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Manuscrito das três faces

miguelv341
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Vagantes condenados: Boca de ouro

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Vagantes condenados: Boca de ouro

Caminhando lentamente por uma noite escura e fria, iluminada apenas pela luz prateada da lua cheia, uma criatura estranha — e muito distante do cenário pelo qual se movia com calma — deleitava-se com a paisagem deprimente. Seus passos silenciosos ecoavam sobre o terreno acidentado, enquanto ele retirava um longo e fino cigarro de seu casaco branco, levando-o aos dentes de ouro desprovidos de lábios.

“Kyeeeeeeeek!”, sua voz rangente e horripilante cortou o silêncio da noite. “Que noite espetacular é essa! A lua, em todo o seu esplendor, paira sobre nós, iluminando esse cenário tão magnífico.” Ele tragou profundamente, mas nenhuma fumaça escapou; aos poucos, notou a ausência de fogo para acendê-lo.

Seus olhos, vazios e sem vida, varreram o horizonte, absorvendo cada detalhe da macabra paisagem que o rodeava. O cheiro ferrugento de sangue pairava no ar como um perfume nauseante e tentador. “A morte espreita este lugar...”

Apesar da beleza irreal da noite, algo de terrivelmente errado podia ser sentido. A estranha criatura se movia com tanta graça pelas sombras que se destacava, revelando uma natureza de outro mundo. Trajava um terno branco imaculado que, diante da noite de luar, revelava a ausência de pele e a carne viva por baixo, exibindo uma linha negra que se estendia do queixo até o pescoço.

Seus passos o levaram a uma poça de sangue que se espalhava em direção ao horizonte, formando um longo e sinistro rio carmesim. Cadáveres mutilados começaram a surgir, empilhados em montanhas de corpos secos e retorcidos, com seus órgãos arrancados e o sangue derramado por todo o chão.

A boca de ouro parou, aspirando profundamente o ar impregnado de morte. Um brilho mórbido se acendeu em seus olhos sem vida, enquanto seus dentes dourados reluziam ameaçadoramente sob a luz da lua.

Os corpos das vítimas jaziam no chão, violados de maneiras extremamente violentas e brutais. Aquela cena sombria e perturbadora parecia emanar uma energia sinistra, como se algo vindo de muito além deste mundo tivesse se manifestado ali.

Levantando suas mãos carnudas, o ser misterioso causou uma pequena vibração que ecoou por todo o local — uma vibração que apenas os mortos podiam perceber. Era um chamado, convocando os espíritos dos falecidos a se reunirem à sua volta. Respondendo a esse chamado, os mortos se ergueram com expressões vazias no rosto e se aproximaram dele com um ar de deferência.

— Nós saudamos humildemente o quinto filho do terceiro supremo! — exclamaram em uníssono, numa reverência quase mecânica.

Abrindo a mandíbula em um suposto sorriso sinistro, um brilho azul resplandeceu do fundo daquele vazio branco chamado de olhos. Retirando o cigarro dos dentes de ouro, buscou nos bolsos um isqueiro ou fósforos para acendê-lo. Olhando em volta, perguntou com deboche aos mortos:

— Se não for incômodo, algum de vocês possui fogo?

Mas não houve resposta, apenas um silêncio que pareceu pesar sobre o ambiente.

— Achei que não... — murmurou ele, com a voz grave e rouca. — Bom, então! Qual foi o arrombado que perturbou a natureza e, consequentemente, a mim?

Um dos mortos, com os olhos vidrados e a voz trêmula, respondeu:

— Ele... ele... ele... não é um ser desta dimensão!

O boca de ouro assentiu, pensativo.

— Hmm, estamos lidando com uma besta do abismo. Humph, vamos, diga-me o que aconteceu aqui.

E assim, o morto começou a relatar os eventos que os haviam levado àquela situação terrível:

— Achamos que, se fizéssemos isso, alcançaríamos a imortalidade e um poder absoluto, sem fim! Ah! Não poderíamos estar mais errados... Os perigos de fazer isso são muito reais e não devem ser ignorados. Muitas vezes, em nossa busca por poder, riqueza ou realização pessoal, esquecemo-nos dos valores verdadeiramente importantes e tratamos os outros, especialmente os mais vulneráveis, como meros peões em nossos jogos egoístas. Não os escutamos; em vez disso, os usamos como sacrifícios para o ritual de nossos próprios desejos e ambições.

