Qliphoth (1)
— Não importam as palavras, a primeira luz ilumina este mundo escuro.
Perdurou por milênios, testemunhando o fim do mundo que conhecia e habitava, assistindo ao início do nascer das primeiras melodias da vida e à centelha da criação.
Por eras, a serpente observou a grande guerra progenitora do bem e do mal; com seus olhos, pôde assistir ao sangue de um irmão cair, manchando a terra e a caminhada eterna de um pecador.
— Irônico, não acham? Observar não é nada mais do que dormir de olhos abertos. Para alguém presente desde o princípio, não é muito diferente de um recém-nascido.
Raízes expandiram-se e contorceram-se freneticamente como um lodo negro, formando gavinhas pretas e construindo uma árvore morta e seca.
Rachaduras percorriam o tronco da ressecada árvore, e do lodo as águas negras se entrelaçaram com a passagem das almas; por este córrego, as almas fluem suavemente, formando folhas que brilham em tom branco-azulado.
Refugiando-se nos confins do mais profundo abismo em busca da autocontemplação de sua existência, mesmo reinando no topo das criaturas dos sonhos, um ser tolo e ignorante era incapaz de controlar a totalidade da extensão de sua própria imensidão.
Sobre a outrora vastidão da fronteira do limiar dos mundos, um ser de grandeza colossal repousava em seu trono de pedra. Este ser era tão vasto e poderoso que até mesmo tinha dificuldades em reter sua mente consciente. Depois de apenas um curto período “acordado”, a serpente ficava cansada e sonolenta, pois se manter consciente exigia uma quantidade considerável da imensidão de sua força.
Tamanha é sua imensidão que esta é a única solução para deixar de ser uma entidade tola e ignorante. No entanto, na maior parte do tempo, o rei sábio permanece em repouso.
Imerso em mais um de seus longos e profundos sonhos, o grande ser abriu seus olhos imensos. Naquele momento, um único ponto, um aglomerado de partículas quentes, misturou-se com a luz e a energia em um único evento que se equiparava à própria explosão cósmica que deu início a tudo.
A partir desse instante, esse aglomerado de luz começou a se expandir e a esticar-se gradualmente, dando início a um processo de transformação e formação de pequenos pontos brilhantes. Enquanto o ser adormecido sonhava, seu subconsciente alimentava essa expansão, moldando a realidade a partir de sua própria essência divina.
O rei dos sábios observava os corpos celestes emitirem imensidões de energia luminosa. Apesar de seus tamanhos serem mil e oitocentas vezes maiores do que o Sol, aos olhos deste ser primordial, eles não passavam de pequenos pontinhos brilhantes no vasto abismo.
O surgimento desses astros luminosos desencadeou uma verdadeira reação em cadeia, gerando fúria entre os seres que viviam naquelas regiões exteriores e desequilibrando as criaturas que habitavam nas trevas profundas do abismo.
Um coro de gritos selvagens e caóticos, verdadeiras “melodias” horríveis, se elevou até abalar os próprios alicerces do ambiente. “Grrruuuuuuuack!”, rugiam as feras aterrorizadas, com suas vozes ecoando por todo o tecido do espaço-tempo.
A grande serpente observava tudo aquilo com seus olhos atemporais, testemunhando o choque do desequilíbrio da fenda demoníaca.
Em meio à escuridão da noite, sob o manto dos astros no céu, uma criatura gigantesca e escamosa se arrastava sobre o lodo negro. Seus movimentos suaves foram seguidos por um gesto brusco ao abrir a boca, revelando um fundo escuro ausente de luz. Uma força gravitacional emanava da fenda, atraindo tudo ao seu redor e comprimindo tudo até a destruição.
Observando atentamente todo o cenário, uma jovem mulher, vestida com um longo vestido preto e carregando duas longas asas nas costas, sentava-se tranquilamente sobre o colo do enorme ser celestial. Ela cuidava e acariciava suavemente o corpo dele, enquanto olhava intrigada para o inesperado acontecimento que se desenrolava diante de seus olhos.
Era um raro caso que abalou o equilíbrio. Um sorriso longo formou-se lentamente em seus lábios, enquanto ela murmurava:
— Inesperado.
Com um rápido movimento de seu dedo, a mulher explodiu o corpo da misteriosa criatura em milhões de pedaços. O corpo morto do ser começou então a se desfazer como pó, retornando gradualmente ao abismo do qual havia surgido.
Num tom provocativo, a mulher indagou ao grande ser:
— Até quando vai ficar dormindo?
Diante do silêncio, o enorme ser convocou, com um simples movimento de sua mão, uma joia branca e reluzente, cuja beleza não podia ser facilmente descrita. Ele então esmagou a joia, espalhando seus fragmentos pelos diversos corpos celestes ao redor, forçando-os a passar por um processo de incubação.
— Você sabe que muitos deles não vão aguentar o processo? — ela questionou novamente.
Um som gutural, quase inaudível, escapou dos lábios do grande ser:
— Lyuhu.
E então, o silêncio voltou a reinar supremo sobre todo aquele abismo, enquanto a mulher alada fechava lentamente seus olhos, mergulhando naquela escuridão eterna.
“Os corpos celestes estão se formando a uma velocidade assombrosa, com uma enorme quantidade de matéria sendo compactada em um espaço menor que um único átomo. Isso se deve a uma intensa atração gravitacional, tão forte que nem mesmo a luz consegue escapar de seu interior.”
“É fascinante imaginar: quanto tempo levará até que possamos contemplar o brilho inocente de nossas amadas crianças, ainda nutridas em nosso útero?”
“Recentes observações nos permitiram desvendar muito sobre esses incríveis corpos celestes. Descobrimos que, após o estágio de sequência principal, as estrelas entram em uma fase de gigante vermelha. Nesse estágio, seus fetos irão queimar suas cascas, crescendo centenas de vezes seu tamanho original e esfriando, o que faz com que emitam uma luz vermelho-alaranjada. Esse gigantismo é o resultado do desequilíbrio entre a pressão das reações nucleares e a força da gravidade que mantém a estrela unida. Conforme o combustível nuclear se esgota, a pressão diminui, permitindo que as camadas externas se expandam e aumentando o tamanho da estrela. Ela então entra em uma fase conhecida como a de um casulo negro, com uma força gravitacional comprimida. Finalmente, após a fase de supergigante vermelha, esses casulos negros explodem em um evento cataclísmico conhecido como supernova. É dessa explosão violenta que novos elementos químicos são forjados e disseminados pelo universo, dando forma a gerações dos filhos da serpente.”
— Deste manuscrito que hoje contemplará vossos olhos, foi assim escrito e editado por quem os viu nascer. No segundo dia do firmamento, na separação do dia e da noite, do céu e da terra, os suspiros dos filhos ecoaram pela primeira vez no universo. Puros e imaculados, reluziam como as estrelas que estavam diante dos olhos de sua mãe… mas, mesmo entre seus irmãos, um se destacava como o mais brilhante e belo, o maior de todos e, consequentemente, aquele que carrega a força do pai.
A soberba precede a queda. Admirado por um terço de seus semelhantes, o brilho em seu coração foi lentamente se extinguindo, dando espaço ao orgulho que o consumia. Logo, considerou-se igual ao pai.