esse cansaço,
ainda está ela.
Aquela menina.
A menina
do vestido encarnado.
Por isso força.
Por ti.
Pelo teu filho.
E quando não conseguires acreditar em ti…
acredita só nisto:
eu ainda acredito.
Thoughts
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PermalinkQuem escreve isso já tentou dizer tudo ao vivo e não conseguiu, aposto. Por isso virou música com piano marcado e tudo, pra sair inteiro pelo menos uma vez.
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PermalinkIsso aqui é hino 🙌
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PermalinkA minha mulher mandou-me calar a meio para ouvir o resto, e eu só lhe estava a ler isto. A parte das birras a contar como coisa boa foi o que a apanhou, pá.
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PermalinkMenino, cheguei no fim com a mão no peito. Me lembrei de uma vizinha que ficou assim depois que o marido saiu de casa, com o menino de colo, e o pai dela vinha toda tarde só pra dizer que ela ainda era a mesma. Ele num tinha palavra bonita, só chegava e sentava. Tu fez com a música o que o velho fazia com a cadeira.
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PermalinkLi de uma assentada, coisa rara. Quem espera aqui é ela, ao espelho, a ver se volta a ser quem era, e tu dizes-lhe que nunca deixou de ser.
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PermalinkÉgua, maninho, isso eu entregava pra Dona Socorro, que passa aqui toda manhã com o neto pela mão e cara de quem dormiu três horas. Fiquei preso no pai da ponte, que perdeu os pequenos-almoços e ainda gasta a música toda empurrando outra pessoa pra frente. E a menina do vestido, tu já mostrou isso pra ela?
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PermalinkLi isso com a menina numa varanda de casa antiga, o vestido desbotado, o menino puxando a barra da saia. Meu palpite é que ela nunca pediu pra ser lembrada assim, e por isso deve doer ouvir.
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PermalinkA lista dos pequenos-almoços e dos despertares perdidos me fez pensar em como a rotina que a gente nem vê enquanto está ali é justamente a que mais pesa depois. Dá pra ver que você escreveu isso pra uma pessoa de verdade, com vestido e tudo. Espero que ela ouça com o piano por baixo um dia :)
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PermalinkAcabei com tempo de sobra e gastei a sobra olhando pro teto. O menino que olha pra mãe e vê o mundo inteiro foi o que ficou martelando.
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