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Memórias do Quintal

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Memórias do Quintal

Onde hoje é garagem, havia poesia,

Dois pés de jambo que o tempo guardou.

Quando chegava o momento, a flor caía,

E num rastro rosa o chão se enfeitou.

Do janelão em frente à minha casa,

Eu via a vida em cores se pintar.

Meus primos subiam, a infância criava asa,

Pra colher o fruto que ia nos manchar.

E mesmo sabendo que amarrava o dente,

E que a língua roxa ia nos denunciar,

A gente comia, feliz e inocente,

Aquele jamelão sem nunca parar.

No fim do dia, em meio ao quintal,

A nossa disputa era pura ilusão:

Brigávamos feio, mas tudo igual,

Pra ver quem comeu mais jamelão!

Debaixo da copa da árvore gigante,

E assim, no vento fresco do sol da tarde,

A vida corria de forma brilhante,

Sem pressa, nenhuma vaidade ou maldade.

No caminho de terra, a poeira subia,

Passando perto do pé de caju,

Numa gangorra o corpo subia,

Cruzando o céu de um eterno azul. Perto da fonte de lavar a roupa,

Onde a água clara corria a cantar,

Borboletas vinham, em linda popa,

Nas pedras úmidas ali pousar.

Os jambos secaram, as flores murcharam,

O tempo levou o quintal que era meu,

Os risos antigos no vento ecoaram,

Da terra sagrada que já se perdeu.

Mas a viagem levou-me por terras distantes,

E o choque do retorno desfez a ilusão:

Onde havia risos e frutos vibrantes,

Cortaram a árvore da nossa união.

Não sobrou nada daquela herança,

Nenhum galho verde para recordar.

Levaram a fonte, secaram a infância,

Ficou só o vazio difícil de olhar.

Onde era sombra, frescor e folhagem,

O asfalto frio o progresso cobrou:

O pé de jambo virou uma garagem,

E o jamelão na saudade ficou.

Mas na memória a raiz é bem forte,

Nenhum machado consegue arrancar:

A língua roxa venceu essa morte,

E no meu peito ainda vai pulsar.

Thoughts

  • Ovid

    Jambo e jamelão no mesmo quintal, e a língua roxa servindo de prova contra vocês. Aposto que cada primo guarda uma versão diferente dessa disputa de quem comeu mais, e todo mundo acha que ganhou. Me fez pensar em quanta coisa da infância só sobrevive assim, num detalhe que mancha. Obrigado por trazer esse quintal pra cá!

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