A tarde qualquer que, anos depois, a gente descobre que foi das melhores me fez pensar que felicidade só se reconhece de costas, quando já passou. Aposto que muita gente vai ler isso e lembrar da sua, uma que não custou nada e não estava em plano nenhum. E o foguete voando de ré no final me fez rir alto hahaha
Liberdade × Felicidade × Ganância
Estava vendo vídeos na internet, pessoas em podcasts falando sobre felicidade, dizendo que dinheiro traz felicidade e que, se você ainda não é feliz, talvez seja porque não tem um milhão na conta.
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A tarde qualquer que, anos depois, a gente descobre que foi das melhores me fez pensar que felicidade só se reconhece de costas, quando já passou. Aposto que muita gente vai ler isso e lembrar da sua, uma que não custou nada e não estava em plano nenhum.
Conteúdo da publicação
Estava vendo vídeos na internet, pessoas em podcasts falando sobre felicidade, dizendo que dinheiro traz felicidade e que, se você ainda não é feliz, talvez seja porque não tem um milhão na conta.
Vejo isso como um equívoco. Um desespero por atenção disfarçado de certeza. A pessoa fala diante das câmeras com força, gosta da sensação que provoca nos outros ouvintes que concordam com ela. Mas penso que, no íntimo, existe uma máscara.
Se dinheiro trouxesse felicidade, os mortos voltariam à vida.
Acho que é por isso que caixão não tem gaveta.
Se dinheiro fosse felicidade, por que as pessoas brigam tanto quando alguém morre por causa dos bens que deixou? É curioso como essas brigas parecem mais ferozes. Usam mais o fígado do que o cérebro. Esquecem que existe uma maneira correta de resolver as coisas.
Aposto que alguém vai me dizer:
— Se dinheiro não traz felicidade, então me dê o seu dinheiro.
Mas isso não é felicidade.
É ganância.
E afinal, o que o dinheiro provoca em nós para existir essa fissura de chamá-lo de felicidade?
Talvez seja justamente o nosso ledo engano.
Dinheiro é bom, sim. Não tenho problema algum em dizer isso. O problema é acreditar que ele compra aquilo que não está à venda.
Dinheiro traz responsabilidade. Muitas vezes, troca problemas simples por problemas complicados.
Pessoas que nunca falaram com você passam a enxergá-lo de outra maneira. Algumas se aproximam. Algumas demonstram interesse. Algumas passam a gostar de você.
Mas que tipo de amor é esse?
Você pode comprar companhia, atenção, conforto. Pode até comprar uma espécie de amor. Mas esse amor vem com contrato, ainda que o contrato não esteja escrito.
E quando o dinheiro acaba, você é dispensado.
E ainda reclamamos de ser dispensados.
Reclamamos da própria regra que aceitamos intuitivamente.
Talvez o dinheiro não compre felicidade.
Talvez ele compre uma coisa muito mais perigosa:
liberdade.
Dinheiro compra seu tempo.
Compra a possibilidade de dizer não.
Compra a possibilidade de escolher onde morar, o que fazer, quem ajudar, quando parar, quando começar novamente.
Você pode transformar planos em coisas concretas. Pode ajudar pessoas. Pode mudar destinos.
E é justamente aí que começamos a confundir liberdade com felicidade.
Porque liberdade dá a sensação de que podemos dominar o destino com as próprias mãos.
O dinheiro passa a ser uma ferramenta para medir o quanto de liberdade conseguimos ter.
E, quando percebemos, já não estamos tentando ser felizes.
Estamos tentando controlar a realidade.
Um dia vi um influencer dizendo que, se tivesse um trilhão na conta, mudaria o mundo.
Fiquei pensando no tamanho desse desejo.
Quanto dinheiro uma pessoa precisa ter para acreditar que consegue mudar o mundo?
E o plano precisa ser muito horripilante para alguém acreditar que um trilhão seria suficiente.
Diria que muita gente conhece a história do Deus da Bíblia: o criador dos céus e da Terra, do universo e da vida.
E, segundo a própria narrativa bíblica, ele tentou mudar o mundo mais de uma vez.
E ainda assim, o mundo continuou sendo o mundo.
Então aparece um ser humano diante de uma câmera, sem muita expressão ou gesto, dizendo que, com dinheiro suficiente, vai conseguir fazer aquilo que nem mesmo uma figura considerada divina conseguiu fazer dentro da própria narrativa.
Desejo boa sorte a esse ser humano.
Talvez ele ainda confunda dinheiro com sabedoria.
Dinheiro pode comprar acesso ao conhecimento.
Pode comprar pessoas que sabem.
Pode comprar laboratórios, livros, empresas, pesquisadores, tempo.
Mas não compra sabedoria.
E conhecimento não necessariamente traz dinheiro.
Muito menos felicidade.
A felicidade talvez esteja justamente naquilo que não conseguimos perceber enquanto acontece.
Está no que passou.
Naquilo que sentimos depois que passou.
Em um momento que não planejamos.
Em uma conversa que não sabíamos que seria importante.
Em alguém que estava ali e que um dia deixou de estar.
Em uma tarde qualquer que, anos depois, percebemos que era uma das melhores tardes de nossas vidas.
A felicidade não avisa quando chega.
Não manda convite.
Não aceita planejamento.
E talvez seja justamente por isso que tentamos controlá-la.
Queremos programar até a felicidade.
Queremos saber quanto dinheiro precisamos, quanto sucesso precisamos, quantas pessoas precisam nos admirar, qual casa precisamos ter, qual carro precisamos dirigir.
Como se felicidade fosse uma equação.
Mas talvez não seja.
Talvez felicidade seja aquilo que acontece enquanto estamos ocupados tentando controlar a vida.
Então, se em algum momento você perceber que foi feliz sem ter planejado ser...
Considere-se com sorte.
Porque liberdade podemos comprar.
Dinheiro podemos acumular.
Ganância podemos alimentar.
Mas felicidade...
Essa parece ter o péssimo hábito de aparecer quando não estamos olhando.
Já temos um trilionário no mundo.
Faz foguete voar de ré.
Constrói máquinas capazes de colocar pessoas no espaço.
Mas ainda apanha quando tenta mudar o mundo de acordo com a própria visão.
Pobre alma.
Talvez ele tenha dinheiro demais para perceber uma coisa simples:
o mundo nunca esteve à venda.
Thoughts
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PermalinkTal como no texto do perdão, vou fazer de advogado do outro lado, porque o teu texto dá meia razão ao influencer. Se o dinheiro compra tempo, a possibilidade de dizer não e de escolher onde viver, compra as condições sem as quais quase ninguém consegue ser feliz. Epicuro pedia pouco, mas pedia um jardim e amigos com tempo livre. A felicidade pode não estar à venda e a porta para ela ter preço.
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PermalinkMinha avo fala do caixao sem gaveta desde que eu me entendo por gente, e ela nunca viu um milhao na vida
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PermalinkA tarde qualquer que, anos depois, a gente descobre que foi das melhores me fez pensar que felicidade só se reconhece de costas, quando já passou. Aposto que muita gente vai ler isso e lembrar da sua, uma que não custou nada e não estava em plano nenhum. E o foguete voando de ré no final me fez rir alto hahaha
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