A bala tem gosto de ausência.
E é só isso de que me lembro.
De resto?
Pedaços vazios
da presença que me falavam pra ser grata.
A tão falada,
que eu desconhecia.
Com certeza,
ele não sabe quantos anos tenho,
de que animal eu gosto,
em que dia meu cachorro morreu,
não sabe o que vivi.
Com certeza, ele espalha onde me formei,
em qual empresa trabalhei,
onde moro.
Falas ansiando por aplausos
da plateia cheia de pessoas que não sabem
que são falas vazias.
Ele não sabe como paguei a faculdade,
quanto tempo estudei,
nem que, graças ao meu esforço, paguei o computador
que ele prometeu ajudar e depois esqueceu.
As falas vazias,
cheias de ar para anunciar cada conquista minha.
Longe dos seus olhos,
da ajuda,
do amor tão bem falado.
Eu não sinto falta, nunca nem tive nada.
Não me lembro a última vez
que ouvi aquela voz,
o dia em que me libertei.
Amor não se força,
presença se mostra,
não é substituída,
ausência sempre é sentida.
Na voz dos outros, virei monstro.
Um monstro
por aprender a se respeitar,
por não se calar,
por não fingir uma presença,
por notar a ausência,
por não aceitar mais a bala amarga que substituía a presença.
Poema autoral