— Crianças tolas! — interrompeu a criatura. — Acham mesmo que um ser do abismo, uma força superior ou a própria natureza atenderia aos seus pedidos egoístas e caprichosos sem haver terríveis consequências? Será que não percebem que, ao negligenciar a humanidade dos outros, ao tratá-los com descaso, também estão perdendo a própria humanidade — o senso de conexão e responsabilidade pelo mundo e por aqueles que os rodeiam? Precisavam aprender a ouvir as vozes daqueles que não têm voz. Necessitavam desenvolver a compaixão e o respeito pelo próximo, entendendo que suas ações afetam a todos. Só assim poderiam caminhar em direção a um mundo mais justo, equilibrado e verdadeiramente sagrado.

— Fomos cegos por nossa própria ganância e ambição desmedida — lamentou o morto —, e agora pagamos um preço terrível por isso.

— Idiotas! Todos vocês são idiotas se acham que podem escapar impunemente dos seus pecados só porque agora entenderam o básico da decência. Se pensam assim, estão muito enganados!

Erguendo a mão, uma fenda se abriu na terra e enormes tentáculos negros emergiram, envolvendo as almas daqueles seres miseráveis. Eles imploravam por misericórdia, suplicando desesperadamente por perdão, mas suas súplicas caíam em ouvidos surdos.

— Seus pecados contra a natureza e contra as leis do mundo são imperdoáveis! Trouxeram um ser do abismo para esta realidade, perturbando a ordem natural das coisas. Agora pagarão o preço final por sua arrogância e desrespeito!

Os tentáculos os puxavam cada vez mais fundo naquele abismo negro e sem fim, enquanto se debatiam e gritavam em vão.

— Não! Por favor, deixe-nos ir! Faremos qualquer coisa! — imploravam.

Com uma satisfação sinistra, a criatura riu:

— Keekeek... Keekeeeke! Keeeekeeekek!

Deleitava-se ao vê-los sendo engolidos pelas trevas, com seus gritos de agonia e desespero ecoando até se perderem na imensidão sombria.

— A justiça foi feita. Esses transgressores tiveram o merecido destino. Agora, resta-me apenas limpar a bagunça que criaram e restaurar a ordem natural das coisas... Meu trabalho aqui ainda não terminou.

Caminhando pela longa noite enquanto os berros ecoavam pelas sombras, o boca de ouro recolhia as almas pecadoras, confinando-as em um abismo próprio.

— Crianças, esse é o castigo que vocês merecem por ousarem brincar com forças que não compreendem. Tolos mortais, acham que podem se comunicar por meio de rituais de invocação e ser atendidos assim como foram? Se tivessem sorte, teriam sido completamente ignorados por aqueles a quem convocaram! Kyeeeeeeeek!

Seguindo o rastro de destruição deixado pelo ser do abismo, ele encontrava cada vez mais estruturas macabras feitas a partir de corpos retorcidos e mutilados. Membros humanos eram dispostos em posições que nunca deveriam ocupar, criando uma cena de puro horror. Braços, pernas, troncos e cabeças — na maioria torcidos, quebrados ou divididos em partes — compunham aquele cenário demoníaco. Os órgãos internos eram usados como decoração, enfeitando os corpos inertes.

— Kyeeeeeeeek, parece que temos aqui uma criança com um grande senso de humor. Hum?! Espere... talvez eu esteja enganado, mas essa criança ainda não alcançou a divindade, embora esteja a um passo de consegui-la. Não é mesmo?

Uma gigantesca massa negra, rodeada de incontáveis olhos e fios, esgueirava-se ao seu redor. Aquela parte poderia ser chamada de sua “cabeça”.

— Eu sei o que tu és e a quem serve!

Estendendo-se no horizonte, o invasor do abismo pintava o ambiente com suas cores, refazendo o cenário.

