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Lobotomizando nossos dons — Parte 2

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Talvez por isso eu olhe para Van Gogh de uma maneira diferente.

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NunoParreira

Na primeira parte ficámos na pasta fechada. Agora trazes o Van Gogh, e a pena eu percebo, mas ele pintou até ao fim quase sem vender nada, e isso não me parece um dom a morrer. O que tu contas parece mais um dom arrumado num canto por falta de tempo, e um

Na primeira parte ficámos na pasta fechada. Agora trazes o Van Gogh, e a pena eu percebo, mas ele pintou até ao fim quase sem vender nada, e isso não me parece um dom a morrer. O que tu contas parece mais um dom arrumado num canto por falta de tempo, e um canto arruma-se de novo.

Conteúdo da publicação

Talvez por isso eu olhe para Van Gogh de uma maneira diferente.

Quando vejo seus quadros, não penso primeiro na genialidade.

Penso no homem.

É estranho olhar para alguém que se tornou tão grande depois de morto. A obra sobreviveu. O nome sobreviveu. O reconhecimento chegou.

Mas a pessoa não estava mais lá para receber nada disso.

E, às vezes, sinto mais pena do que admiração.

Não pena dos quadros.

Pena do homem que existia antes deles virarem monumentos.

É fácil olhar para uma obra pronta e chamá-la de genialidade.

Mais difícil é imaginar a pessoa sentada diante daquilo quando ainda não existia reconhecimento algum.

Quando era apenas ela, o papel, a tinta e o tempo.

Talvez seja por isso que minha pasta de desenhos me incomode tanto.

Ela não parece uma coleção de trabalhos antigos.

Parece um pequeno arquivo de uma pessoa que morreu.

Abro a pasta — quando consigo abrir — e encontro desenhos feitos por alguém que eu conheço perfeitamente e, ao mesmo tempo, não conheço mais.

Sei que fui eu.

Mas não sinto que sejam meus.

É como encontrar um objeto entre as coisas de alguém que morreu e descobrir que aquele objeto pertencia a você.

Você segura.

Olha.

Reconhece.

“Eu já tive isso.”

Mas não sente vontade de recuperar.

Não sente saudade.

Existe apenas um vazio.

Talvez essa seja a parte mais estranha de abandonar um dom.

As pessoas imaginam que você sente falta.

Que um dia vai voltar.

Que basta pegar novamente o lápis.

Mas e quando você não quer?

E quando o lápis não significa mais liberdade, mas cobrança?

E quando desenhar deixa de ser aquilo que você fazia porque gostava e passa a representar tudo aquilo que você acha que deveria ter se tornado?

Talvez eu tenha feito isso comigo.

Transformei uma brincadeira de criança em uma dívida de adulto.

A criança desenhava porque queria desenhar.

O adulto começou a pensar em carreira, estilo, projeto, mercado, qualidade, reconhecimento, dinheiro.

A criança fazia.

O adulto precisava justificar.

E talvez seja aí que alguns dons comecem a morrer.

Não porque desaparecem.

Mas porque nós os colocamos dentro de uma sala onde tudo precisa ter uma finalidade.

Meu desenho precisava virar alguma coisa.

Uma história em quadrinhos.

Um trabalho.

Uma profissão.

Um projeto.

Uma carreira.

Talvez ele não pudesse simplesmente continuar sendo desenho.

Enquanto isso, outras coisas foram ocupando o espaço.

Publicidade.

Direção de arte.

Fotografia.

Vídeo.

Montagem.

Motion graphics.

Áudio.

Eu continuava criando.

Só não criava mais aquilo que um dia achei que seria minha vida.

E talvez isso explique por que escrever hoje é diferente.

Eu não sei se escrevo melhor.

Na verdade, provavelmente não.

Mas escrevo.

Não espero estar pronto.

Não espero ter uma obra.

Não espero saber exatamente onde aquilo vai chegar.

Às vezes nem releio.

Escrevo e publico.

É quase uma forma de não repetir o mesmo crime.

Não quero transformar a escrita em outra mesa de desenho de 120 por 100 centímetros.

Não quero comprar as ferramentas certas, estudar todas as referências, esperar o momento perfeito e depois passar vinte anos olhando para aquilo sem começar.

Quero simplesmente escrever.

Talvez seja isso que significa me permitir criar novamente.

Não recuperar o que morreu.

Não ressuscitar aquele menino.

Ele já foi.

E talvez eu precise aceitar isso.

Porque existe uma diferença entre honrar uma pessoa que você foi e tentar voltar a ser ela.

Eu não quero voltar.

Só quero parar de matar as próximas versões de mim.

Talvez esse seja o verdadeiro problema.

Passei tanto tempo lamentando o dom que perdi que quase não percebi os outros dons que ainda estão vivos.

Não quero lobotomizá-los também.

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Thoughts

  • NunoParreira

    Na primeira parte ficámos na pasta fechada. Agora trazes o Van Gogh, e a pena eu percebo, mas ele pintou até ao fim quase sem vender nada, e isso não me parece um dom a morrer. O que tu contas parece mais um dom arrumado num canto por falta de tempo, e um canto arruma-se de novo.

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  • mariinha

    Vixe, a mesa de 120 por 100 parada vinte anos. Minha tia tem uma maquina de costura assim no quarto, coberta com pano, e ninguem mexe nem deixa vender

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