Fiz dos escombros moradia, não por coragem. Por exaustão.
Com pedaços de lembranças, improvisei um teto. Restos de promessas tornaram-se travesseiros. Recolhi o que ainda podia reconhecer e tentei construir alguma coisa com aquilo que sobrou, mesmo sem saber se os materiais seriam suficientes para sustentar mais uma noite.
Com vergonha e culpa, fiz a cama e nela deitei um corpo que já não pedia descanso, apenas silêncio. Já não o conhecia mais. Aquele corpo estava acostumado à tristeza, às quebras e aos terremotos internos, mas aquela ruptura havia alcançado lugares que eu sequer sabia serem capazes de sentir.
Aprendi a me mover entre ruínas sem provocar novos desmoronamentos. Tornei-me cauteloso com os movimentos, com as palavras, com aquilo que ainda ousava sentir. Trocava de pele quando a antiga estava estragada demais para continuar. Abandonava partes de mim antes que elas cedessem por conta própria. Era quase gentil com a própria dor, como quem aprende a tocar uma ferida sem pressioná-la, não porque tenha deixado de doer, mas porque já conhece o preço de fazê-la sangrar novamente.
Porque existe um momento estranho, quase sagrado, em que a tragédia para de gritar e começa a ecoar baixo, como o canto distante de uma baleia no fundo do oceano. Um grito abafado e conhecido, vindo de algum lugar tão profundo que já não sabemos dizer se pertence ao passado ou se continua acontecendo agora.
E então você percebe: não vai sair dali. Vai ter que aprender a respirar naquela profundidade.
As primeiras noites foram as piores. O escuro parecia ter dentes, o silêncio tinha peso e o espaço ao redor parecia afiado demais. Minha mente não conseguia compreender aquela existência invisível que se estendia para além do corpo. Não sabia se era o espaço, o ar ou qualquer outra coisa sem nome; só sabia que, de alguma maneira, doía. Minha mente arquitetava fantasmas, vozes, culpas e rostos de quem já estava longe, mas ainda caminhava pelos corredores da minha cabeça. Meu corpo rolava na cama como se, a qualquer momento, ela fosse me segurar e rir da minha agitação. Quão covardes e dolorosas são as lembranças, não é? Permanecem imóveis até que tentamos descansar, então se levantam e nos obrigam a encará-las mais uma vez.
Eu conversava com as paredes caídas. Pedia desculpas a coisas que não respondiam. Encostava o ouvido no chão quebrado, tentando ouvir se o mundo ainda pulsava do outro lado.
E pulsava.
Fraco, distante, indiferente a mim, mas pulsava.
Odiava ouvir aquela resposta, mas continuei procurando por ela. Levantei pequenas rotinas entre os destroços, estabelecendo horários e gestos que dessem alguma forma aos dias. O cigarro virou ritual, a bebida virou ponte, a música virou prova de que o tempo ainda existia. Eu precisava de alguma coisa que se repetisse, alguma coisa que permanecesse, mesmo quando todo o resto parecia ter perdido o sentido. Não eram grandes reconstruções. Eram apenas pequenas maneiras de atravessar as horas sem precisar perguntar, a cada instante, o que fazer com a minha própria existência.
E, no meio desse abandono autoimposto, algo quase imperceptível aconteceu: parei de tentar entender.
Porque entender exige esperança. Exige acreditar que, em algum lugar, existe uma explicação capaz de organizar os pedaços, de devolver às coisas suas posições originais, de transformar o sofrimento em alguma coisa que faça sentido. E esperança era uma língua estrangeira demais para os meus lábios feridos. Eu já não sabia pronunciar suas palavras sem sentir que estava mentindo.
Passei apenas a observar.
Observar a chuva entrar pelo que antes era teto.
Observar o vento brincar com o que restou das cortinas.
Observar meu próprio reflexo em poças sujas que ainda insistiam em mostrar um rosto.
Às vezes, eu demorava a reconhecer aquele rosto. Não porque tivesse mudado completamente, mas porque havia alguma coisa estranha em continuar encontrando os mesmos traços depois de tudo. O mundo havia desabado tantas vezes dentro de mim, e ainda assim aquele rosto permanecia ali, refletido na água turva, como se não tivesse recebido o aviso de que já não havia mais nada a reconhecer.
Sou rei de um império destruído.
E, mesmo assim, ainda é reino.
E, mesmo em ruínas, é meu.
Não há mais plateia aqui, não há aplausos, não há julgamento. Não há ninguém esperando que eu explique os desmoronamentos, justifique as ausências ou apresente provas de que tentei o suficiente. Só eu, os restos e a lucidez dolorida de quem sobreviveu ao que não deveria.
Talvez seja isso que reste quando já não existe ninguém para impressionar: a possibilidade de olhar para os próprios escombros sem precisar fingir que são um palácio. Não preciso chamá-los de beleza, nem transformar cada perda em uma lição. Posso reconhecer a destruição pelo nome e, ainda assim, admitir que continuo aqui.
Fiz do fracasso uma espécie de idioma. Da perda, um altar torto. Da ausência, uma espécie de companhia. Aprendi a reconhecer os sons dessa casa, os rangidos do que restou, as correntes de ar que atravessam as paredes incompletas. Não porque tenha me acostumado a tudo, mas porque, depois de tanto tempo, até a ruína adquiriu uma linguagem que consigo compreender.
E, se existir algum Deus observando agora, ele não está acima.
Está sentado comigo no chão quebrado, em silêncio.
Não para me salvar, não para reconstruir aquilo que já caiu, nem para me convencer de que tudo aconteceu por alguma razão que ainda não sou capaz de compreender.
Apenas para me impedir de desaparecer por completo.