— Facilitemos as coisas um para o outro. Suma daqui!

Notando a presença da criatura, o invasor se acuou como um animal diante de um predador maior. Grunhiu em resposta ao medo, e o som reverberou por toda a atmosfera, eletrificando o ar, estilhaçando o espaço e rachando a terra, de onde passou a escorrer lava incandescente.

Mesmo com o horrível grito da criatura, a figura humanoide mantinha a postura, sem demonstrar qualquer emoção.

— Não acha que exagerou um pouco, criança? — questionou, com a voz carregada de desaprovação. — Puxa, você é realmente feio! — exclamou, soltando uma risada debochada. — Kekekekeke!

Contrariando as expectativas, a resposta do invasor foi o ataque.

Com um simples estalar de dedos do boca de ouro, o tempo — que corria como as correntezas de um rio — foi interrompido. Tudo retrocedeu ao seu devido lugar e, em questão de segundos, a natureza retornou à sua ordem.

Notando tardiamente sua situação, o invasor tentou reagir, mas a boca de ouro fez sua jogada.

— Não seja tão arrogante, feioso — disse, com uma voz calma e serena. — Você ainda tem muito a aprender sobre este mundo.

Batendo o pé no chão com força, ele abriu uma fissura na terra de onde emergia um líquido negro e viscoso. Desse mar sombrio, levantaram-se braços longos e retorcidos que se enrolaram ao redor do corpo do invasor, arrastando-o com violência para dentro do fenda.

Aos berros, a entidade se debatia furiosamente, tentando se soltar do aperto mortal.

— Relaxe, meu querido. O lugar para onde vou mandá-lo é bem agradável e pacífi... Ops, errei o destino! Keeeekeeekek! Keekeeekeeek! — deleitou-se no mais puro deboche, soltando uma risada macabra e estridente.

O invasor lutava com todas as suas forças, mas todo esforço era em vão. Lentamente, ia sendo puxado para dentro da fissura, revelando, com aquela visão, a verdadeira forma demoníaca do boca de ouro.

— Tentativa inútil, meu caro — murmurou o ser, com o tom de voz carregado de satisfação sádica.

Logo atrás dos braços, seres humanoides esqueléticos se ergueram, exibindo corpos retorcidos e deformados. Seus rostos eram ocultos por máscaras brancas e seus membros eram estranhamente alongados e contorcidos. Deles emanava o mesmo líquido negro, envolvendo-os em movimentos sinistros e desarticulados. Alguns se moviam com braços e pernas virados ao contrário, enquanto outros se arrastavam ou dobravam os membros em ângulos impossíveis, produzindo um som ensurdecedor de ossos estalando e quebrando — capaz de levar qualquer mortal à loucura.

Enquanto os braços puxavam a criatura para dentro da fissura, esses humanoides monstruosos a despedaçavam e jogavam seus membros no mar negro, ignorando os gritos de desespero e os pedidos agônicos de clemência que ecoavam pela paisagem desolada.

— Caramba! Você é realmente persistente, meu jovem!

Um dos humanoides se aproximou do mestre e o reverenciou educadamente, estendendo um isqueiro para que ele pudesse acender o cigarro.

— Keekeekeek, oh! Bem o que eu precisava!

Pegou o isqueiro com alegria e o levou até o cigarro. Finalmente conseguiu acendê-lo, e a fumaça se espalhou pelo ar, erguendo-se na mesma medida que sua satisfação.

— Keekeekeek... Kekekekeke! Qual é o seu nome? — perguntou, curioso. — Ah! É mesmo, eu havia esquecido de que, quando vocês são mergulhados no rio, as memórias são a primeira coisa a morrer, antes mesmo do corpo. Às vezes me esqueço dessas coisas... E olha que fui eu quem criou essa habilidade. Bom, eu e o velho.

— Me... Meu nome é... Noru.

— Quê?! Você se lembra de quem é? — exclamou, surpreso.

— Só o... meu nome.

— Hmm, foda-se! Eu estava precisando mesmo de um servo. Alegre-se, garoto! A partir de agora, você é o meu primeiro servo!

