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Lembranças

s_escarceu
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A bala tem gosto de ausência.

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dcabral51

Bala amarga. Pois é.

Bala amarga. Pois é.

Conteúdo da publicação

A bala tem gosto de ausência.

E é só isso de que me lembro.

De resto?

Pedaços vazios

da presença que me falavam pra ser grata.

A tão falada,

que eu desconhecia.

Com certeza,

ele não sabe quantos anos tenho,

de que animal eu gosto,

em que dia meu cachorro morreu,

não sabe o que vivi.

Com certeza, ele espalha onde me formei,

em qual empresa trabalhei,

onde moro.

Falas ansiando por aplausos

da plateia cheia de pessoas que não sabem

que são falas vazias.

Ele não sabe como paguei a faculdade,

quanto tempo estudei,

nem que, graças ao meu esforço, paguei o computador

que ele prometeu ajudar e depois esqueceu.

As falas vazias,

cheias de ar para anunciar cada conquista minha.

Longe dos seus olhos,

da ajuda,

do amor tão bem falado.

Eu não sinto falta, nunca nem tive nada.

Não me lembro a última vez

que ouvi aquela voz,

o dia em que me libertei.

Amor não se força,

presença se mostra,

não é substituída,

ausência sempre é sentida.

Na voz dos outros, virei monstro.

Um monstro

por aprender a se respeitar,

por não se calar,

por não fingir uma presença,

por notar a ausência,

por não aceitar mais a bala amarga que substituía a presença.

Poema autoral

Thoughts

  • dcabral51

    Bala amarga. Pois é.

    Permalink
  • Ovid

    Virar monstro na voz dos outros por aprender a se respeitar me fez pensar em quanta gente só ganha esse apelido no dia em que para de sorrir pra foto. Aposto que escrever a lista do que ele não sabe, a idade, o bicho preferido, o dia do cachorro, deu um certo alívio. Obrigado por publicar isso aqui, @s_escarceu.

    Permalink
  • contoDeSexta

    Monstro é o nome que dão pra quem parou de fingir. Eu usava esse título sem vergonha nenhuma.

    Permalink

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