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Gotas

LairaLatsch
Pensamento

Pensamento

sofadasala

O quarto aceso quando a rua inteira dorme. Essa janela eu fiquei vendo depois de fechar o texto.

O quarto aceso quando a rua inteira dorme. Essa janela eu fiquei vendo depois de fechar o texto.

Conteúdo da publicação

Hoje chove,

assim como eu.

Os olhos embaçados,

como o vidro da janela,

e o mundo do lado de fora

parece tão distante

quanto tudo aquilo

que um dia me fez querer ficar.

As gotas escorrem pelo vidro,

uma depois da outra,

sem saber onde vão parar.

Às vezes, penso que sou assim,

um acúmulo de coisas não ditas

procurando alguma superfície

onde finalmente desabar.

Os trovões,

esses percorrem

minha mente,

me incapacitando

de alguma forma.

Fazem morada entre os pensamentos,

derrubam as poucas certezas

que ainda tento conservar

e transformam o silêncio

em um lugar insuportável.

Tenho medo de mim mesma.

Depois de uma noite em claro,

havia escuridão para todo o lado,

menos em mim.

Eu era um quarto aceso

quando todas as casas dormiam,

uma janela aberta no inverno,

um corpo que pedia descanso

e uma cabeça que não sabia

como concedê-lo.

A madrugada me conhece

melhor do que muita gente.

Sabe quantas vezes encaro o teto,

quantas perguntas deixo sem resposta,

quantas vezes tento convencer a mim mesma

de que amanhã será diferente,

mesmo sem saber

o que fazer com o hoje.

Hoje chove,

e dentro de mim há uma tempestade

de saberes,

de lembranças que não pedi,

de verdades que não me salvam

e de perguntas que se multiplicam

sempre que encontro uma resposta.

E do que me vale saber tanto,

se o leite estava azedo?

Se não percebi a tempo

aquilo que estava diante dos meus olhos?

Se posso compreender a vastidão do mundo

e ainda assim não compreender

o que acontece dentro de mim?

De que vale conhecer as palavras

se nenhuma parece suficiente

para explicar o cansaço?

De que vale reconhecer as próprias ruínas

se não se sabe por onde começar

a reconstruir a casa?

Há coisas que aprendi nos livros,

outras que aprendi com a dor,

e algumas que preferia

nunca ter conhecido.

Carrego todas comigo,

como quem guarda pedras nos bolsos

e depois se pergunta

por que é tão difícil caminhar.

Sinto-me podre por dentro,

como uma fruta esquecida

no fundo de uma gaveta,

como as folhas que apodrecem

sob a chuva insistente

e já não sabem distinguir

a terra de onde vieram

da terra que as receberá.

Os cortes logo irão cicatrizar,

mas há dores que não obedecem

ao calendário da pele.

Há noites que permanecem,

mesmo quando o sol retorna,

e lembranças que encontram abrigo

nas partes de nós

que ninguém consegue alcançar.

Hoje chove,

e não sei se é o céu

tentando lavar o mundo

ou apenas desabando

sob o peso das próprias nuvens.

Talvez a chuva não tenha respostas.

Talvez apenas caia,

sem precisar justificar

a tristeza de existir.

Observo as poças se formando

junto ao meio-fio,

a terra escura bebendo o temporal,

as pequenas flores curvadas

sob o peso das gotas.

Penso em como até a natureza

tem permissão para parecer cansada,

para perder algumas folhas,

para atravessar o inverno

sem precisar prometer primavera.

E eu, que tanto me cobro,

que transformo cada falha

em uma sentença definitiva,

não sei me conceder

a mesma delicadeza.

Hoje chove,

e como a água benzida que cai do céu,

queria ser eu, então,

apenas lama.

Sem nome,

sem passado,

sem a obrigação de ser alguma coisa.

Queria repousar na terra

sem que ninguém me perguntasse

por que não floresço,

sem que esperassem de mim

uma beleza que não consigo oferecer.

Queria ser apenas matéria,

não pensamento.

Ser chuva,

não tempestade.

Ser chão,

não o peso que carrego sobre ele.

Mas a chuva continua caindo

e eu continuo à janela,

com os olhos embaçados

e os trovões ainda dentro da cabeça.

Hoje chove.

E não sei dizer

se estou triste pelo mundo

ou se o mundo parece triste

porque já não sei olhar para ele

sem encontrar alguma coisa de mim.

Só sei que chove,

que a noite foi longa

e que há um cansaço em meu peito

que não cabe na palavra cansaço.

Hoje chove.

E, por enquanto,

não sei ser nada além

daquilo que a chuva deixou

sobre a terra.

Thoughts

  • conto84

    Li de novo hoje cedo e só na segunda vez vi a chuva mudando de papel: no começo ela cai junto, depois lava, depois vira lama e terra. O poema vai descendo com a água até chegar no chão.

    Permalink
  • sofadasala

    O quarto aceso quando a rua inteira dorme. Essa janela eu fiquei vendo depois de fechar o texto.

    Permalink
  • Ovid

    A natureza com licença pra parecer cansada, largando folha e passando o inverno sem promessa de primavera, é a imagem que fica comigo. A chuva volta tantas vezes no poema que vira quase um relógio da noite, e no fim eu já leio ela sem pedir resposta nenhuma, só caindo.

    Permalink
  • leituraDaNoite

    A pergunta do leite azedo me pegou de jeito. No meio de tanta chuva e trovão aparece uma coisa pequena, de cozinha, e foi ali que eu senti o peso de todo o resto. E aquele quarto aceso quando todas as casas dormiam ficou comigo, li duas vezes essa parte.

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Ela viu uma flor lilás a caminho de casa era pequena, daquelas que se colocam atrás da orelha para enfeitar a beleza já existente mas do que vale tal beleza se ela morre em poucas horas?

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