Noru hesitou por um momento, mas aceitou de bom grado a proposta.

— Eu... aceito.

Um pacto de mestre e servo foi estabelecido entre eles, criando um elo espiritual que os ligava. Essa conexão concedeu a Noru uma imensa quantidade de energia negra, forçando sua evolução.

Uma tempestade negra rodeou o corpo de Noru, transformando-o e levando-o ao próximo passo de sua jornada. O jovem sentia uma energia poderosa percorrendo suas veias — uma sensação de poder jamais experimentada.

Aquela estranha criatura parecia ter planos para ele, e Noru não tinha ideia do que o aguardava no futuro. Mas, por ora, estava disposto a seguir seu novo mestre, curioso para descobrir o que o destino lhe reservava.

O homem, antes magro e esquelético, agora possuía um corpo musculoso, coberto por roupas pretas de couro. Sua máscara também sofrera transformações significativas, ganhando chifres pontiagudos que lhe conferiam um aspecto ameaçador. Um longo sorriso, lembrando as máscaras tradicionais dos *onis*, formou-se em seu rosto coberto.

Com uma voz grave e soturna, ele dirigiu-se ao mestre:

— Mestre.

Observando-o com um olhar penetrante, o boca de ouro respondeu:

— Sim, muito bom... Hmm, você já possui um nome, mas ele não reflete mais o seu estado atual. Sua evolução requer uma nova identidade, algo que represente a força que você encarna agora.

O homem mascarado aguardava ansioso, com os músculos tensos, pronto para receber o nome que o definiria nessa nova etapa.

*Noru... Noru... Nocturne!*

— Nocturne! A partir de hoje, você será conhecido como Nocturne. O que achou?

— Agradeço, meu mestre. É um nome digno, que combina perfeitamente com a minha natureza.

“Guuuuuuaaaaackkk! Huuuuuuuuuh!”, a Anomalia no abismo debatia-se e esperneava, tentando sair.

— Que cara mais insistente! Mas é um bom momento para ensinar a você o que eu sou — disse o mestre, com olhos emanando profunda malícia. — **Sétima forma: Gravis Arbor!**

As águas negras do rio começaram a se agitar e a se reunir em um único ponto, onde uma velha árvore morta emergiu, rodeada por uma nuvem de vaga-lumes brilhantes que pareciam dançar ao seu redor.

— O que é... essa... coisa?! Quem... é você?! — rugiu a entidade agoniada.

— Já que está tão curioso, vou contar quem sou. Eu sou o quinto filho daquele que não está mais neste mundo! Nasci de um resquício, de um fragmento dele. Assim como meus irmãos, que foram nomeados diretamente por ele, eu também fui agraciado com um nome: **Artrox Nigrum Abyss**.

Nocturne olhou para o mestre com os olhos arregalados, claramente intimidado pela presença imponente e pela voz carregada de autoridade.

Com um leve movimento de mão, Artrox fez os galhos da árvore morta se moverem. Um vento frio soprou sobre a entidade, congelando-a antes que pudesse reagir. Nocturne observava, fascinado, o poder demonstrado por seu senhor.

Do corpo inanimado daquele ser do abismo, um pequeno vaga-lume surgiu entre os resquícios de sua forma caída. O inseto brilhante juntou-se aos outros de sua espécie, seguindo em direção à árvore morta no horizonte.

Assim como haviam aparecido, os vaga-lumes se foram, deixando para trás apenas o rastro efêmero de sua passagem, como se nunca tivessem estado ali.

De repente, a voz de Artrox ecoou na escuridão:

— Vamos, meu servo! Kekekekeke!

— Para onde vamos, mestre?

— Para uma igreja! Esta coisa não pertence ao abismo. Keekeekeeekeee!

E assim, mestre e servo desapareceram entre as sombras da noite à medida que a lua caía e o sol começava a despontar no horizonte.

Aquela fora mais uma passagem furtiva de criaturas sobrenaturais, deixando para trás apenas a certeza de que algo extraordinário ocorrera naquela noite escura — o prelúdio de algo ainda maior que estava por vir.

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